Avanço de tecnologias, como Inteligência Artificial, permite analisar grandes quantidades de exames e pacientes em busca de biomarcadores da doença
Hoje, alguns tipos de câncer podem ser descobertos de forma precoce, antes dos sintomas, por meio dos exames de rastreio, como chamam os testes indicados periodicamente para determinados grupos de pessoas saudáveis – caso da mamografia, para o câncer de mama, e da colonoscopia, para o de intestino. Mas, no futuro, esse leque de tumores deve crescer e por meio de testes tão simples quanto exames de sangue.
É o que buscam diversos cientistas que analisam casos de pacientes oncológicos e substâncias como proteínas ou partes de DNA tumoral que circulam em suas amostras de sangue, urina e até no odor. O objetivo é encontrar partículas que possam ser usadas como biomarcadores para prever o diagnóstico muito antes do momento em que a doença costuma ser detectada hoje.
Um dos maiores trabalhos do tipo foi conduzido por pesquisadores da Universidade de Oxford, no Reino Unido, e publicado na revista científica Nature Communications em maio deste ano. Os cientistas analisaram 44 mil pessoas, em que 4,9 mil desenvolveram algum tumor. Em seguida, estudaram amostras de sangue coletadas ao longo da vida desses indivíduos.
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Como resultado, os pesquisadores encontraram 618 proteínas que foram ligadas a 19 tipos diferentes de tumores. Além disso, 107 delas já circulavam no sangue dos pacientes oncológicos mais de sete anos antes de eles terem recebido o diagnóstico, reforçando o potencial de identificação precoce.7
— Essa tecnologia envolve tentar identificar no sangue dos indivíduos proteínas, DNA tumoral, genes, assinaturas genéticas que possam indicar um diagnóstico de câncer. Essa estratégia não começou hoje, mas avançamos muito na sensibilidade dos testes, a capacidade de identificar fragmentos cada vez menores de fragmentos no sangue.
Ainda temos um caminho, mas podemos dizer que a utilização clínica de estratégias como essa é apenas uma questão de tempo, de anos. E se queremos de fato vencer o câncer, precisamos focar em antecipar diagnósticos — avalia o oncologista Carlos Gil Ferreira, diretor médico do Grupo Oncoclínicas e presidente do Instituto Oncoclínicas.
É como pensa também o diretor-geral de Oncologia da rede de saúde Dasa Gustavo Fernandes, ex-presidente da Sociedade Brasileira de Oncologia Clínica (SBOC): — Se você puder antecipar a partir de um exame de baixa complexidade como o de sangue processos celulares associados à formação do tumor, anos antes, você vai ganhar uma capacidade preditiva imensa e ter uma chance muito maior de curar o paciente. Não tenho dúvida de que isso vai ser possível.
Além disso, outro benefício de testes do tipo poderá ser a identificação de populações de maior risco na hora de pensar em estratégias de acompanhamento, afirma a hematologista Maria Carolina Tostes Pintão, head médica de Pesquisa e Desenvolvimento do Grupo Fleury:
— Essa estratificação de risco é uma das possibilidades interessantes. Que é pensar que, caso esses testes apontem que a pessoa tem maior ou menor risco, por encontrar essas associações, talvez você possa monitorar esses pacientes mais de perto do que os demais.
O estudo de Oxford foi uma identificação inicial de possíveis biomarcadores, ainda não é um teste que esteja pronto para ser submetido à aprovação de agências reguladoras. Mas ele não é o único que tem surgido nesse sentido. Outro trabalho recente de cientistas do Instituto de Tecnologia de Massachusetts (MIT), nos Estados Unidos, detalhou um nanosensor experimental que consegue detectar proteínas semelhantes na urina. Os achados foram publicados na Nature Nanotechnology.
Indo mais além, há ainda estudos mostrando que cachorros podem ser treinados para “cheirar” biomarcadores tumorais. Uma pesquisa recente da Escola de Medicina Veterinária da Universidade de Wisconsin–Madison, nos EUA, publicada no Journal of the American Veterinary Medical Association, foi a primeira a demonstrar que cães conseguem distinguir amostras de animais saudáveis daqueles com tumores malignos por meio do olfato.
Entre humanos, o mais próximo da realidade são de fato os exames de sangue. A tecnologia para identificar as proteínas nas amostras já existe, mas o desafio agora é validar quais são aquelas que de fato poderão ser usadas como marcadores assertivos de um tumor.
— Essa capacidade técnica de detectar moléculas de muito baixa concentração nós temos hoje. O que estamos avançando é em conseguir associar esses dados (das proteínas com os casos de câncer) e fazer grandes análises para encontrar esses marcadores — diz Maria Carolina.
Os especialistas lembram, por exemplo, que alguns biomarcadores já são usados na medicina hoje, porém para acompanhar a evolução de casos já diagnosticados de câncer. Para identificar a doença de forma precoce, como buscam os cientistas, eles ainda não se mostraram assertivos.
— A primeira realidade que vem se firmando nesse sentido é a de monitorar a doença metastática por exame de sangue que analisa DNA tumoral circulante. Ele antecipa tendência, antes de o tumor crescer de 2 para 3 centímetros, por exemplo, você consegue ver no sangue que a circulação de DNA tumoral circulante está aumentando — explica Fernandes.
Mas um diferencial que surge para encontrar melhores marcadores é o acesso a novas tecnologias para realizar as análises dos dados, entre elas técnicas de Inteligência Artificial (IA), acrescenta o médico patologista Helio Magarinos Torres Filho, diretor médico do Richet Medicina & Diagnóstico, no Rio:
— Analisar todas aquelas amostras e relacionar com os pacientes que desenvolveram câncer é algo que não conseguíamos fazer antes pela quantidade de dados, mas agora com a IA conseguimos. Parece promissor e temos avançado muito nos últimos anos. O próximo passo é selecionarmos mais, afunilarmos mais e entender quais são as substâncias exatas que estão mais relacionadas com os tumores para melhorar o alvo da pesquisa.
A incorporação desses testes na prática clínica, no entanto, vai depender ainda da superação de outros dois obstáculos: a confirmação de que os exames são de fato assertivos, o que demandará um longo monitoramento, e a criação de diretrizes para o seu uso.
— O grande gargalo é a validação clínica para dizer para o paciente “você vai ter câncer” ou “você não vai ter câncer”. E precisaremos definir o que fazer se um resultado dá negativo, por exemplo, se uma mulher estará liberada de uma mamografia e por quanto tempo. Nesse caso, precisamos que mulheres façam esses testes e continuem fazendo a mamografia para depois de anos analisarmos o quanto os testes dão segurança em casos negativos. Essas perguntas são muito cruciais — afirma a médica Mônica Stiepcich, patologista sênior do Grupo Fleury.
Porém, em relação à tecnologia, o futuro é promissor. Os especialistas acreditam que os exames de sangue poderão servir como um complemento aos métodos atuais e caminhar para um cenário que englobe ainda mais dados dos pacientes, como histórico familiar, de hábitos, e outros que, juntos, poderão indicar de forma assertiva um diagnóstico.
— Existem estudos mostrando que, se eu mapeio respostas que pacientes dão a perguntas de uma investigação de uma tosse, e aplico um algoritmo, consigo discriminar quem tem mais chance de ter um câncer ou apenas um resfriado. Temos muitos recursos surgindo nesse sentido. Talvez o caminho seja a associação de diferentes marcadores com uma análise prévia de risco — cita Maria Carolina.
É também como vê Fernandes, que reforça o papel da IA nesse futuro: — Você poderá ter um registro de hábitos de atividade física, de alimentação, de sono, que a IA combina com dados de exames e levar a uma acurácia muito melhor. Hoje a IA consegue prever um diagnóstico, por exemplo, pelo caminho do paciente no sistema de saúde.
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Se você soma isso a hábitos e alguns testes, imagina o nível de acurácia. Essas ferramentas vão vir juntas com esses testes minimamente invasivos, seja de sangue, de respiração, hálito, urina, saliva. Na minha opinião, no futuro, vamos ter coisas muito mais ricas do que só sangue.
Fonte:O Globo