Após passar três anos acompanhando de perto o caminho que seus próprios filmes percorreram por festivais internacionais, o cineasta independente Fabrício Estevam Mira chegou a uma conclusão frustrante. Segundo ele, muitos festivais de cinema experimental são comandados por pessoas completamente distantes da realidade de quem faz cinema. “Ficou claro para mim que a maioria era organizada por gente sem nenhuma experiência real em cinema”, afirma Mira, “mas com um apetite enorme pelo dinheiro de quem, de fato, produz filmes”.
Foi dessa insatisfação que nasceu o Experimental Brasil, fundado no início de 2023 em Campos dos Goytacazes, no interior do Rio de Janeiro.
Idealizado como uma alternativa ao circuito tradicional de festivais, o Experimental Brasil foi criado por e para cineastas que respiram experimentação audiovisual. O objetivo é direto: reunir, uma vez por ano, os filmes experimentais mais ousados e inventivos do mundo.
A equipe do Experimental Brasil é formada majoritariamente por atores e atrizes renomados da região, com colaborações pontuais de profissionais de outras cidades. O festival opera sob o lema Cinema Sui Iuris, expressão em latim que significa “cinema em seus próprios termos”.
A competição é dividida em categorias como Experimental Abstrato e Documentário Experimental. Os realizadores inscrevem seus trabalhos para concorrer em diversas subcategorias, incluindo Melhor Direção e Melhor Roteiro. Um grupo de especialistas avalia cada obra e seleciona apenas um número limitado de filmes para a competição oficial, em um processo criterioso que evidencia o alto nível de exigência do festival. Ao contrário do que muitos imaginam, o evento não prioriza produções brasileiras nem obras com discursos sociais explícitos. O critério é exclusivamente artístico: qualidade, risco criativo e originalidade.
As primeiras exibições aconteceram na antiga e abandonada Usina São João, um cenário que refletia o espírito cru e indomado do festival. Posteriormente, o evento migrou para o Espaço Buñuel, onde hoje o público assiste aos filmes selecionados e premiados em um ambiente mais concentrado e propício à imersão.
Neste ano, um dos filmes mais destacados do festival foi Inside A Spider, dirigido por Arseniy Gonchukov, que se sobressaiu em diversas categorias. A obra venceu Melhor Direção em Longa Experimental, Melhor Direção de Arte e Melhor Ator, além de figurar como finalista em Melhor Design de Som, Melhor Trilha Sonora e Melhor Atriz. O filme ainda alcançou seleções como semifinalista em Melhor Longa Experimental e Melhor Montagem, evidenciando seu impacto criativo tanto no campo artístico quanto técnico.
Segundo Mira, Inside A Spider representa exatamente o tipo de cinema que o Experimental Brasil busca defender: um cinema que não pede licença, que existe por conta própria e que desafia o espectador a se envolver ativamente, em vez de apenas consumir imagens.
Conhecido por valorizar talentos pouco explorados, Gonchukov confiou o universo sonoro do filme à compositora premiada Anastasia Listopadova, cujo currículo inclui trilhas para cinema, sound design, branding sonoro e música eletrônica.
O resultado é um trabalho em que o som não funciona apenas como ambientação, mas como o elemento narrativo mais agressivo do filme. A música se posiciona na fronteira entre trilha sonora e design de som, explorando estruturas dissonantes, pulsos irregulares e ruídos texturais, em vez de melodias tradicionais. Construída a partir de aglomerados harmônicos instáveis e timbres ásperos, a trilha rejeita quase completamente a forma musical clássica. Melodia, ritmo e progressão harmônica dão lugar a texturas instáveis que flutuam entre o som e o silêncio, criando um campo sonoro deliberadamente desconfortável. Essa abordagem intensifica o clima claustrofóbico e surreal do filme, embora em alguns momentos ameace sobrepor a linguagem visual ao manter um estado quase permanente de tensão.
Ancorado no design de som, o ambiente sonoro apaga as fronteiras entre música e ruído, instaurando uma sensação constante de ameaça e instabilidade. O uso de tempo não linear, variações bruscas de dinâmica e harmonias sem resolução impede qualquer alívio emocional, mantendo o espectador em permanente estado de tensão.
A música está presente ao longo de todo o filme, mas raramente cumpre um papel narrativo convencional. Em vez de marcar picos emocionais ou transições, atua como uma pressão atmosférica contínua, que se intensifica em certos momentos, mas nunca se resolve por completo. A dissonância persistente e a continuidade ambiental negam a catarse ao público, prolongando a ambiguidade entre as cenas. Quando o silêncio surge, ele é carregado de intenção, destacando rupturas psicológicas profundas.
No panorama do cinema de horror contemporâneo, Inside A Spider se alinha a um movimento crescente que prioriza o design de som em detrimento da melodia como principal motor emocional. Assim como outras obras recentes do horror experimental e autoral, o filme trata o áudio como um sistema imersivo, e não como simples acompanhamento. A influência de instalações artísticas, música ambiente e composição eletroacústica aponta para uma mudança clara: o medo nasce do desconforto prolongado, não de sustos repentinos. O trabalho de Anastasia Listopadova exemplifica como o horror moderno utiliza a abstração sonora para provocar medo em nível subconsciente, inserindo o terror diretamente na experiência do espectador. Esse impacto também se refletiu fora do Experimental Brasil, com seleções em festivais internacionais renomados como LA Indie Horror Fest, Melbourne Underground Film Festival, Holly Blood Horror Festival, Hollywood Horrorfest, Renegade Film Festival, entre muitos outros.
O compromisso do Experimental Brasil com o risco artístico também se reflete na diversidade dos filmes selecionados e premiados em 2024. A programação incluiu obras como 1:1, de Telemach Wiesinger, vencedor de Melhor Abstração Experimental; Estirpe, de Ana Maria Ferro Gómez e Daniela Ruiz Coconubo, premiado como Melhor Documentário Experimental; além de curtas como Raspberry Man, de S?awomir Milewski, vencedor de Melhor Curta Experimental. Também figuraram como finalistas Walkers (Philip Lüschen), O/S (Max Hattler), Noora (Anna Kekkonen) e Dva (Alexandra Karelina). As obras transitam entre abstração, documentário, videoclipe e curta-metragem, evidenciando a abertura do festival a múltiplas abordagens experimentais, do risco visual e estrutural às explorações radicais de som e narrativa.
Ao valorizar essa diversidade, o festival reforça a vitalidade do cinema experimental contemporâneo, oferecendo um espaço onde criadores podem testar limites e dialogar com o público em seus próprios termos.
Para cineastas iniciantes ou já consagrados, o Experimental Brasil é mais do que uma vitrine de prêmios: é um convite para integrar uma comunidade que valoriza risco criativo, originalidade e troca de ideias. Seja por meio da inscrição de filmes, da presença nas sessões ou da participação em debates, os artistas são estimulados a contribuir para a evolução contínua de um cinema que rejeita rótulos fáceis e sobrevive da inovação. Assim, o festival não apenas cumpre sua proposta original, como também ajuda a redefinir o que o cinema independente pode ser quando tem liberdade para explorar, provocar e inspirar.