NOTÍCIAS
Geral
Laboratório investigado por erros em testes de HIV recebeu R$ 10 milhões em contratações sem licitação do Governo do Rio
Foto: Reprodução

Entre os pagamentos recebidos pelo laboratório PCS Lab Saleme, investigado por erros em exames de HIV, vindos do Governo do Rio quase metade decorreu de contratações feitas sem licitação.

 

Desde 2022, a empresa recebeu R$ 21,2 milhões dos cofres do estado. Desse total, foram pagos por meio de termos de ajuste de contas (TACs) — ou seja, os pagamentos eram feitos após a execução do serviço, mediante apresentação de nota fiscal, sem que a empresa sequer tivesse contrato com o governo — um montante de R$ 3,7 milhões (ou 17%). Já os contratos considerados "emergenciais", fechados em processos com dispensa de licitação, somaram R$ 6,2 milhões.

 

Quase metade dos pagamentos feitos pelo Governo do Rio ao laboratório PCS Lab Saleme, investigado por erros em exames de HIV, decorreu de contratações feitas sem licitação. Desde 2022, a empresa recebeu R$ 21,2 milhões dos cofres do estado. Desse total, R$ 3,7 milhões (ou 17%) foram pagos por meio de termos de ajuste de contas (TACs) — ou seja, os pagamentos eram feitos após a execução do serviço, mediante apresentação de nota fiscal, sem que a empresa sequer tivesse contrato com o governo. Já outros R$ 6,2 milhões foram recebidos em contratos considerados "emergenciais", fechados em processos com dispensa de licitação.

  

Veja também

 

Criança de 9 anos invade hospital, pula muro e mata 23 animais

 

''Cabelo maluco'': bombeiros socorrem criança com objetos presos na cabeça

 

Os primeiros pagamentos feitos pelo governo à empresa remontam ao final de 2022. Na ocasião, a gestão de várias Unidades de Pronto Atendimento (UPAs) passou de Organizações Sociais (OS) para a Fundação Saúde, órgão vinculado à Secretaria estadual de Saúde, num processo iniciado em 2020. Sob a justificativa de que o serviço de exames clínicos nas unidades precisava continuar sendo prestado mesmo sem um contrato em vigor, o governo optou por realizar pagamentos ao laboratório por meio de TACs. Os serviços começaram a ser prestados em agosto de 2022 e, só naquele ano, mais de R$ 1 milhão foi pago pela empresa dessa maneira. Os serviços começaram a ser prestados em agosto.

 

Só em fevereiro de 2023, o PCS Lab Saleme passou a ter um vínculo formal com o governo para atender as UPAs. No entanto, a contratação da empresa não foi realizada a partir de uma concorrência pública: o contrato, para realizar exames em quatro UPAs na Zona Oeste do Rio no valor de R$ 2,1 milhões, foi assinado com dispensa de licitação pela Fundação Saúde.

 

Seis confirmações: Polícia não foi acionada quando surgiram os primeiros indícios de transplantes com órgãos infectados com HIV
Na época, o secretário de Saúde era Luiz Antônio de Souza Teixeira Júnior, o Doutor Luizinho (Progressistas), que é parente dos sócios do laboratório. Um deles, Walter Vieira, preso nesta segunda-feira, é casado com sua tia. Já o outro sócio, Matheus Sales Teixeira Bandoli Vieira, que assina os contratos da empresa com o governo, é filho de Walter.

 

Doutor Luizinho permaneceu na secretaria de janeiro a setembro de 2023 e, ao deixar o cargo, indicou sua sucessora, Cláudia Mello, e seguiu tendo influência na pasta. Sua irmã, a dentista Débora Lúcia Teixeira Medina de Figueiredo, ocupa até hoje um cargo de direção na Fundação Saúde.

 

Em outubro, o PCS Lab Saleme fechou um novo contrato com a pasta, novamente com dispensa de licitação. Por R$ 3,8 milhões, a empresa passou a ser responsável pelos exames clínicos do Hospital estadual Ricardo Cruz, em Nova Iguaçu, na Baixada Fluminense — reduto político de Doutor Luizinho e mesma cidade onde fica a sede da empresa. Novamente, a justificativa para o procedimento emergencial foi o "risco a saúde e a segurança da coletividade" que a interrupção da prestação de serviço acarretaria, já que o hospital também havia sido incorporado à Fundação Saúde no mesmo mês. O processo de contratação da empresa começou ainda na gestão de Luizinho.

 

Investigados em esquema: Saiba quem são os citados no processo do laboratório investigado por transplantes de órgãos contaminados com HIV no Rio

 

Somente em dezembro de 2023, mais de um ano depois de começar a receber pagamentos do governo, o PCS Lab Saleme foi contratado a partir de um processo licitatório. Na ocasião, o laboratório apresentou a melhor proposta para prestar o serviço de realização de exames clínicos em 11 unidades de saúde do estado. Esse contrato, que engloba o HemoRio e a Central de Transplantes, foi o que culminou na realização dos exames que não detectaram HIV nos órgãos transplantados.

 

Inicialmente, o contrato tinha o valor de R$ 9.801.008,74, mas teve o total aumentado, em março deste ano, em R$ 1.679.459,04. Isso para incluir o atendimento a mais duas unidades, os postos de atendimento médico (PAM) de Cavalcanti e de Coelho Neto, ambos na Zona Norte da capital. Ao todo, os três contratos do PCS Lab Saleme com a Fundação Saúde preveem a prestação do serviço num total de 18 unidades, entre hospitais, PAMs, institutos e centros especializados.

 

Durante o último processo de licitação, no entanto, o PCS Lab Saleme teve sua capacidade técnica para produzir exames questionada. Segundo o recurso interposto por uma concorrente, o laboratório não conseguiu comprovar que tinha experiência prévia para executar metade dos exames previstos por contrato. O documento que faz parte do processo de concorrência aponta que o PCS Lab Saleme só conseguiu comprovar a execução de 581 mil exames por ano — e o edital previa pelo menos 628 mil.

 

O laboratório alegou, em ofício que também faz parte da licitação, que "realiza o objeto do certame há mais de dez anos, já tendo realizado, só em favor da Secretaria municipal de Nova Iguaçu, mais de 2 milhões de exames clínicos e anatomia patológica". O laboratório tem contratos com a Prefeitura de Nova Iguaçu desde 2016. A Fundação Saúde entendeu que "a empresa vencedora atendeu as exigências do edital" e homologou o resultado.

 

Transplantes infectados com HIV: controle de testes deveria ser diário, mas era semanal; 'Objetivo de obter lucro'

 

LAÇOS FAMILIARES

 

Matheus Vieira, um dos sócios do PCS Lab Saleme, também é sócio de outra empresa do ramo da saúde, a Quântica Serviços de Radiologia. A firma foi contratada por mais de R$ 8 milhões pela OS Instituto de Psicologia Clínica Educacional e Profissional (IPCEP), que administrava o Hospital estadual Getúlio Vargas e a UPA da Penha, ambos na Zona Norte do Rio, para realizar serviços de exames de raio-X, tomografia computadorizada e ultrassonografia nas duas unidades. Segundo o RJTV, da TV Globo, quem assina o contrato, representando a OS, é Daniel Cardoso de Sá, genro do ex-presidente da Câmara Federal Eduardo Cunha.

 

Sá, que é casado com a deputada federal Dani Cunha (União Brasil), deixou a OS em julho passado. o IPCEP já recebeu quase meio bilhão de reais dos cofres do estado.

 

O QUE DIZEM OS CITADOS

 

O deputado Dr. Luizinho, familiar de um dos investigados, por nota, classificou o caso como "gravíssimo" e exigiu uma investigação rápida e punição exemplar para os responsáveis.

 

"É inadmissível que um ser humano faça um transplante e, por erros que nunca poderiam ocorrer, adquira uma nova doença. Espero que o caso seja investigado de forma rápida e os culpados sejam punidos exemplarmente. Como médico há 27 anos, secretário de Saúde do Estado do Rio de Janeiro por duas vezes, com uma vida pública e privada dedicada de forma praticamente integral a melhorar e fortalecer nosso sistema de Saúde, desejo punição rigorosa aos responsáveis por este caso sem precedentes".

 

Walter Vieira atribuiu as falhas a erros humanos de três funcionários, também alvos de ordens de prisão na Operação Verum, como mostrou a coluna de Lauro Jardim. Seriam elas as “intercorrências um e dois”, segundo a defesa do médico, representada pelo criminalista Afonso Destri:

 

“Intercorrência um”: Preparação incorreta de exame de HIV pelo técnico de laboratório Cléber de Oliveira dos Santos, que seria um biólogo capacitado para a tarefa na íntegra — ele ainda está sendo procurado por policiais. De acordo com Vieira, um tubo utilizado para administrar o sangue coletado do doador de órgãos não teria sido adequadamente manuseado para que pudesse gerar o resultado correto. Assim, o “falso negativo” teria sido gerado e “liberado” por Cléber. Depois, a assinatura de Vieira teria sido inserida no laudo final, em vez da assinatura do técnico, porque o médico teria sido o último a fazer outros exames, que não o de HIV. Essa seria uma regra do sistema utilizado pelo laboratório, de maneira que a assinatura de Vieira teria “substituído” a de Cléber como responsável pelo teste de HIV. O exame data de janeiro e infectou três pacientes, que receberam rins e coração.

 

“Intercorrência dois”: Registro incorreto do resultado de um outro exame de HIV pelo técnico de laboratório Ivanilson dos Santos, que teria capacitação para a tarefa de maneira parcial — ele foi preso mais cedo. Segundo Vieira, Ivanilson teria identificado reação positiva para o vírus numa amostra coletada desse segundo doador, mas teria se equivocado e lançado no sistema do laboratório uma informação inversa daquela obtida. Então, um segundo “falso negativo” teria sido criado. Só que Ivanilson, ao contrário de Cléber na “intercorrência um”, não teria credenciais para “liberar” o resultado. Por causa disso, Jacqueline de Assis, outra funcionária, teria operado (sem uma rechecagem) a finalização do exame, que levou à infecção de mais três pessoas que receberam rins e fígado. À época, Vieira disse à polícia, Jacqueline seria considerada pelo PCS Lab Saleme como uma biomédica. O laboratório a acusa de fraudar um certificado. Ela nega: disse ao GLOBO que, na verdade, foi contratada como auxiliar administrativa. Também há ordem (ainda não cumprida) para prendê-la.

 

Em depoimento à polícia, Matheus preferiu se manter em silêncio desta vez. Ele deve depor ainda nesta semana, assim que sua defesa tiver acesso aos autos da investigação.

 

Curtiu? Siga o PORTAL DO ZACARIAS no FacebookTwitter e no Instagram

Entre no nosso Grupo de WhatAppCanal e Telegram

 

Em nota, o laboratório PCS Lab afirma que "abriu sindicância interna para apurar as responsabilidades do caso envolvendo diagnósticos de HIV em pacientes transplantados". O caso foi classificado como "um episódio sem precedentes na história da empresa, que atua no mercado desde 1969". A empresa ainda destaca que "informou à Central Estadual de Transplantes os resultados de todos os exames de HIV realizados em amostras de sangue de doadores de órgãos entre 1º de dezembro de 2023 e 12 de setembro de 2024, período em que prestou serviços à Fundação de Saúde do Governo do Estado". Ainda no comunicado, o PCS Lab afirma que "dará suporte médico e psicológico aos pacientes infectados com HIV e seus familiares".

 

Os outros citados no caso, até o momento, não se manifestaram.

 

Fonte: Extra

LEIA MAIS
Copyright © 2013 - 2026. Portal do Zacarias - Todos os direitos reservados.