Presidente russo tenta, por força legal, solucionar a secular questão da lealdade de tropas mercenárias, dois meses após o motim do Grupo Wagner
O presidente da Rússia, Vladimir Putin, assinou um decreto, nesta sexta-feira, que obriga membros de grupos paramilitares a prestar juramento à Rússia, como fazem os soldados regulares do Exército. A medida foi oficializada dois dias depois da morte do chefe do Grupo Wagner, Yevgeny Prigojin, em um acidente aéreo.
O decreto, publicado no site do governo, exige que os paramilitares jurem "fidelidade" e "lealdade" à Rússia e "cumpram rigorosamente as ordens dos comandantes e superiores". Devem também comprometer-se a "respeitar sagradamente a Constituição Russa", "cumprir conscientemente as tarefas que lhes são confiadas" e "defender corajosamente a independência e a ordem constitucional do país".
Com o decreto, Putin parece disposto a solucionar por via legal um dos problemas estruturais estudados há séculos pelas ciências militares e políticas, que é a fidelidade de tropas mercenárias — que, ao contrário das Forças Armadas de um país, não estão condicionadas a nenhuma hierarquia ou cadeia de comando, combatendo apenas com vias de obter remuneração.
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A questão foi tratada por diversos estudiosos ao longo dos séculos. Em "O Príncipe", Nicolau Maquiavel afirma que aquele que defende seu Estado com tropas mercenárias e auxiliares "nunca terá tranquilidade nem segurança", classificando-as como "desunidas, ambiciosas, sem disciplina, infiéis, corajosas diante dos amigos, covardes diante dos inimigos, e sem temor de Deus".
"Tais tropas não têm outro sentimento nem outro motivo que as faça lutar a não ser um pequeno estipêndio, e este não basta para lhes incutir a vontade de morrer por quem lho paga. Querem ser soldados do seu patrão quando ele não faz a guerra; mas, ao romper esta, querem fugir ou desligar-se do seu compromisso", escreveu Maquiavel.
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Analistas que observam a campanha militar russa na Ucrânia resgataram Maquiavel e outros pensadores há pouco mais de dois meses, quando Prigojin ordenou que suas tropas marchassem contra Moscou, a fim de derrubar o comando militar russo. Muitos países ocidentais afirmam que a morte de Prigojin teria sido provocada pelo Kremlin, em represália à insubordinação. (Com AFP)
Fonte: O Globo