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Sessenta anos depois da mobilização militar na cidade que antecipou os planos de deposição do presidente João Goulart, o Jango, a prefeitura local pretende promover o que chama de "virada de página". O município organiza um evento intitulado Marcha Reversa, na qual movimentos sociais partirão do Rio de Janeiro em direção a Juiz de Fora, sentido contrário do realizado pelas tropas de Mourão Filho.
"Parte da cidade e do Brasil não conhece a história do que aconteceu em Juiz de Fora nos primeiros momentos do golpe. Queremos fazer uma grande festa. Não para comemorar o golpe, mas para comemorar a vida e a luta de pessoas que sofreram, foram presas, mortas, tiveram suas famílias desestruturadas em função do golpe", disse o secretário municipal de Direitos Humanos, Biel Rocha.
Na madrugada de 31 de março, Mourão Filho, então chefe da 4ª Região Militar sediada em Juiz de Fora, mobilizou suas tropas em direção ao Rio de Janeiro para depor Jango. A decisão foi tomada após o discurso do presidente a sargentos pró-governo em defesa das reformas de base, vista pela oposição como uma "ameaça comunista" ao país.
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O movimento de Mourão Filho antecipou os planos golpistas de militares, políticos e empresários, que há meses tramavam a queda do presidente.
Relatório da Comissão Municipal da Verdade de Juiz de Fora, porém, indica que a mobilização não foi apenas um rompante do general. Prisões de apoiadores do governo ocorreram na véspera da saída das tropas, bem como postos de gasolina foram orientados a reservar combustível para veículos militares.
O jornalista Wilson Cid, que trabalhava em Juiz de Fora, afirmou que o então comandante da 4ª Região Militar não escondia sua participação no golpe em curso.
"O general Mourão Filho fez muita questão de que o pessoal da imprensa ouvisse os telefonemas dele. Não porque era bonzinho, mas porque estava interessado que o país inteiro soubesse das pretensões dele", disse Cid, que trabalhou no comitê de imprensa montado no quartel comandado por Mourão Filho.
O golpe só teve sucesso graças à adesão das Forças Armadas e dos políticos. Mas a participação de Mourão Filho no levante fez com que o oficial retornasse sob festa a Juiz de Fora uma semana depois. Ele desfilou em veículos militares acenando para os moradores com seu cachimbo à boca (marca de sua imagem pública) ao lado do governador de Minas Gerais, Magalhães Pinto.
Renê Matos, ex-reitor da UFJF (Universidade Federal de Juiz de Fora), foi um dos que recepcionaram o general. À época, aos 19, ele servia no NPOR (Núcleo de Preparação de Oficiais da Reserva) da cidade. Apesar de envolvido no meio militar, ele afirma que no quartel não se falava sobre os planos de golpe. Diz que, quando as tropas retornaram, participou dos festejos da cidade por interesses pessoais.
"Foi uma festa, uma convocação para toda a cidade. O povo foi para a rua receber os heróis como se estivessem voltando da guerra. As tropas desfilaram com canhões, tanques de guerra e soldados marchando. Muito jovem, também fui, mas mais para ver as moças, não para ver soldado", contou ele.
Dois anos depois, Matos iniciou o curso de Farmácia na UFJF e, em 1968, presidiu o DCE (Diretório Central do Estudantes) da universidade e militou na Juventude Universitária Católica. Em 1972, foi preso por 20 dias sob acusação de integrar os movimentos de combate à ditadura.
"A pressão em mim era maior porque tinha sido militar", diz ele, que afirmou não ter sofrido torturas.
Logo após o golpe, a imprensa e apoiadores da cidade tentaram alçar Juiz de Fora à imagem de "capital da revolução". Mourão Filho, por essa narrativa, seria o herói local.
Uma das incentivadoras da exaltação local ao golpe era Geralda Armond, então diretora do Museu Mariano Procópio. Conhecido por seu acervo ligado à família imperial, o espaço buscou naquele período ampliar o escopo e se tornar referência no enaltecimento da memória da cidade.
Dois anos após o golpe, Armond criou a "sala 31 de março", em homenagem ao golpe. A inauguração ocorreu com a presença de autoridades para assistir à entrega do acervo de Mourão Filho, que incluía sua espada, farda e até o charuto que marcou sua passagem por Juiz de Fora.
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Em seu discurso durante o evento, o general já mostrava o seu distanciamento com a cúpula do regime. Na fala, pedia a realização de eleições diretas, expondo o desapontamento de parte dos apoiadores do golpe. Meses depois, o próprio general se colocou à disposição para uma candidatura, apoiado pela elite da cidade.
Fonte: Folha de São Paulo