Ainda são tímidos os investimentos chineses em operações logísticas no Brasil, mas especialistas que acompanham de perto as relações sino-brasileiras avaliam que essa situação tende a mudar nos próximos anos.
— Existe interesse das empresas chinesas e boas oportunidades de investimentos em ativos logísticos no país — diz Gustavo Rabello, sócio e líder do China Desk na TozziniFreire Advogados.
As obras de infraestrutura representaram apenas 4% dos investimentos chineses no Brasil entre 2007 e 2022, enquanto os setores de eletricidade e petróleo ficaram, respectivamente, com 45% e 30% do total dos recursos aplicados, de acordo com levantamento realizado por Tulio Cariello, diretor de conteúdo do Conselho Empresarial Brasil-China (CEBC).
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Entre os raros investimentos chineses que envolvem concessões de ativos logísticos está a operação do Terminal de Contêineres do Porto de Paranaguá (PR), importante rota de exportações de carnes de frango e suína para a China, que é controlado desde 2017 pela CMPorts, empresa da China Merchants Group.
Outro ativo é o Terminal STS 11 de granéis sólidos vegetais no Porto de Santos (SP), arrematado em leilão em 2022 pela trading COFCO International Brasil, empresa exportadora de soja, milho e açúcar, que investirá R$ 764 milhões na operação para ampliar a capacidade do terminal para 14,3 milhões de toneladas anuais a partir de 2026.
Na Bahia, o consórcio formado pela China Communications Construction Company (CCCC) e a China Railway 20 Bureau Group Corporation (CR20) planeja iniciar a construção da ponte de 12,4 km entre Salvador-Itaparica no fim de 2024. O contrato no formato de Parceria Público-Privado (PPP) foi firmado com o governo do Estado em 2020 e a concessão é de 35 anos após o início da obra, que está com seu cronograma atrasado em três anos.
A CCCC, uma das maiores construtoras chinesas, chegou ao Brasil em 2016, com a aquisição da brasileira Concremat. Em 2018, a companhia anunciou acordo para a construção de um Terminal de Uso Privativo (TUP) no Porto de São Luís (MA). Em 2021, o TUP, com obra ainda em estado embrionário, acabou repassado para o grupo brasileiro Cosan.
A maioria das empresas chinesas de infraestrutura têm seu foco na engenharia e construção de ativos logísticos, nem tanto na operação. — Na China, são atividades separadas e as construtoras têm resistência em assumir a operação dos ativos — diz Marcos Ludwig, sócio de infraestrutura e líder do China Desk da Veirano Advogados.
Uma concessão logística envolve um vínculo de longo prazo com o ativo, por volta de 30 anos. O retorno do investimento, que ocorrerá por meio das receitas obtidas ao longo do prazo de concessão, é um risco que precisa ser calculado. O risco é maior quando a qualidade da modelagem da concessão não é bem elaborada.
O histórico brasileiro é de concessões mal desenhadas pelo poder concedente, os governos federal, estaduais e municipais, com vários projetos com demandas superestimadas, que não se realizaram e geraram resultados financeiros muito abaixo do esperado, como ocorreu em pelo menos seis rodovias federais e nos aeroportos de Viracopos (SP), São Gonçalo do Amarante (RN) e Galeão (RJ), concedido em 2014 para a operadora Chang Airports International, de Singapura.
— A percepção de risco nas concessões brasileiras é grande. E o prejuízo de uma empresa asiática, a Chang, deixou os chineses em estado de alerta — diz Ludwig.Por outro lado, concessões bem desenhadas e de baixo risco impulsionam os leilões de energia no Brasil.
— O governo brasileiro precisa demonstrar melhor capacidade de modelar concessões logísticas, como faz em energia, e criar mecanismos de mitigação de riscos, assumindo parte dos prejuízos gerados por modelagens inadequadas — afirma o advogado. Além dos chineses, os americanos, europeus e japoneses também demonstram, até aqui, pouco apetite por ativos logísticos brasileiros. Mas há uma característica do investimento chinês que pode impulsionar uma maior presença no Brasil.
— O investimento chinês no exterior não visa apenas ao resultado financeiro do ativo, há uma avaliação macro, que leva em consideração os benefícios que a infraestrutura pode gerar para o acesso de insumos que vão abastecer a China e a melhor competitividade de produtos industriais chineses nos países que recebem o investimento — diz Jorge Arbache, vice-presidente do setor privado do Banco de Desenvolvimento da América Latina.
O Brasil é importante fornecedor de commodities agropecuárias e minerais para a China e empresas chinesas estão presentes no Brasil, fornecendo de roupas a painéis solares e automóveis.
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— O que vemos é uma presença cada vez maior de investidores chineses estudando oportunidades de investimentos em infraestruturas que vão gerar benefícios para a China — diz Gustavo Rabello.
Fonte:O Globo