Alta nos casos e confirmação de morte de recém-nascido com anomalias congênitas associadas à doença acendem o alerta de especialistas
Quase uma década depois de uma explosão nos casos de microcefalia no Brasil devido ao zikavírus, o país vive uma nova ameaça. Especialistas temem que a febre oropouche possa aumentar, novamente, os casos de malformação em bebês.Nesta quinta-feira (8), o Ministério da Saúde confirmou o caso de um bebê nascido no Acre com anomalias congênitas associadas à transmissão vertical de oropouche (de mãe para filho)
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O bebê morreu após 47 dias de vida. Os exames pós-parto constataram que a mãe, de 33 anos, havia contraído o vírus oropouche - no segundo mês de gestação ela havia apresentado sintomas da doença.
Além disso, o Ministério da Saúde confirmou um caso de aborto espontâneo causado pela infecção do vírus e investiga outras oito suspeitas de malformação e óbito fetal entre bebês de mulheres que foram diagnosticadas com a enfermidade.
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O epidemiologista José Geraldo Ribeiro, do laboratório Fleury, pondera que o risco de uma epidemia em larga escala de oropouche levar a um surto de casos de microcefalia da mesma magnitude do que ocorreu com o zikavírus é pouco provável, "mas não impossível".Para o microbiologista da Universidade e São Paulo (USP) Luiz Tadeu Moraes Figueiredo, a circulação de uma arbovirose (doença viral transmitida principalmente por artrópodes, como mosquitos e carrapatos) com perspectiva de causar alterações congênitas "é alarmante". "Não sabemos o tamanho da ameaça", afirma.
Em 2017, durante a 69ª Reunião da Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência (SBPC), o pesquisador previu que o oropouche se tornaria um problema de saúde pública no país. Na época, ele identificou casos em macacos contaminados em Minas Gerais e no sul da Bahia.Dois anos antes, o Brasil havia enfrentado uma epidemia de zikavírus. O aumento nas transmissões e o contágio de grávidas levou a uma explosão de casos de microcefalia entre bebês.

Segundo o Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea), entre os anos 2000 e 2014, foram registrados 2,4 mil casos de bebês com microcefalia. No entanto, apenas em 2015, foram 1,6 mil notificações, 71% delas no Nordeste, por onde o vírus se espalhou. A prevalência da doença saltou de 0,75 a cada 10 mil nascidos vivos em janeiro de 2015, para 28,99 em dezembro. Em 2016, houve mais 857 casos.Uma das lições do período foi o reforço no diagnóstico das infecções para prevenir as infecções entre as grávidas conforme as regiões endêmicas. Nove anos depois, essas crianças sofrem com a falta de assistência terapêutica.
OROPUCHE E ALTERAÇÕES CONGÊNITAS
A suspeita de casos de transmissão vertical (materno-infantil) da oropouche motivou a Organização Pan-americana da Saúde (Opas) a emitir um alerta epidemiológico para o Brasil reforçar a vigilância epidemiológica da doença no país, que concentra 90,9% dos 8.010 diagnósticos no continente.
Neste ano, até agora, as notificações aumentaram 776% em comparação com todo o ano de 2023. Enquanto nos 12 meses do ano passado foram registrados 831 diagnósticos, em 2024 já foram 7,2 mil casos, segundo dados do Ministério da Saúde. O oropouche foi diagnosticado em pacientes de 20 estados. Duas mortes pela doença foram confirmadas e um óbito está em análise.
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Fotos: Reprodução
Com o aumento de casos, maiores as chances de infecção de gestantes. De acordo com José Geraldo Ribeiro, do Fleury, vírus como o zika têm a capacidade de, ao infectar as grávidas, cair na corrente sanguínea e, ao chegar à placenta, romper essa barreira de proteção, atingir o feto e interferir na formação dos órgãos, principalmente no primeiro trimestre de gestação.Apesar da escassez de dados quanto aos efeitos neurológicos da febre oropouche em bebês, há indícios que reforçam essa hipótese. Estudos da década de 80 relatam que crianças nasceram com alterações congênitas após as mães serem infectadas. "Nunca tinha sido feita uma relação direta para detectar o vírus na placenta", explica José Luiz Módena. "Mas em modelos animais identificamos essa característica".
AVANÇOS EM ESTUDOS
As incertezas relacionadas ao vírus oropouche reforçam o alerta dos especialistas quanto aos riscos da disseminação da doença. "Casos fatais e distúrbios neurológicos em crianças são novidade absoluta, é um agravante importante", ressalta o médico Luiz Tadeu Figueiredo.Diferentemente do zikavírus, transmitido pela picada do pernilongo que circula nas cidades, o vetor do oropouche é o mosquito-pólvora, ou maruim, que tem característica silvestre.
Contudo, o avanço do desmatamento e o aquecimento global podem levar a mudanças no comportamento do vetor e favorecem o contato do inseto com humanos.Com o aumento na detecção da febre oropouche neste ano, o grupo de pesquisa do professor Módena investigou as causas do problema e identificou mutações no vírus em circulação. Entre os achados, estão o fato de que a nova cepa tem uma capacidade 100 vezes maior de se replicar no hospedeiro do que a anterior. Isso aumenta as chances de infecção ao maruim picar o alvo.
Além disso, os anticorpos de pacientes que tiveram a doença até 2016 não foram capazes de neutralizar a ação do novo vírus.Para responder à alta de casos e ampliar a vigilância epidemiológica, o Ministério da Saúde passou a distribuir testes diagnósticos para os Laboratórios Centrais (Lacen) como estratégia de descentralizar a identificação dos casos, que antes era feita só na região Norte.Diagnosticar os casos é relevante para identificar os locais de grande circulação do vírus e proteger as gestantes durante o pré-natal.
"Não sabemos qual o impacto da introdução do vírus em regiões onde tem muita gente, fora da região amazônica. Por isso, precisamos monitorar e testar as gestantes para qualquer sinal de doença febril aguda", recomenda José Luiz Módena, referindo-se a um dos sintomas da oropouche, que também podem incluir dor de cabeça, náusea e diarreia.Além disso, durante o pré-natal, as mulheres devem ser orientadas quanto ao uso de repelente adequado para grávidas e outros cuidados, como manter os quintais limpos para evitar a proliferação do vetor, e o uso roupas compridas, por exemplo.
DOENÇA NEGLIGENCIADA
O Ministério da Saúde instituiu três grupos de pesquisa para estudar a ação do mosquito transmissor da doença e como o vírus age no corpo. O objetivo é avançar em dados sobre características genômicas, manifestações clínicas e ciclo da doença nos vetores.
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"Doenças da região amazônica estão se espalhando e a oropouche era negligenciada porque casos ocorriam entre ribeirinhos nos afluentes. Agora, o surto está chegando à cidade, e o Ministério teve mais interesse. Poucas instituições estudavam esse vírus, precisa ampliar para universidades também. Quanto mais grupos de trabalho com oropouche, maiores são as chances de descobertas, até para desenvolver uma vacina", destaca Figueiredo.
Fonte: G1