Mortes de trabalhadores rurais por conflito agrário em Canutama
Por Xico Nery, correspodente do "PORTAL DO ZACARIAS" no interior do Amazonas - Esta parte do Estado, ao longo das últimas décadas, continua aparecendo frequência nas páginas da crônica policial regional e do mundo por conta de crimes não solucionados pelas autoridades responsáveis pelo setor de segurança, tanto no âmbito estadual quando da União.
Apesar dos muitos casos policiais em que ficariam comprovados a participação de “seguranças” contratados no Sul, Sudeste e no Centro-oeste brasileiro por fazendeiros e madeireiros, “os crimes, ainda assim, não seria esclarecido no devido tempo”, admitem presidentes de associações de assentamentos sob a responsabilidade da 15ª Superintendência Regional do Incra no Estado. E órgãos de controle vinculados aos ministérios do Desenvolvimento Agrário (MDA), Meio Ambiente e Condição Climática (MMA-CC) e dos Povos Originários.
Segundo disseram, o órgão, mesmo informado em tempo real das ameaças a colonos por fazendeiros, madeireiros e imobiliárias ligadas a agropecuárias advindas de Rondônia e Mato Grosso, que ocupariam ilegalmente terras da União, “poucas vezes têm se manifestado à Polícia Federal sobre as ocorrências cuja competência para apurar é do Governo Federal”.
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Gerente da Fazenda e o Guaxeba envolvidos
nas mortes de trabalhadores rurais
Em 2017, três dirigentes da Associação dos Produtores Rurais da Região das Comunidades do Igarapé Arara (ASPROCRIA), área das terras do meio entre o Projeto de Assentamento “São Francisco”, no sul do município de Canutama com acesso pelo quilômetro 58 da BR-319, foram brutalmente assassinados na área de conflito em área pertencente à União nas fundiárias da então “Fazenda Shalom” (hoje Fazenda Rondônia).
Os corpos de Flávio Lima de Souza, Marinalva Silva de Souza e de Jairo Feitoza Pereira, que eram dirigentes da entidade - nunca foram encontrados, informaram amigos e familiares das vítimas, ainda, inconformados, inclusive, com a falta de informações sobre o caso por parte da Polícia Federal (PF) e do Ministério Público Federal (MPF-AM).

Jairo Feitoza Pereira, Marinalva Silva de Souza
e Flávio Lima de Souza (Foto:Divulgação)
Esses três homicídios se somam aos dos presidentes da Associação dos Agricultores Familiares do PA Buritis (Gilson Silva Rosa) executado, barbaramente, por pistoleiros que seriam ligados ao madeireiro Adão Filho (mais conhecido como Adãozinho da Rondobrás), no entroncamento das BRs 230 (Transamazônica) e 319 com os municípios de Humaitá e Lábrea, e do presidente da Associação Transparência Humaitá, Emerson Auler, cujo homicida foi preso na cidade de Cacoal após quase uma semana depois do crime.
De acordo com a Polícia Civil do estado de Rondônia, trata-se de um policial que havia sido expulso da Polícia Militar, cuja prisão foi efetuada ao menos 700 quilômetros de Humaitá onde o crime foi cometido, em 2021.
A suposta participação de grileiros, madeireiros, fazendeiros e grupos imobiliários advindos do lado rondoniense para o sul do Amazonas nas últimas três décadas tem levantado a “bandeira vermelha” entre defensores da floresta e de assentados do Incra em terras da União. Segundo o Jurídico da ASPROCRIA, em Manaus, “suspeitamos que esses crimes de mando e/ou por encomenda tenham a impresso a marca inconfundível dos dedos sujos de uma grande parcela do agronegócio naquela parte do nosso Estado”.

Casas de comunitários foram atacadas
com fogo (Foto: Asprocria)
Ele ressaltou, no entanto, que, com a escassez de terras no Sul, Sudeste e Centro-Oeste Brasileiro, a partir dos anos 90-2000, “maus migrantes sulistas, sudesinos e matogrossenses, praticamente, tomaram à bala terras da União ocupadas, mansa e pacificamente, de nossos cabocos e indígenas amazonenses sob a complacência das autoridades responsáveis”.
Sob segredo da identidade, o advogado de várias associações de agricultores no sul do Estado, revelou, em primeira mão, após anos de militância nos fóruns, delegacias de Polícia, núcleos da Defensoria e Promotoria Pública no sul do Amazonas, “cheguei à conclusão que, por trás das execuções de defensores da floresta e de assentados do Incra, haveria um grande e poderoso esquema que seria bancado por um suposto consórcio do crime com dinheiro do agronegócio madeireiro, bovino, garimpo ilegal e do narcotráfico”.
A fonte diz ainda que, “a suspeita é com base em casos reais de assassinatos recorrentes de lideranças agrárias, ativistas ambientais e lideranças indígenas”. Segundo ele, “a ascendência em participação nesses crimes, que geralmente ficariam impunes, seria de policiais e/ou de autoria de pistoleiros da cozinha de fazendas e madeireiras cuja missão seria guardar terras invadidas fortemente armados para, na sequência, serem repassadas ao agronegócio, sobretudo, o bovino, madeireiro e de grãos”.
No rol dos crimes ainda insolúveis e que mais abalaram o sul do Estado do Amazonas, figuram, a chacina ocorrida no Seringal São Lourenço localizado no Sul de Lábrea, na divisa com o estado do Acre. De uma só vez, tocaiados por jagunços foi morta quase uma família inteira de extrativistas que ocupavam a terra ao menos três décadas. Parte dos corpos foram atingidos com tiros de armas de fogo calibre 12 e rifles à queima-roupa diante de testemunhas que só escaparam por terem se abrigado em áreas de mata distante do local dos crimes.

Vítima de pistolagem no Seringal São Lourenço, no sul de Lábrea
Além desses crimes que abalaram as comunidades e nativos amazonenses da região Sul dos municípios de Lábrea, Canutama, Humaitá, Manicoré e Apui, há registros de outros que não chegam ao conhecimento das autoridades policiais cujas ocorrências são de conhecimento público, mas, que “não nos chegam por não haver interessados na formalização das denúncias”, revela agente policial de uma base ao longo da BR-319 no sentido da cidade de Humaitá à Capital Porto Velho (RO).
Para uma psicóloga acreditada no sul do Estado - e que pediu para que a identidade fique em segredo - “a violência no campo do Sul dos municípios de Canutama, Lábrea, Humaitá, Manicoré e Apui, viria de vertentes criminosas oriundas de estados vizinhos ligados à grilagem de terras, falsidade de documentos públicos, lavagem de dinheiro e de consórcios de grãos, bovino, madeireiro e da garimpagem de ouro e diamantes ilegais que optariam por investir, desmedidamente, no sul do Estado do Amazonas”.
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- Só que as autoridades de plantão parecem não enxergar culpados no avanço dos negócios com terras públicas no viés do agronegócio madeireiro, bovino, da soja e do ouro do rio Madeira, arrematou a profissional ouvida pelo “PORTAL DO ZACARIAS” sob anonimato.