Há um mês Luana e o filho sobreviveram a ação da PM em Paraisópolis
O menino Kauan, de apenas sete anos, ferido no olho durante uma ação da Polícia Militar na comunidade de Paraisópolis, na Zona Sul de São Paulo, não vai mais voltar a enxergar. Após cerca de um mês do episódio, o SP2 conversou com exclusividade com Luana Carmo Veríssimo, a mãe do menino que ficou cego de um olho.
Na manhã de 17 de abril, Luana saiu de casa para deixar o filho na casa de uma vizinha e ir trabalhar, quando foi surpreendida por uma troca de tiros entre policiais e suspeitos na Rua Ernest Renan. Eles correram para se proteger atrás de um carro, porém Kauan ficou ferido.
A família não sabe o que provocou o ferimento no rosto. Os estilhaços de um projétil ou a queda de um pedaço de um muro estão entre as possibilidades investigadas.
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A mãe contou à reportagem que, inicialmente, os PMs levaram o menino de viatura para a AMA Paraisópolis. Enquanto, ela seguiu atrás em outro carro policial até o ambulatório.
"O tempo todo o policial que estava comigo ficava gritando pro carro que estava na frente: 'vamo pro Einstein, vamo pro Einstein'. Só que a viatura que estava na frente já foi pro AMA. Eu cheguei cheia de sangue, minhas mãos, meu pescoço, meu rosto. Estava tudo cheio de sangue, ele estava cheio de sangue. Aí já fizeram um curativo, me acalmaram, falaram 'não, mãe, não entrou nenhuma bala nele', tentando me acalmar", relembra Luana.
Posteriormente, Kauan foi transferido para o Hospital Municipal do Campo Limpo, onde levou pontos na cabeça e perto do olho direito. Segundo Luana, as enfermeiras e os médicos foram super solícitos durante a internação, porém a unidade não tinha o equipamento oftalmológico necessário para averiguar se a criança perderia a visão.
Somente em 5 de maio - 19 dias após a ação policial em Paraisópolis - Kauan passou por uma cirurgia no Hospital das Clínicas. Alguns dias depois do procedimento, Luana descobriu que o filho estava cego. Os estilhaços que atingiram o rosto dele provocaram o deslocamento de retina.
"[O médico] falou pra mim que infelizmente ele não vai voltar a enxergar com esse olho. Por conta de uma operação [da Polícia Militar], que a gente nunca devia ter vivido, meu filho nunca devia ter passado. Ele não vai voltar a enxergar com esse olhinho dele", falou emocionada.
O Hospital das Clínicas informou que o Kauan continua recebendo acompanhamento pelo setor de oftalmologia. Enquanto, a Secretaria Municipal da Saúde disse que ele recebeu todos os cuidados médicos necessários no Hospital do Campo Limpo e que a avaliação foi compartilhada com o Hospital das Clínicas, até a transferência dele em 3 de maio.
Luana também relatou que, durante a internação do filho, os policiais militares permaneceram na porta do quarto no hospital o tempo todo.
"Num primeiro momento acabou que foi uma coisa até útil, porque a gente chegava no Hospital das Clínicas e acabava sendo atendido mais rápido. Mas, com os dias, acabou sendo uma coisa constrangedora o tempo todo ter policial ali na porta no quarto de uma criança. Às vezes eu não estava com a minha família, às vezes eu estava sozinha e entrava toda hora no quarto querendo ver como o menino estava", relembrou.
Em abril, a Ouvidoria das Polícias de São Paulo chegou a pedir o afastamento dos policiais envolvidos na operação por causa de um vídeo que sugere que eles teriam alterado a cena do crime.
"Os policiais não foram afastados, nem os policiais que participaram da operação, nem os policiais que foram flagrados mexendo no local do ocorrido. Seria muito importante que esses policiais fossem afastados uma vez que há fortes indícios que eles tentaram atrapalhar a investigação", declara o advogado da família André Lozano.
Em última nota enviada ao g1, a Secretaria da Segurança Pública (SSP) afirmou que o caso está sendo investigado por meio de inquérito policial instaurado pelo 89° Distrito Policial.
"As providências de Polícia Judiciária estão em andamento com depoimentos, requisições de laudos periciais – que estão em fase de elaboração e serão analisados pela autoridade policial tão logo forem concluídos –, análise de imagens e expedição de ofícios, dentre outras medidas pertinentes. Os fatos também são apurados pela PM por meio de Inquérito Policial Militar (IPM)", informou a pasta.
No boletim de ocorrência registrado no 89° Distrito Policial, os policiais envolvidos na ocorrência narraram que foram surpreendidos por criminosos na Rua Ernest Renan, iniciando um tiroteio.
“Na ocasião dos fatos, uma criança se evadiu correndo e apresentava ferimentos na cabeça, motivo pelo qual foi socorrida pela viatura M16105 para o AMA Paraisópolis e, de lá, encaminhado para o Pronto Socorro do Hospital do Campo Limpo. No hospital tomaram conhecimento que o ferimento apresentado na criança é superficial e pode ter sido em decorrência dos estilhaços ou de uma queda”, afirma o documento.
Em coletiva de imprensa, o governador Tarcísio de Freitas (Republicanos) disse que não havia operação especial da Polícia Militar no momento do tiroteio e que a criança não teve perfuração.
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"Não tem operação, é uma situação de patrulhamento. Houve a recepção dos policiais com tiro, (...) e houve a troca de tiro. [A criança] não foi atingida por disparo, não teve perfuração. Provavelmente algum estilhaço. Foi socorrida imediatamente, está em observação, passa bem, vai fazer uma tomografia. Não foi disparo", declarou o governador.
Fonte: G1