NOTÍCIAS
Geral
Escola em São Paulo é investigada por maus-tratos a alunos autistas; jovens estão sem aula desde janeiro
Foto: Reprodução

Instituição, investigada pela Polícia Civil, foi descredenciada pela Secretaria Estadual de Educação em fevereiro de 2023. Sócio-administrador do colégio diz que há apenas indícios das agressões e que é muito difícil tirar conclusões. Desde o início do an

“Meus filhos chegavam em casa [após a aula] sujos e cheirando a fezes e urina. Até que apareceram hematomas nas bochechas, nos braços, no peito, nas pernas e no pescoço deles. Ninguém na escola sabia me dizer o que estava acontecendo.”

 

O relato acima é de Jussara*, mãe de dois adolescentes autistas, de 14 e 17 anos, que estudavam em uma instituição específica para pessoas com o transtorno, na zona sul de São Paulo. Em abril de 2022, além de apresentarem esses ferimentos, os meninos também passaram a ficar mais agitados, nervosos e ansiosos, conta a mãe.

 

Esse foi apenas um dos episódios que levaram familiares de alunos a suspeitarem da prática de maus-tratos na Gaia Educa TEA, escola privada que era credenciada à Secretaria Estadual de Educação (Seduc-SP) até o início deste ano.

 

Veja também

 

Barco com 12 pessoas naufraga na costa de Santa Catarina , e Marinha inicia buscas

 

Bolsonarista mostra arma e ameaça religiosa por maldição no QG do Exército

Ao todo, 15 pais e mães [leia mais histórias nesta reportagem] procuraram a Defensoria Pública do Estado de São Paulo para buscar ajuda. Parte deles também registrou boletins de ocorrência.

 

Jorge dos Santos, um dos sócios-administradores da Gaia, disse ao g1 que os relatos são apenas “indícios”, porque são “crianças com deficiência severa; é difícil de saber se foi alguém que causou ou se elas mesmas que causaram [as lesões]”. “Os profissionais da escola eram capacitados, e os nomes trazidos pelos pais [nas denúncias] foram afastados das atividades com os alunos”, afirmou.

 

As investigações ainda estão em curso e correm em sigilo, tanto na esfera administrativa (por meio de sindicância na Seduc-SP) quanto na criminal (na Delegacia de Polícia da Pessoa com Deficiência).


Em fevereiro de 2023, após uma apuração preliminar, a Seduc descredenciou a Gaia Educa TEA.
Desde então, dos 89 alunos do colégio, cerca de 70 ainda aguardam uma vaga em outra instituição de educação especial ligada ao governo e próxima de suas casas.


Parte dos estudantes foi direcionada a uma escola que está em processo de credenciamento e que, portanto, ainda não aceita as matrículas.
A Defensoria Pública do Estado de São Paulo enviou, em 26 de maio de 2023, uma recomendação à Secretaria de Educação, para que os alunos sejam urgentemente matriculados em outras instituições credenciadas.

 

EM CASA E SEM ESCOLA, ADOLESCENTES AUTISTAS TÊM MAIS SURTOS 


Aos 16 anos, o filho de Mônica* está há 6 meses sem aula, lidando com uma quebra de rotina que, para pessoas com autismo, pode levar a surtos nervosos. “Essa mudança gerou compulsão alimentar, porque ele come mais quando está em casa, e crises agressivas que ele nunca teve”, diz a mãe.

 

Ao g1, a Seduc-SP disse que, em reunião com os pais dos jovens, ficou decidido que eles aguardariam a aprovação de novas instituições. Segundo o órgão, “os próprios responsáveis rejeitaram a oportunidade de efetuar matrícula em uma escola pública” comum (em que ficariam junto com alunos sem deficiência, com apoio especial no contraturno).

 
Renata Tibyriçá, defensora pública e professora de direito das pessoas com deficiência, explica que a situação é uma exceção e que transferir os alunos para um colégio comum não seria aceitável.

 

“São jovens de 13 a 17 anos que nunca tiveram acesso ao conteúdo da escola comum. O Estado nunca garantiu para eles uma inclusão adequada”, afirma.


Veja abaixo outros dois relatos de mães de ex-alunos da Gaia:

 

‘Se ele ouve falar em escola, entra em desespero’


Sandra*, mãe de Felipe*, de 14 anos, afirma que, em 24 de agosto de 2022, seu filho saiu da escola desestabilizado, chorando muito.

 

“Perguntei o que aconteceu, e a escola disse que não deu tempo de ver o que foi. Quando entramos no transporte, o Felipe mostrou os braços e disse que o auxiliar de sala tinha o machucado. Fez os gestos de pegarem no braço dele e falou: ‘muita raiva, muita raiva’”, conta.
No dia seguinte, Sandra marcou uma reunião com a direção do colégio. Segundo ela, ouviu como resposta: “Seu filho bate em professor, aí, quando a gente revida, você acha ruim? Aproveite e tire seu filho daqui.”

 

No dia 26, segundo a mãe do aluno, a funcionária da escola pediu desculpas, por telefone, e garantiu que o auxiliar seria demitido.


Ao g1, Jorge dos Santos, sócio-administrador da Gaia, diz que ouviu tanto as famílias dos alunos quanto os funcionários envolvidos nos relatos. De acordo com ele, esses trabalhadores foram afastados e ficaram sem contato com os alunos, até que as investigações fossem concluídas.

 

Até a última atualização desta reportagem, Felipe ainda estava sem aula, aguardando o credenciamento de uma nova instituição especial.

 

“Se ele ouve falar em escola, entra em desespero. Não consegue fazer mais nada sem minha presença. É como se estivesse sempre com medo, sem confiança. Antes, ele fazia tudo sozinho”, conta Sandra.

 

‘Fui a cinco psiquiatras para entender o que estava acontecendo’


Carol*, mãe de Luan*, de 14 anos, conta que o garoto sempre foi muito tranquilo. Até que, em setembro de 2022, mudou de comportamento: começou a puxar o cabelo das pessoas e a segurá-las com força.

 

“Fui a cinco psiquiatras para entender o que estava acontecendo”, diz Carol. “Eu ligava para a escola e perguntava se ele realmente tinha condições de ficar lá.”

 

No fim de 2022, Luan voltou da Gaia com arranhões no pescoço e no braço, conta a mãe do menino. Após conversar com outras mães de alunos e ouvir relatos semelhantes (de marcas no corpo e mudanças de comportamento), Carol procurou a diretoria de ensino, fez um exame de corpo de delito e registrou um boletim de ocorrência na delegacia.


Até a última atualização da reportagem, a família ainda aguardava o credenciamento da nova escola de Luan.

 

“Queria um lugar bom e especializado, com pessoas decentes e currículo adequado. Eu não aguento mais. Preciso de justiça.”

 

* Os nomes originais dos entrevistados foram preservados, a pedido deles, e trocados por fictícios. 

 

Curtiu? Siga o PORTAL DO ZACARIAS no FacebookTwitterYoutube e no Instagram.

Entre no nosso Grupo de WhatApp e Telegram

 

Fonte: G1

LEIA MAIS
Copyright © 2013 - 2026. Portal do Zacarias - Todos os direitos reservados.