Com ameaças como aumento do nível do mar, desmatamento e mudanças climáticas, levantamento inédito da IUCN alerta para o risco de extinção de 50% dos manguezais do mundo
Metade dos manguezais do mundo corre risco de colapsar até 2050. O alerta é fruto de um levantamento pioneiro da International Union for Conservation of Nature (IUCN). Pela primeira vez, a organização, responsável pela lista vermelha de espécies ameaçadas, avaliou o risco de extinção de um grupo de ecossistemas em nível global. Neste caso, os manguezais. E o resultado mostra que 50% dos ecossistemas de manguezais estão sob alguma classe de ameaça de extinção.
Quase um quinto dos manguezais (19,6%) estão nas classes mais severas de risco de extinção: Em Perigo ou Criticamente Em Perigo. A principal ameaça a estes ecossistemas é o aumento do nível do mar, seguido pelas mudanças climáticas, de modo geral, e maior frequência de eventos extremos – como tempestades e ciclones –, assim como o desmatamento, expansão urbana, poluição, construção de represas.
“De acordo com os modelos utilizados, mantendo-se a situação atual [o “business as usual”], prevê-se que 25% da área global de manguezais fique submersa nos próximos 50 anos. Um terço das regiões com ecossistemas de manguezais do mundo serão gravemente afetadas pelo aumento do nível do mar”, descreve o estudo da IUCN, divulgado na última quarta-feira (22) e que contou com a participação de mais de 250 especialistas de 44 países diferentes.
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Os manguezais ocupam uma área de cerca de 150 mil quilômetros quadrados no mundo, concentrados principalmente nas zonas tropicais, numa cobertura que equivale a aproximadamente 15% das faixas costeiras do planeta.O estudo classifica os manguezais em 36 regiões distintas, a partir das quais são avaliadas as ameaças e riscos em cada uma delas.
As áreas onde estes ecossistemas enfrentam maior risco de desaparecer estão no litoral sul da Índia, no Sri Lanka e nas Maldivas; no Golfo do México, nos Estados Unidos; no Mar Vermelho; em parte da Papua-Nova Guiné e das Ilhas Salomão; e no litoral sul da China.
A região que compreende os manguezais brasileiros foi classificada como Pouco Preocupante. De acordo com o biólogo Arimatéa Ximenes, especialista que liderou um dos capítulos do levantamento da IUCN sobre os manguezais do Brasil, no contexto global o Brasil pode estar numa situação menos preocupante, mas isso não quer dizer que a gente não deva se preocupar.

Mapa adaptado com tradução livre para o português
(Foto: Reprodução)
“Comparado aos países da Ásia, por exemplo, o Brasil ainda está bem em relação à conservação dos manguezais, até porque temos uma legislação relativamente antiga de proteção desses ecossistemas. Mas o estado de conservação deles nem sempre é bom, temos muitas áreas degradadas e poluídas. E nos modelos não foi inserida a questão da saúde dos manguezais porque são dados praticamente inexistentes, nós não temos essa informação sistematizada de quais os manguezais poluídos. Temos às vezes de um e de outro, mas não de todos do Brasil, muito menos do mundo todo”, analisa o pesquisador, que atua no Center for International Forestry Research and World Agroforestry (CIFOR-ICRAF).
O biólogo lembra ainda de episódios recentes no país, como o derramamento de óleo no nordeste e o rompimento da barragem de Brumadinho, que carregou rejeitos até a foz do rio Doce, e os possíveis impactos em manguezais no litoral brasileiro.
Além disso, um grande gargalo, pontua Arimatéa, é a falta de dados mais antigos sobre a cobertura de manguezais. “Os dados que temos na série histórica sobre a cobertura de manguezais são da década de 80 e 90 em diante. Sendo que os desmatamentos mais significativos de manguezais ocorreram antes disso, na época de ocupação e consolidação das cidades no litoral brasileiro”, explica. Com isso, as taxas de desmatamento de manguezais disponíveis acabam sendo “míopes” e não contam toda a história.
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O resultado do levantamento reforça ainda a importância dos manguezais brasileiros no cenário global, já que eles prestam importantes serviços ecossistêmicos como a proteção da zona costeira, sequestro e armazenamento de carbono e manutenção de estoques pesqueiros, já que são estuários para vida marinha de modo geral.“A perda deles [dos manguezais] seria desastrosa para a natureza e para as pessoas ao redor do mundo” resume a diretora da Comissão de Manejo de Ecossistemas da IUCN, Angela Andrade.
Fonte: O Eco