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Comida no lixo, carro descarregado e corrida por tomadas: os efeitos do apagão em São Paulo
Foto: Reprodução

Dois dias após tempestade, cerca de 700 mil pessoas seguem no escuro; empreendedores começam a contabilizar o prejuízo

Na tarde de domingo, pelo menos 700 mil pessoas em São Paulo ainda amargavam o breu causado pelo apagão de energia, iniciado na sexta-feira, após uma tempestade e que deve ter seus efeitos irradiados até, ao menos, a próxima terça.. Muitos moradores da capital e da região metropolitana utilizavam a luz do dia de domingo para contabilizar prejuízos, pedir ajuda de vizinhos ou achar um ponto com energia liberada para carregar telefones celulares com bateria arriada.

 

Há quem, inclusive, tenha ficado ilhado fora da capital por não ter como retornar. É o caso de Ueze Zahran que não teve como carregar seu carro elétrico da marca Tesla no Guarujá, no Litoral Norte paulista, onde foi passar o feriado com a namorada. Sem alimentação elétrica em sua casa ao longo de todo o sábado, o automóvel precisou ficar mais tempo em casa ligado na tomada.


— Não posso sair daqui com menos de 70% de bateria. Estava com 44% e demora muito para carregar. Vou ter que voltar só na segunda-feira— diz.

 

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Também foram assuntos de bateria que tiraram mãe e filha, Luciana e Luana Berton, de casa, na região da Chácara Santo Antônio, na Zona Sul paulista. Ambas foram almoçar em uma rede de fast-food com o pretexto de carregar o celulares, totalmente zerados de energia.

 

— Perdemos tudo que estava no freezer de casa. Temos que comprar a refeição na hora em que vamos comer, não dá pra guardar nada para depois. E ficamos em casa sem ter o que fazer — reclama Luciana.

 

A quase 3 quilômetros da lanchonete, no Largo 13 de Maio, igualmente viu sua geladeira de suprimentos apodrecer — sem refrigeração — a gerente de uma loja de coxinhas Cléo de Souza. Ela contabiliza que o ponto de vendas teve R$ 7 mil do quitute perdido, cada unidade custa entre R$ 2 e R$3. O lugar estava mais abastecido que o normal para atravessar o feriado prolongado e ficou mais de 24 horas sem qualquer sinal de energia..


— Na hora da chuva ficou uma escuridão do nada, as pessoas gritavam porque o vento quase arrancou o toldo da loja. Ontem fiquei aqui o dia inteiro esperando a energia voltar e nada. Fui embora estressada e só tive luz domingo de manhã — critica.


No bairro do Campo Belo, o restaurante A Feijoada precisou jogar fora 15 sacos plásticos, de 100 litros cada, cheios de comida. Carne seca, couve, linguiça e outros ingredientes que formam um dos mais famosos pratos brasileiros foram para a lata do lixo após 40 horas sem energia no bairro. Os prejuízos ainda estão sendo calculados pelo estabelecimento, que costuma vender cerca de 100 refeições por dia, número que chega a triplicar aos finais de semana. Os pratos custam, em média, R$ 85.

 

— Jogamos toda a comida fora, até feijoada que estava pronta. Fora as encomendas que precisamos desmarcar — disse a gerente Claudia de Jesus, que tentava se organizar neste domingo para conseguir atender aos pedidos no final da tarde.

 

Os sócios James Theodor e Dieubeni Darcelin estão com as portas do restaurante de culinária haitiana e brasileira no Campo Limpo, também zona Sul, fechadas desde sexta-feira. Antes de cair o temporal, eles haviam comprado todos os mantimentos necessários para cozinhar ao longo desta semana. Mas não teve jeito. Ao abrir a geladeira, que completa 50h desligada, um cheiro forte de comida estragada logo se espalha pelo estabelecimento.

 

— Estamos três dias sem abrir o restaurante. De manhã jogamos fora feijão, alface, tomate. A carne e o frango da geladeira já estão estragados. São quilos de comida jogados fora. É um sentimento de impotência —disse James, que está tomando banho de água fria em sua casa, igualmente sem energia elétrica.

 

Recuperar o prejuízo é a maior preocupação dos dois sócios neste momento. A dupla já não garante o futuro do restaurante, inaugurado há um ano no bairro. A zona Sul foi uma das regiões mais prejudicadas pelo apagão. No domingo, dois dias depois das chuvas, o bairro ainda colecionava árvores no chão e fiações arrebentadas.

 

— A gente já não tinha muito. Eu estou há um ano desempregado, o restaurante é tudo o que tenho, o único sustento da minha família. O que entra de dinheiro nele, nós fazemos as compras. Se fechar, não tenho para onde correr — diz Darcelin.

 

Em Taboão da Serra, na Grande São Paulo, o sócio de dois mercados Antônio Queiroz precisou contar com a solidariedade de um amigo no Embu, uma cidade vizinha. O colega topou acomodar o material do açougue de Antônio, passando perigo de estragar.


— O que pega muito além das perdas é que deixamos de vender. Temos um valor alto de contas a pagar amahã e temos a folha de pagamento a cumprir na terça. Vai sufocar demais o financeiro — lamenta Antônio. — O grosso da venda é açougue e padaria, mas nenhum dos dois está funcionando (desde sexta).

 

REUNIÃO MARCADA

 

Toda essa confusão que se estendeu pela metrópole será discutida em uma reunião de executivos das distribuidoras de energia que atendem o estado de São Paulo com representantes da Agência Nacional de Energia Elétrica (Aneel) e prefeitos da região metropolitana. A reunião acontecerá na sede da prefeitura de São Paulo. O prefeito Ricardo Nunes (MDB) participará do encontro

 

Além dos problemas no fornecimento de energia, a tempestade da última sexta-feira deixou, até o momento, um saldo de sete mortes em São Paulo, segundo dados das defesas civil e do Corpo de Bombeiros.

 

Os efeitos deste final de semana, inclusive, podem se estender por meses adiante. Isso porque os prejuízos causados aos comerciantes e consumidores pela falta de energia, afirma Arthur Rollo, doutor e mestre em direito e especialista em direito do consumidor, devem ser ressarcidos pelas fornecedoras de energia.

 

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—Quem foi lesado precisa comprovar esses prejuízos, por meio de fotos e gravações do celular que mostrem os produtos estragados na geladeira. Vale a pena chamar um vizinho, como testemunha, para ver os itens perdidos —explica. —No caso dos comerciantes, o faturamento que deixou de existir também pode ser ressarcido. O caminho é entrar em contato com a concessionária, por meio dos canais de atendimento, e pedir o ressarcimento. Ou registrar no site consumidor.gov.br. Em muitos casos, a distribuidora vai negar o ressarcimento e será preciso entrar com ação judicial. O mais importante é ter tudo documentado. 

 

Fonte: O Globo

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