Apresentadora do Fantástico fala ainda sobre carreira
O sonho de explorar a África era antigo, desde quando Maju Coutinho ainda estava na faculdade. A jornalista, de 46 anos, achava rasa a cobertura no Brasil, e no mundo, que aborda apenas guerras, doenças ou a natureza exuberante de um continente tão diverso, com 54 países. Até que o “Fantástico” decidiu, neste ano, dar a oportunidade para que ela e sua equipe trouxessem novos olhares.
Deu para ter um gostinho ao passar pelo Quênia e por Gana para a primeira temporada da série “Que África é essa?”, exibida até o fim do mês no programa dominical da Globo. Maju pesquisou a tecnologia e iniciativas econômicas, viu uma juventude pulsante, caiu na dança e foi conquistada pela barriga. Mais do que satisfação profissional, o projeto acabou trazendo reflexões — ou seria um reencontro? — na vida pessoal. Tem a ver com hábitos, identificação, pertencimento, representatividade. Palavras-chave a que a paulistana está acostumada a ser associada por aqui. Digamos que agora estão potencializadas.
Nairóbi, capital do Quênia, tem arranha-céus como Nova York, e toda uma modernidade. Além disso, eles falam o inglês, do colonizador, mas mantiveram o suaíli, o próprio idioma. Foi muito interessante ver a relação da população de Gana com a morte. Lá, é feita uma festa, quase um baile funk (risos). É uma celebração de nossa passagem. Também no Quênia, comia-se muito com a mão. Tudo bem apimentado. Mas achei interessante a tradição de se comer com a mão direita, como sinal de respeito. E não era só bolinho. Fiz até com aquele peixe assado do almoço. É ancestral.
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Ainda não me arrisquei (risos). Lá em casa, o Agostinho (publicitário e artista plástico, de 61 anos, com quem é casada desde 2009) é quem gosta e cozinha mais. Mas estou me abrindo agora. Meu feijão é ótimo e tenho feito um bolo de banana fit muito bom. Tenho achado importante resgatar isso. Minha avó é quem sempre cozinhava, porque meus pais trabalhavam fora. E era algo que ela não me deixava fazer. “Minha neta tem que estudar”, dizia. É que esse lado doméstico é mais menosprezado. Tenho visto esse ato de cozinhar como uma reconexão com ela. Tem uma magia. A África mexeu realmente comigo nesse ponto.
Não, mas senti um pertencimento. Em Nairóbi, do rico ao pobre, todo mundo é negro. Todas as publicidades só têm negros. É inimaginável no meu dia a dia. Eu até estranhava (risos). Não é louco isso?
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Sim. Eu tenho uma boa porcentagem de Benin, Angola, Gana, uma parte indígena já aqui na América, e apareceu polonês. Minha avó até falava de algum antepassado da Polônia, mas eu nunca acreditei. Só que deu mesmo no teste.
Tenho o hábito de investigar o passado. Um tempo atrás, eu estava gravando minha mãe e um tio sobre a história da nossa família. Quero retomar. De conhecer, foram meus avós. Lembro remotamente da minha bisa. Mas sei da história da minha tataravó, Maria Júlia. Dizem que era uma mulher muito doce, que teve uma filha supergeniosa. Minha mãe ouvia essa história e me batizou assim.
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Fotos; Reprodução
Eu brinco que se minha avó Zuma tivesse estudado, teria sido ministra do STF, mas morreu analfabeta. Era sábia, firme e estrategista. Às vezes, agia com mais brutalidade, porque foi ensinada assim, mas conseguiu me passar essa estratégia com docilidade. Algo como : “Você é doce, não idiota”. Levo isso.
Eu não era a mais nerd, mas ia bem, saía com amigos. Gostava de estudar, nunca dei trabalho. Acho que foi pela observação, de ver meus pais lendo. Sei que existem pessoas que demoram a se reconhecer, mas nunca tive dúvidas. Naquela época não era comum, mas minha primeira boneca foi pretinha. E a vida mostra rápido. Quando você entra na escola, rolam piadas. Eu era a única negra no colégio particular. Não tinha como eu não saber.
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Olhando para trás, sim. Se eu tivesse mais meninas comigo, talvez ficasse mais à vontade. Eu era integrada, mas, quando se é a única negra, surgem dúvidas: “Será que estou certa? Será que sou boa?”. Crianças brancas já nascem sendo educadas com espírito de chefe. A gente cresce mais recuada.
Fonte: Portal iG