Um dia após tomar o controle de Hama, a quarta maior cidade da Síria, a coalizão rebelde liderada pelo grupo jihadista Hayet Tahrir al-Sham (HTS) continua seu avanço ao sul nesta sexta-feira, seguindo em direção à cidade de Homs, localizada a cerca de 160 km de Damasco, de onde residentes começaram a fugir em grandes números entre a noite de quinta-feira e a madrugada.
Apesar dos temores sobre a chegada dos rebeldes, o líder do HTS, Abu Muhammad al-Jawlani, afirmou que a ofensiva tem como objetivo derrubar o regime Assad, mas que o plano para o futuro governo prevê participação popular.
Milhares de pessoas começaram a deixar a cidade de Homs na noite de quinta-feira, com as notícias de que os rebeldes continuavam a avançar em direção ao sul. Informações coletadas por um monitor do conflito com sede em Londres e relatos de residentes no país indicam que ao menos parte dos civis em retirada se deslocaram para a zona costeira no oeste, um reduto do governo.
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Em um comunicado divulgado via Telegram, o comandante militar rebelde Hassan Abdel Ghani disse que os seus combatentes continuam a "marchar firmemente" em direção a Homs, cidade que recebeu o apelido de "capital da revolução" pela intensidade dos protestos antigoverno lá realizados em março de 2021. Ghani acrescentou que a atual ofensiva marca o retorno dos combatentes a Homs, com o objetivo de "deter a agressão de Assad contra a cidade". O Observatório Sírio para os Direitos Humanos (OSDH) afirmou que a cidade já está dentro do alcance da artilharia rebelde.
A campanha militar rebelde, que começou na semana passada, pegou de surpresa o governo sírio e os observadores internacionais, após anos de certo congelamento do conflito. Antes restritos a territórios do noroeste do país, as forças jihadistas retomaram a segunda maior cidade síria, Aleppo, e continuam a avançar contra as zonas sob controle do governo. A ONU apontou nesta sexta que a escalada do conflito já provocou o deslocamento de 280 mil pessoas desde 27 de novembro, alertando que o número pode aumentar para 1,5 milhão.
Apesar do temor de parte da população civil com o avanço da linha de frente do conflito e com a chegada dos homens do HTS, o líder do grupo, Abu Muhammad al-Jawlani, vem pregando que a retomada do território sírio deve ser feita sem nenhum tipo de revanchismo. Em uma entrevista à rede americana CNN, a primeira concedida em anos, al-Jawlani detalhou que o objetivo da ofensiva é derrubar o governo Assad, mas prometeu um futuro político com direito a participação popular.
— Quando falamos sobre objetivos, o objetivo da revolução continua sendo a derrubada deste regime. É nosso direito usar todos os meios disponíveis para atingir esse objetivo — disse a liderança. — As sementes da derrota do regime sempre estiveram dentro dele... os iranianos tentaram reviver o regime, ganhando tempo, e mais tarde os russos também tentaram sustentá-lo. Mas a verdade permanece: este regime está morto.
Embora os rebeldes estejam acumulando vitórias no campo militar, o Exército sírio continua a empreender esforços para conter o avanço e recuperar território perdido. O Ministério da Defesa afirmou que estava bombardeando forças inimigas na província de Hama, de onde foram forçados a deixar a capital no dia anterior.
"Nossas Forças Armadas estão mirando veículos terroristas e concentrações no norte e sul da província de Hama usando artilharia, mísseis e aviões de guerra conjuntos sírio-russos", disse uma fonte militar citada em um comunicado oficial.
O OSDH informou que tropas sírias e aliados apoiados pelo Irã se retiraram "repentinamente" da cidade de Deir Ezzor, leste do país, com colunas de soldados se deslocando para a região central, onde as forças rebeldes empreendem a ofensiva.
Ainda de acordo com al-Jawlani, a população síria não tem motivos para temer um futuro governo islâmico, prometendo inclusive a criação de um "conselho escolhido pelo povo". Ele também disse que as violações contra minorias registradas em territórios rebeldes foram culpa de indivíduos, mas que os casos foram abordados pelas autoridades.
— A Síria merece um sistema de governo que seja institucional, não um onde um único governante tome decisões arbitrárias — disse. — Estamos falando de um projeto maior, estamos falando sobre construir a Síria. O Hayat Tahrir al-Sham é apenas uma parte deste diálogo, e pode se dissolver a qualquer momento. Não é um fim em si mesmo, mas um meio para executar uma tarefa: confrontar este regime.
À medida que a coalizão rebelde avança em direção ao sul e remodela a distribuição de poder pelo país, outras frentes do conflito também começaram a se mover. O chefe das forças curdas apoiadas pelos EUA afirmou nesta sexta-feira que Estado Islâmico tomou posições de áreas no leste da Síria.
— Devido aos desenvolvimentos recentes, há um aumento na movimentação de mercenários do Estado Islâmico no deserto sírio, no sul e oeste de Deir al-Zor e no interior de al-Raqqa — disse Mazloum Abdi em uma entrevista coletiva, referindo-se a áreas no leste do país, de acordo com a agência de notícias Reuters.
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Fotos:Reprodução
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A instabilidade na região é motivo de preocupação para parte da comunidade internacional, que tomou partido no conflito ao longo dos anos. A Turquia — que faz fronteira com a Síria e apoia algumas das forças que se opõem ao regime de Assad e aos curdos sírios — confirmou nesta sexta que participará de uma reunião trilateral com Rússia e Irã para tratar sobre o conflito.Os chanceleres dos três países se encontrarão em uma reunião à margem do Fórum de Doha, no Catar.
Fonte: O Globo