Caio Henrique, lateral-esquerdo do Monaco, em treino da Seleção
No francês: serveur. No português: garçom. No futebolês: aquele que deixa o companheiro na cara do gol.
Podemos traduzir assim a ainda curta, mas bem-sucedida transição de Caio Henrique para a lateral esquerda. Com 30 assistências para gol desde que chegou ao Campeonato Francês para defender o Mônaco, o brasileiro tem um fim de ano de muita reflexão enquanto se recupera de uma grave lesão no joelho e de uma conclusão inquestionável: mudar de posição fez a diferença em sua carreira.
"Inventado" por Diego Simeone, moldado por Fernando Diniz e inspirado por Filipe Luís, Caio Henrique realizou o sonho de defender a seleção brasileira em 2023. E é justamente a amarelinha que norteia o tratamento da cirurgia de ligamento cruzado anterior do joelho sofrida dias após a convocação para a Data Fifa de outubro. Com previsão de retorno aos gramados para maio, ele mira a Copa América para assumir uma lacuna que fez com que 11 laterais fossem convocados neste ano - seis para a esquerda:
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- Está em falta não só no Brasil. Isso acontece em todas as seleções. A função com o passar dos anos mudou bastante. A busca é por laterais mais equilibrados, que saibam atacar, defender, jogar pelo meio e se adaptem rápido ao que acontece no jogo, principalmente os europeus com muitas formas de jogar. Se o jogador não se adaptar, não vai jogar.
Caio Henrique atendeu o ge para bate-papo direto de Mônaco para falar da recuperação da lesão, projetar o futuro, mas, principalmente, passar a limpo a tomada de decisão que o transformou de meia promissor a um dos laterais com maior índice de assistências nas grandes ligas europeias. A mudança aconteceu no início de 2019, com um pedido de Fernando Diniz para a partida contra o Antofagasta, do Chile, pela Copa Sul-Americana.
- Era um momento em que eu estava no banco e vi uma oportunidade de jogar, de me apresentar para o torcedor do Fluminense. Justamente neste jogo, fui eleito o melhor em campo e não saí mais. Foi a virada de chave na minha carreira. Hoje, sou completamente adaptado. Me perguntam se eu tenho vontade de voltar ao meio, mas no momento não. Se precisar, posso ajudar, mas hoje me identifico mais como lateral.
Formado nas categorias de base do Santos na mesma geração de Gabigol, Caio Henrique se transferiu aos 18 anos para o Atlético de Madri. A passagem pela Espanha rendeu apenas um jogo como profissional na equipe principal, mas o dia a dia nas mãos de Simeone foi suficiente para amadurecer características que seriam determinantes no futuro como lateral.
- Eu quando estava na base do Santos não tinha intensidade, era aquele meia clássico que só jogava com a bola. No Atlético de Madri, eu tive muita dificuldade, principalmente na equipe B. Vinha do Brasil e na Europa é muito mais intensidade, que eu demorei a perceber.
"Quando comecei a fazer os treinos na equipe principal, o Simeone me cobrava muito. Por mais que eu perdesse a bola, tinha que correr, correr, correr... E fui melhorando nisso"
Outra referência na curta passagem por Madri estava justamente na lateral esquerda. Recém-aposentado, Filipe Luís deixou ensinamento para o garoto que estreou pela seleção brasileira na goleada por 5 a 1 sobre a Bolívia, em Belém, pela primeira rodada das eliminatórias. Na ocasião, Caio Henrique substituiu Renan Lodi aos 25 do segundo tempo.
- Acho que com o Filipe, um jogo mais pausado. O Marcelo é muito habilidoso, muita mágica. Eu sou mais simples como o Filipe foi. Me aproximo mais dele, me identifico com ele, me espelho mais nesse jogo de aproximação, de toque e é uma referência.
No próximo dia 2 de janeiro, Caio Henrique completa três meses da cirurgia no joelho esquerdo. Praticamente metade do caminho para uma recuperação que visa inicialmente as rodadas finais do Campeonato Francês, mas sonha com uma oportunidade na Copa América que será disputada entre junho e julho nos Estados Unidos. Confira abaixo todo bate-papo com o lateral do Mônaco e da Seleção:
O mais importante para começar é saber como está sua saúde, previsão de volta. Como está a recuperação da cirurgia?
Já estou com dois meses e meio da recuperação, tenho evoluído pouco a pouco e não tenho mais dores no joelho. Consigo esticar bem, firmar o joelho no chão, e o mais importante é não sentir dor. No próximo mês, acredito que vou começar a fazer trote no campo para me readaptar a corrida. Mas o joelho reagiu bem, falta pouca coisa da cicatrização, mas tudo bem planejado e uma recuperação muito boa.
Falamos muito da parte física, mas imagino que a parte mental de uma lesão como essa também é muito complica. Você esperou tanto a Seleção e aconteceu justamente quando isso aconteceu. O que passa pela cabeça?
No começo, a gente não entende e não aceita muito bem. Foi logo após minha primeira convocação, a gente sabe quanto trabalha, espera por isso, e eu tive essa oportunidade. Logo depois, dois jogos e me machuquei no Mônaco. Foi duro por ter sido minha primeira lesão grave. Vejo o difícil que é, principalmente pelo tempo parado. No primeiro mês, foi difícil aceitar. Minha família me ajudou muito a passar por isso, meus companheiros de clube deram todo suporte e logo depois do primeiro mês comecei a assimilar melhor.
"O que tenho que fazer é trabalhar, me dedicar na recuperação e buscar novamente meu espaço no Mônaco. Claro que eu penso na Seleção, mas o foco agora é recuperar meu espaço no Mônaco. Eu sei que fazendo bem aqui, terei oportunidades lá"
A Seleção tem uma Copa América pela frente no calendário. É algo que te motiva neste processo, é um objetivo traçado voltar a tempo de ser chamado?
Com certeza. Quem não quer jogar uma Copa América pela Seleção? Tenho esse objetivo, mas sei que não é fácil. Preciso me recuperar, me destacar aqui no Mônaco de novo, fazer bons jogos, mas tenho esperança e trabalho para isso completamente focado. Se eu tiver a oportunidade, com certeza vai coroar este processo.
Você é um jogador que teve passagens importantes por clubes como Fluminense e Grêmio, mas tem uma trajetória mais pautada na Europa. De que maneira você se apresentaria para o torcedor da Seleção que não está tão habituado ao futebol europeu?
O que eu tenho para falar é que eles procurem assistir mais os campeonatos que estão um pouco fora do foco. A gente sabe que no Brasil se vê muito a Premier League, a La Liga... O Francês evoluiu bastante desde que cheguei aqui. Há um certo preconceito com o Francês e o Italiano, mas são ligas que evoluíram muito e com muitos grandes jogadores. As grandes potências do futebol mundial têm muitos jogadores dessas ligas. Peço que comecem a assistir esses jogos, observas e torcer pela gente. Muitos jogadores que estão na Europa saíram muito cedo e quase não jogaram no Brasil. Eu tive a oportunidade de voltar, mas não fiquei muito tempo. Peço que torçam pela gente. Do nosso lado aqui, tem muita entrega e muita vontade.
13min - E como foi esse processo de transformação do Caio que sai do Santos na base para o Atlético de Madri como meia e depois se transforma nas mãos do Fernando Diniz como lateral?
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Eu cheguei muito jovem no Atlético e algumas vezes treinava com a equipe principal. Eles precisavam de lateral-esquerdo e eu quebrava o galho ali. Desde muito pequeno, me acostumei a jogar ali sempre pegado na banda como ala e me sentia à vontade. No Fluminense, teve um jogo importante na Sul-Americana, os laterais estavam machucados e o Diniz precisava de alguém ali. Quando ele me perguntou, eu disse que já tinha feito muitos jogos por ali no Atlético de Madri e me sentia bem, que podia fazer a função. Era um momento em que eu estava no banco e vi uma oportunidade de jogar, de me apresentar para o torcedor do Fluminense. Justamente neste jogo, fui eleito o melhor em campo e não saí mais. Foi a virada de chave na minha carreira. Hoje, sou completamente adaptado. Me perguntam se eu tenho vontade de voltar ao meio, mas no momento não. Se precisar, posso ajudar, mas hoje me identifico mais como lateral.
Fonte: GE