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Rússia afirma que mudança de doutrina nuclear é 'advertência' ao Ocidente, e Ucrânia diz que ameaça 'não vai funcionar'
Foto: Reprodução

O Kremlin afirmou nesta quinta-feira que a mudança na doutrina russa sobre o uso de armas nucleares, anunciada na quarta-feira pelo presidente Vladimir Putin, deve ser considerada “uma advertência” ao Ocidente, em um cenário de tensão desde o início da ofensiva na Ucrânia, em fevereiro de 2022. Putin já havia afirmado que, com a medida, Moscou consideraria qualquer agressão ao território russo apoiada por uma potência nuclear como um ataque conjunto. A decisão foi oficializada enquanto os EUA e o Reino Unido avaliam permitir que a Ucrânia utilize armas ocidentais para atacar a Rússia.

 

— Isto deveria ser considerado uma advertência específica. É um sinal que alerta estes países para as consequências de participarem em um ataque ao nosso país com diversos meios, não necessariamente nucleares — disse Dimitri Peskov, o porta-voz da Presidência russa.

 

Ao abrir uma reunião do Conselho de Segurança da Rússia na quarta-feira, Putin disse que as alterações são uma resposta à mudança do cenário global, que gerou novas ameaças e riscos para o país.

  

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Putin avisa Ocidente que está disposto a usar armas nucleares

 

Ele afirmou que Moscou também se reserva o direito de usar armas nucleares se o seu aliado, a Bielorrússia, for alvo de agressão. As declarações seguem o aviso de Putin aos Estados Unidos e outros aliados da Otan de que permitir que a Ucrânia use armas ocidentais de longo alcance para atacar a Rússia significaria que seu país e a aliança militar estão em guerra.

 

— Consideraremos esta possibilidade se recebermos informações confiáveis de um lançamento massivo de meios de ataque aeroespaciais — declarou o presidente.

 

O chefe do gabinete da Presidência da Ucrânia, Andrii Yermak, disse que a Rússia “não possui outros meios de intimidação global além da chantagem nuclear”, indicando que “essas ferramentas não vão funcionar”.

 

A União Europeia (UE) chamou a proposta russa de “imprudente e irresponsável”. O porta-voz para política externa do bloco, Peter Stano, afirmou que “não é a primeira vez que Putin brinca com seu arsenal nuclear” e que a UE rejeita veementemente as ameaças. Sem mencionar a Ucrânia, ele disse que a dissuasão nuclear da Rússia está sendo ajustada “devido a elementos de tensão que acontecem ao longo do perímetro das nossas fronteiras”.

 

O secretário de Estado dos EUA, Antony Blinken, classificou a declaração de Putin “totalmente irresponsável”. — Acredito que muitos no mundo já se manifestaram claramente sobre isso quando ele vem brandindo a ameaça nuclear, incluindo a China no passado — disse Blinken em uma entrevista transmitida pela MSNBC enquanto participava da Assembleia Geral da ONU.

 

CONHEÇA ARMAMENTOS USADOS PELA UCRÂNIA NA GUERRA CONTRA A RÚSSIA

 

Tanque Leopard-1A5 fornecido pela Otan dispara enquanto soldados ucranianos realizam exercícios antes de se moverem para a linha de frente na região de Kharkiv — Foto: David Guttenfelder/The New York Times

 

Embora não seja possível afirmar com precisão todos os armamentos utilizados por Kiev, analistas já identificaram veículos de infantaria blindados Bradley, dos Estados Unidos, e Marder, da Alemanha; países apoiaram incursão ucraniana no território russo

 

As conversas sobre o assunto ganharam impulso no início do mês, quando os EUA anunciaram novas sanções contra o Irã e acusaram a República Islâmica de fornecer mísseis à Rússia para serem usados na Ucrânia. As sanções também foram adotadas pelos governos francês, alemão e britânico. Na ocasião, Teerã negou o envolvimento e disse considerar “o fornecimento de assistência militar às partes envolvidas no conflito — que leva ao aumento de baixas humanas, destruição de infraestrutura e distanciamento das negociações — como desumano”.

 

Em maio, a administração Biden deu permissão à Ucrânia para usar armas dos EUA em ataques transfronteiriços mais curtos contra locais russos usados em uma ofensiva contra a cidade ucraniana de Kharkiv. Desde então, autoridades americanas permitiram que o Exército ucraniano realizasse esse tipo de ataque mais curto em outros locais ao longo da fronteira. À Sky News, Blinken disse no início do mês que a Casa Branca leva em conta fatores complexos ao tomar essas decisões, mas que a possibilidade de dar mais liberdade à Ucrânia está aberta.

 

— Adaptamos e ajustamos cada passo ao longo do caminho, e continuaremos [fazendo isso], então não descartamos isso neste momento — disse ele, acrescentando que Washington está comprometido a fornecer à Ucrânia “o que ela precisar e quando precisar” para enfrentar de maneira mais eficaz a Rússia.

 

A versão revisada do documento detalha em maior profundidade as condições para o uso de armas nucleares, observando que elas poderiam ser usadas em caso de um ataque aéreo em massa envolvendo aeronaves, mísseis de cruzeiro ou drones, disse ele. Segundo estimativas do Instituto Internacional de Pesquisa para a Paz de Estocolmo (Sipri), os Estados Unidos teriam cerca de 3,7 mil ogivas, e a Rússia, quase 4,5 mil.

 

Há pouco mais de dois anos, em janeiro de 2022, EUA, França, Reino Unido, Rússia e China concordaram que “uma guerra nuclear não pode ser vencida e nunca deve ser travada”, conforme expressaram num comunicado conjunto. Um mês depois, o Exército russo invadiu a Ucrânia e quebrou qualquer consenso sobre o uso desse tipo de armas. Em março, às vésperas da eleição na Rússia, Putin afirmou que as armas nucleares do país são mais modernas e avançadas que as dos EUA, destacando que seu arsenal sempre está “preparado” para a guerra.

 

— Tivemos um tabu sobre as armas nucleares durante 75 anos [após os bombardeios atômicos de Hiroshima e Nagasaki], mas agora elas estão tão normalizadas no debate que, numa crise, os líderes podem se sentir obrigados a recorrer a elas — alertou Matt Korda, pesquisador de armas atômicas do Sipri, ao El País.

 

Em fevereiro de 2023 a Rússia suspendeu, de maneira unilateral, o Tratado sobre Redução de Armas Estratégicas (Novo Start), criado em 2010 para trocar dados com os EUA sobre suas forças nucleares duas vezes ao ano. Washington manteve sua parte do acordo ao revelar as cifras no primeiro semestre de 2023, mas desde então deixou de fazê-lo.

 

Potências internacionais aumentam gastos em armas nucleares; investimento em todo o mundo aumentou US$ 10,8 bilhões em 2023 em relação ao ano anterior — Foto: SIPRI/Editoria de Arte

Fotos:Reprodução

 

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O mesmo fez Londres, aliado dos americanos. Segundo a Campanha Internacional para a Abolição das Armas Nucleares (Ican, sua sigla em inglês), os gastos com armas nucleares em todo o mundo aumentaram US$ 10,8 bilhões em 2023 (R$ 59 bilhões) em relação ao ano anterior. 

 

Fonte:O Globo

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