Após a leve recuperação de 1,02% na semana anterior, o Ibovespa voltou a terreno negativo nesta semana. O índice fechou esta sexta-feira, 24, em queda de 1,67%, aos 105.798,43, renovando o menor nível de fechamento desde 4 de janeiro, então aos 105.334,46 pontos. Como nas últimas sessões, o giro financeiro permaneceu fraco nesta sexta-feira, a R$ 19,0 bilhões. Faltando apenas as sessões de segunda e terça-feira para o fechamento de fevereiro, mês em que acumula até aqui perda de 6,73%. Assim, o índice segue firme rumo a seu pior desempenho mensal desde junho passado (-11,50%).
Enquanto isso, o dólar terminou a sessão desta sexta em alta de 1,23%, cotado a R$ 5,1987, encerrando a semana, encurtada pelo feriado de Carnaval, com ganhos de 0,72%. A alta ocorre depois da moeda americana cair 0,64% ontem e fechar no menor nível desde 2 de fevereiro. O dia foi marcado por uma rodada de fortalecimento do dólar no exterior, após leitura acima do esperado do índice de preços de gastos com consumidor (PCE, na sigla em inglês) nos EUA reforçar a perspectiva de mais elevações de juros pelo Federal Reserve.Na semana, a retração do Ibovespa ficou em 3,09% - a terceira perda semanal no mês.
Hoje, pressionado por leituras acima do esperado para a inflação ao consumidor nos EUA (PCE) e no Brasil (IPCA-15), o índice oscilou entre mínima de 105.359,92, ainda o menor nível intradia desde 5 de janeiro (105.333,08), e máxima de 107.610,59, pouco acima da abertura aos 107.581,79 pontos. No ano, o índice cede agora 3,59%. Em Nova York, os recuos desta sexta-feira ficaram entre 1,02% (Dow Jones) e 1,69% (Nasdaq).
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Influência do cenário americano
Na B3, "as perdas se acentuaram ao longo da tarde muito em função do fraquíssimo volume financeiro, bem abaixo do habitual, o que amplifica os movimentos de preço. A cautela vinha desde mais cedo, com as leituras sobre inflação aqui e nos Estados Unidos se refletindo também nos juros futuros", diz Lucas Mastromonico, operador de renda variável da B.Side Investimentos.
Hoje, a percepção de que a evolução dos preços ainda requer política monetária em viés restritivo especialmente nos Estados Unidos voltou a abalar a confiança dos investidores - e o apetite por ativos de risco -, em sexta-feira de avanço não apenas dos juros futuros, mas também do dólar, que fechou bem perto de R$ 5,20.
"Os dados de inflação e consumo vieram mais fortes do que o esperado para os Estados Unidos, e trouxeram uma renovação das preocupações com a política monetária, no sentido de que venha a ser um pouco mais agressiva, no BC americano", diz Bruno Madruga, sócio e head de renda variável da Monte Bravo Investimentos. "O PCE desta manhã reforçou a expectativa por mais altas de juros nos Estados Unidos, elevando a chance de vir um aumento de 50 pontos-base em março, o que resultou em fortalecimento do dólar, hoje, mundo afora", acrescenta.
Dessa forma, as ações e os setores de maior peso e liquidez na B3 não escaparam ao ajuste negativo, com destaque para Vale (ON -2,20%), em dia de recuo nos preços do minério de ferro na Ásia, que "voltaram à mira dos órgãos reguladores tanto na China como em Cingapura", observa Lucas Martins da Silva, especialista em renda variável da Blue3.
Para os grandes bancos, com Bradesco (PN -3,20%) à frente, o dia também foi de baixa. Entre as siderúrgicas, as perdas chegaram a 5,22% (CSN ON) na sessão. Petrobras ON (-1,50%) e PN (-2,18%) tiveram ajuste um pouco mais discreto, com o petróleo em alta à tarde. Na ponta perdedora do Ibovespa, além de CSN e de CSN Mineração (-5,52%), destaque para Dexco (-6,14%), Raízen (-4,93%) e Alpargatas (-4,74%). No lado oposto, Azul (+4,96%), Gol (+1,44%) e Magazine Luiza (+1,40%).
Dólar reage a incertezas internas
Ao ambiente externo de liquidação de ativos de risco somou-se o desconforto com a queda de braço no governo em torno da reoneração dos combustíveis e seus impactos na política de preços da Petrobras e, por tabela, na inflação. A aceleração do IPCA-15 de 0,55% em janeiro para 0,76% em fevereiro, acima da mediana da pesquisa Projeções Estadão/Broadcast (+0,72%) - em momento no qual se fala em desancoragem das expectativas de inflação - desautoriza apostas em cortes da taxa Selic no primeiro semestre, apesar das críticas pesadas de Lula à gestão da política monetária.
O dólar renovou máximas à tarde, correndo até R$ 5,2095, em meio a falas da presidente nacional do PT, deputada Gleisi Hoffman (PR). Tida com expoente da ala política do governo mesmo sem cargo na Esplanada dos Ministérios, Gleisi disse que "antes de falar em retomar tributos sobre os combustíveis, é preciso definir uma nova política de preços para a Petrobras". Embora tenha dito que não é "contra taxar combustíveis", a deputada ressaltou que "fazer isso agora é penalizar o consumidor, gerar mais inflação e descumprir compromisso de campanha".
O Congresso não deverá arbitrar, pelo menos neste primeiro momento, quanto ao retorno dos impostos sobre combustíveis. Com o prazo para a prorrogação da desoneração da gasolina e do álcool terminando na próxima quarta-feira, 1º, a avaliação de parlamentares próximos à cúpula do Legislativo, ouvidos pelo Estadão/Broadcast, é de que não há tempo hábil para votação de Medida Provisória sobre o tema até lá - o texto ainda nem começou a tramitar no Congresso Nacional.
Como apurou o Estadão/Broadcast, o presidente Lula, que se reuniu hoje com o presidente da Petrobras, Jean Paul Prates, e o secretário-executivo do ministério da Fazenda, Gabriel Galípolo, que defendeu a reoneração, deve esperar o ministro da Fazenda, Fernando Haddad, voltar de viagem à índia amanhã para bater o martelo. Com o prazo para a prorrogação da desoneração da gasolina e do álcool terminando na próxima quarta-feira, 1º, a avaliação de parlamentares próximos à cúpula do Congresso ouvidos pelo Estadão/Broadcast é que não há tempo hábil para votação da Medida Provisória sobre o tema até lá.
"O real já tem sofrido nas últimas semanas mais que seus pares, principalmente pelo acirramento da disputa entre governo e BC. E agora temos essa questão da reoneração de combustíveis, com reunião de Lula com o presidente da Petrobras e o ministério da Fazenda. Tudo isso que aumenta a insegurança fiscal e ajuda a depreciar a moeda", afirma o sócio e head de câmbio da Nexgen Capital, Felipe Izac.
Abordagem do Fed
Conhecido pela abordagem 'hawkish' para a política monetária, mas atualmente sem direito a voto no comitê que delibera sobre os juros, o presidente do Federal Reserve de St. Louis, James Bullard, afirmou hoje que, como os bancos centrais modernos têm mais credibilidade do que era o caso na década de 1970 - período que resultou em choque de juros decorrente da explosão de preços suscitada pela crise do petróleo -, o Fed será capaz de reduzir desta vez a inflação de maneira ordenada, de forma a alcançar um pouso relativamente suave para a economia.
Apesar das palavras de conforto, os investidores se mostram cada vez mais em dúvida quanto ao nível terminal da taxa de juros de referência nos EUA, com aumento das apostas - ainda que não majoritárias no momento - de que o Fed venha a retomar elevação de 50 pontos-base logo à frente, após ter desacelerado o ritmo de ajuste à casa de 25 pontos-base.
"O relatório desta manhã (do PCE) não foi uma boa notícia e talvez seja uma indicação de que a trajetória da inflação de volta à meta de 2%, do Federal Reserve, provavelmente será mais irregular e prolongada do que os mercados esperam", observa em nota Greg Wilensky, diretor de renda fixa dos EUA na Janus Henderson Investors.
A política monetária do Fed precisará ser mais rígida, com a taxa básica de juros podendo chegar a 6,5%, e o custo de reduzir a inflação para a meta de 2% até 2025 provavelmente estará associado a pelo menos uma leve recessão, conforme estudo realizado por um grupo de economistas de grandes bancos internacionais, entre os quais o vice-presidente de pesquisa do Deutsche Bank, Peter Hooper, e o chefe de pesquisa nos EUA do JPMorgan, Michael Feroli, reporta a jornalista Letícia Simionato, do Estadão/Broadcast.
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Com tantos fatores de dúvida no horizonte imediato, o mercado financeiro está mais conservador sobre o desempenho das ações no curtíssimo prazo, segundo o Termômetro Estadão/Broadcast Bolsa desta sexta-feira. Entre os participantes, a fatia dos que esperam alta para o Ibovespa na próxima semana teve forte recuo, de 50,00% na pesquisa anterior, para 28,57%. Os que esperam estabilidade agora são 57,14%, de 50,00% no último Termômetro, e os que preveem perda representam 14,29% - no levantamento da semana passada, nenhuma resposta apontava queda.
Fonte: Terra