Comissões técnicas mais preparadas e investimento na categoria ajudam a explicar bom desempenho das arqueiras no Mundial da Austrália e Nova Zelândia
Entre vários fatores que tornam a Copa do Mundo da Austrália e da Nova Zelândia histórica, como a quantidade de equipes, o alcance do torneio e a qualidade técnica dos times, o desempenho das goleiras também tem chamado a atenção. Não faltam boas defesas — incluindo três pênaltis — e atuações de destaque. O resultado? As redes estão balançando menos. Terminada a primeira rodada, a média de gols deste Mundial foi de 2,1 por partida, contra 3,1 gols na edição anterior.
Goleira da seleção brasileira nas Copas de 1991 e 1995, Margarete Pioresan, a Meg, aponta o aumento do investimento na modalidade como um fator essencial para o crescimento na qualidade técnica numa posição que muito sofreu com preconceito:
— As comissões técnicas estão bem mais preparadas. Em geral, hoje você não tem mais equipes amadoras. Até as que estão estreando na Copa do Mundo têm no seu plantel profissionais altamente qualificados. Isso é uma tendência no futebol mundial que cresceu muito de 2019 para 2023, e as goleiras acompanharam o processo. Os treinadores de goleiras têm toda uma condição de material para poder trabalhá-las especificamente.
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— A partir do momento que se acredita no futebol feminino e injeta mais dinheiro, você consegue atrair profissionais mais qualificados ou o mesmo que já está inserido na modalidade consegue se qualificar ainda mais. Tudo isso está contribuindo na evolução da categoria como todo, e isso vai refletir no trabalho das goleiras — completa Bruno Barbosa, preparador de goleiros do time feminino do Botafogo, que subiu para a Série A1 do Brasileirão nesta temporada.
Dentre os destaques individuais debaixo das traves até aqui nesta Copa do Mundo, estão nomes fora do radar como a jamaicana Rebecca Spencer, que fechou o gol no 0 a 0 com a França, e a nigeriana Chiamaka Nnadozie, que parou as campeãs olímpicas do Canadá e foi uma das goleiras a defender pênalti na primeira rodada, pegando cobrança da estrela Sinclair.
— A cobrança de pênalti é uma questão de estratégia e conhecimento da adversária. Isso é treinado e acho que as mulheres estão cada vez melhores em relação a elas mesmas. Não é para fazer comparação com os homens, mas para ser visto como uma melhora das capacidades físicas, técnicas, táticas e psicológicas — analisa Sergio Cunha, professor de Biomecânica dos Esportes da Unicamp. — É necessário que s e tenha um aprimoramento das capacidades fisiológicas, ter reservas energéticas suficientes, e das capacidades cognitivas, psicológicas, para que se tenha confiança na hora de fazer os saltos, tenha uma boa tomada de decisão.
O desempenho das goleiras nesta Copa do Mundo ajuda a sepultar os últimos resquícios de preconceito que ainda existiam com o futebol feminino e, especialmente, com a posição.
— Se pararmos para pensar no contexto histórico, quando você tem uma goleira que precisa ter outro trabalho para complementar a renda, ela não consegue se dedicar integralmente como atleta profissional e isso acaba dificultando no desenvolvimento. Já em relação ao futebol masculino, estamos no mínimo 40 anos atrás porque foi esse tempo que as mulheres ficaram proibidas de jogar bola e praticar qualquer outro esporte dentro do Brasil — relembra Bruno Barbosa.
O preparador de goleiros do Botafogo e a ex-goleira da seleção são unânimes na hora de rebater os comentários que existiam no passado, de que campos e traves deveriam ser menores no futebol feminino.
— Essa história já vem de décadas atrás, ainda quando eu jogava. Nunca fui de acordo. Penso que a goleira vai estar na mesma proporção de salto e força muscular (que a velocidade e potência do chute) para chegar numa bola. É uma mulher que está chutando, não um homem. Imagina trocar as traves do mundo todo, não tem sentido. Elas estão calando a boca desse pessoal que tem essa ideia estapafúrdia — afirmou Meg.
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— Sou totalmente contra. Com o desenvolvimento do departamento de goleiras, haverá cada vez mais um aprimoramento das atletas dentro do atual cenário do futebol, como tem sido visto nas grandes competições mundiais. Tenho certeza que em alguns anos o futebol feminino será cada vez mais competitivo — acredita Bruno Barbosa.
Fonte: O Globo