Vídeo revisionista compartilhado nas redes oficiais da Casa Rosada argumenta que a história da ditadura argentina não foi contada de forma completa
No aniversário de 48 anos do golpe militar na Argentina (1976-1983), a Casa Rosada divulgou, neste domingo, um vídeo questionando fatos históricos sobre a ditadura, incluindo o número de 30 mil vítimas do regime, como adiantado pelo O GLOBO. A publicação foi compartilhada no X pelo presidente argentino, Javier Milei, que pediu o que classificou de "memória completa" do período "para que haja verdade e justiça".
Batizado de "Dia da Memória pela Verdade e Justiça", o vídeo, em formato de mini-documentário, foi produzido por Santiago Oría, documentarista e um dos estrategistas por trás da imagem de Milei. A peça abre com uma citação do autor tcheco Milan Kundera (de "A insustentável leveza do ser"), morto em julho do ano passado, que foi filiado ao Partido Comunista na juventude, mas se tornou um dos maiores críticos do sistema após a Primavera de Praga e a invasão do país pela União Soviética em 1968.
No vídeo, O escritor Juan Bautista "Tata" Yofre lê um trecho de uma obra do escritor tcheco: "para liquidar as nações, o primeiro passo é tirar-lhes a memória", sugerindo, em contexto diverso do original, que a história da ditadura argentina não teria sido "contada de forma completa".
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POR UNA MEMORIA COMPLETA PARA QUE HAYA VERDAD Y JUSTICIA. https://t.co/yxVQU1O5XO
— Javier Milei (@JMilei) March 24, 2024
Na sequência, surge María Fernanda Viola, filha de um militar assassinado por guerrilheiros dois anos antes do início do regime militar. Ela questiona as organizações de direitos humanos, afirmando que ela e seus irmãos não foram acolhidos após a morte do pai. E argumenta que pessoas "de ambos os lados" foram mortas. Viola conta ainda que foi "impedida pelo kirchnerismo" de prestar homenagem ao pai no cemitério.
O ex-guerrilheiro Luis Labraña aparece no vídeo afirmando que teria sido ele o responsável por inventar o número de 30 mil desaparecidos, "como forma de garantir o financiamento das Mães e Avós da Praça de Maio", principal grupo em defesa dos familiares das vítimas desaparecidas na ditadura. Os 30 mil são amplamente usados por movimentos sociais, e pelo Registro Unificado de Vítimas do Terrorismo de Estado, que levantou o número de vítimas e reconhece a subnotificação dos dados oficiais.
Filha de militar que lutou na Guerra das Malvinas, a vice-presidente argentina, Victoria Villaruel, é, desde a campanha presidencial, uma das mentoras do revisionismo histórico de Milei. Advogada, ela defendeu militares denunciados por crimes cometidos durante a ditadura. E foi, de acordo com a mídia argentina, uma das responsáveis pelo vídeo publicado neste domingo. Antes da publicação nas redes oficiais da Casa Rosada, ela fez uma postagem na qual cobrou a "reparação às vítimas do terrorismo" usando a #NãoForam30000.
Durante a campanha, a vice-presidente argentina se referiu às Mães da Praça de Maio como "mães de terroristas".
— Esperamos que [o dia 24 de março] seja um dia de paz e reflexão para todos — declarou o porta-voz do governo, Manuel Adorni.
Nos debates presidenciais do ano passado, Milei já havia negado que a ditadura argentina tenha sido responsável pelo "desaparecimento" de 30 mil pessoas, como sustentam ONGs locais, entre elas as Mães e Avós da Praça de Maio. Segundo ele, o país viveu uma guerra, na qual o Estado "cometeu excessos". A fala do então candidato provocou reações imediatas, mas Milei jamais recuou.
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Neste domingo, milhares de argentinos tomaram as ruas em memória às vítimas da ditadura. Na capital Buenos Aires, a mobilização se concentrou na Praça de Maio, no centro da cidade.
Fonte: O Globo