Henry Enrique Tarrio foi condenado por orquestrar a invasão à sede do Legislativo americano, mesmo não estando presente no motim
O ex-líder do grupo de extrema direita americano Proud Boys Henry "Enrique" Tarrio foi sentenciado a 22 anos nesta terça-feira por seu papel na invasão ao Capitólio, em 6 de janeiro de 2021, a pena mais alta imposta a um condenado pelo ataque. Em maio, ele havia sido considerado culpado por sedição, obstrução da Justiça, conspiração, desordem civil e destruição de propriedade do governo — os promotores pediam 33 anos de prisão.
De acordo com o juiz do caso, Timothy Kelly, Tarrio "foi o líder máximo" da conspiração sediciosa que culminou no maior atentado contra a democracia americana em décadas.
— Não tenho nenhuma indicação de que ele esteja arrependido das coisas pelas quais foi condenado — afirmou Kelly. — O sr. Tarrio foi o líder máximo dessa conspiração, realmente não acho que isso esteja sob discussão.
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Antes de ouvir a sentença, Tarrio pediu desculpas pela "dor e sofrimento" causados aos policiais, parlamentares e civis no 6 de Janeiro, assegurando não ter "nada a ver com política, grupos, ativismo ou comícios".
— Passei o último ano e meio tentando descobrir como vim parar aqui. Em 3 de novembro de 2020, aconteceu algo que nunca esperei: meu candidato perdeu. Senti como se algo tivesse sido pessoalmente roubado de mim. Todos os canais de mídia a que recorri me disseram que eu tinha razão — declarou perante o júri.
Numa tentativa de ver revogadas as acusações pelo crime, o advogado de defesa de Tarrio, Sabino Jauregui, afirmou que seu cliente não era um terrorista, argumentando que "não era sua intenção derrubar o governo dos Estados Unidos".
— Meu cliente não é terrorista. Meu cliente é um patriota mal orientado — defendeu Jauregui. — Não se trata de um estrangeiro em guerra contra os Estados Unidos: ele pensou que salvava este país, esta república.
Para o promotor Conor Mulroe, o acusado usou sua "capacidade tóxica de controlar os outros" para inflar atos de violência. Segundo ele, o Proud Boys "teve um papel fundamental no ataque" ao Capitólio, que foi fruto de uma trama planejada pelo então líder do grupo extremista.
Tarrio, de 39 anos, não estava presente em Washington no momento da sublevação. Dois dias antes, ele havia sido detido por um incidente separado e, solto sob fiança, foi obrigado a deixar a cidade por portar, no momento da abordagem policial, um carregador de munição de alta capacidade, algo ilegal na capital americana.
Durante o ataque à sede do Legislativo americano, ele assistiu ao caos de dentro de um quarto de hotel na vizinha Baltimore. Enquanto os extremistas tomavam o Capitólio, Tarrio pediu aos manifestantes que não fossem embora. Em um post nas redes sociais, escreveu: "Depois que eu terminar de assistir a isso, farei uma declaração sobre minha prisão... Mas, por enquanto, estou curtindo o show... Façam o que deve ser feito."
No julgamento de Tarrio e de quatro outros Proud Boys no início do ano, a Promotoria apresentou uma longa lista de mensagens de texto, publicações em mídias sociais e vídeos como prova de uma conspiração coordenada para tentar impedir a certificação do resultado da eleição, vencida pelo democrata Joe Biden, naquela tarde.
A defesa argumentou que o grupo era pouco organizado, em sua maioria não violento, e que não havia um plano preconcebido para invadir o prédio.
O grupo de extrema direita, exclusivamente masculino, foi fundado em 2016 por Gavin McInnes, co-criador da Vice que abandonou a empresa de mídia digital para se tornar comentarista e podcaster de extrema direita. Além de adotar um discurso anti-imigrantes, o Proud Boys possui um histórico de violência contra militantes de esquerda antifascistas.
Em 6 de janeiro de 2021, o Senado dos EUA realizaria uma sessão protocolar para confirmar a vitória de Biden na eleição presidencial contra o então presidente, Donald Trump. Contudo, o republicano não aceitou a derrota e lançou uma campanha de desinformação contra o processo eleitoral, acusando Biden de liderar uma fraude em estados onde perdeu, como a Geórgia e o Arizona.
Horas antes do ataque, Trump fez um discurso inflamado a cerca de 1 km do Capitólio, onde, além das acusações infundadas de fraude, sugeriu que seus apoiadores fossem até a sede do Legislativo protestar contra a confirmação de Biden. Entre os manifestantes, que levavam bandeiras de Trump e cartazes pedindo a prisão de Mike Pence, então vice-presidente, estavam os Proud Boys. Mas as investigações vêm mostrando que o papel dos Proud Boys não ficou restrito a gritos contra o sistema e a favor de Trump.
“No dia 6 de janeiro de 2021, os réus dirigiram, mobilizaram e lideraram integrantes da multidão para o interior do Capitólio, derrubando barricadas de metal, destruindo propriedade privada, invadindo o prédio do Congresso e atacando agentes da Lei”, diz o comunicado do Departamento de Justiça. “Durante e depois do ataque, Tarrio e os demais réus receberam o crédito pelo que tinha acontecido em redes sociais e em uma sala de chat criptografada.”
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Segundo o site Politico, a acusação incluiu uma conversa de Tarrio com uma pessoa não identificada na qual fez uma analogia entre a invasão ao Capitólio e a queda do Palácio de Inverno, um dos eventos principais da Revolução Russa de 1917. Os promotores também apresentaram provas de que o condenado planejava invadir outros prédios do governo federal naquele mesmo dia.
As sentenças contra membros do Proud Boys estão entre as mais longas dadas aos extremistas que invadiram o Capitólio, que incluem o grupo extremista Oath Keepers. Trump, que também é investigado pelo seu envolvimento na tentativa de reverter o resultado do pleito, já afirmou em mais de uma ocasião que concederia perdão aos acusados pelo ataque, caso seja eleito presidente em 2024.
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Mais de 1,1 mil pessoas foram presas até o momento por envolvimento no ataque ao Capitólio, resultando em 630 confissões de culpa e mais de 110 condenações. Cerca de 500 réus foram condenados à prisão ou prisão domiciliar.
Fonte: O Globo