Cena de sexo em afresco da Casa do Centenário, em Pompéia, na Itália
O fato de a mulher se colocar em cima do homem durante o ato sexual era muito desaprovado na Roma Antiga, pois se considerava que essa posição "ativa" era humilhante para o seu parceiro masculino. Era uma posição típica das prostitutas, que cobravam mais pela sua realização (até o dobro de um serviço normal) dado o seu caráter "antinormativo".
Os romanos valorizavam mais as nádegas do que os seios — seios grandes eram objeto de ridículo, assim como pênis grandes. Outra coisa que nos surpreenderia nos romanos daquela época é a sua grande repugnância pelo sexo oral. Em "Cunnus: sexo e poder em Roma", a historiadora espanhola Patricia González Gutiérrez fala sobre tudo isso e muito mais, sempre com o recorte das questões de gênero.
— O sexo é um tema que continua gerando polêmica quando é discutido no meio acadêmico — ressalta Patricia, apontando que ainda é difícil abordar o tema para além das simples coleções de anedotas.
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Segundo a historiadora, cuja missão é a de quebrar essa barreira, os antigos romanos faziam sexo "muito diferente e ao mesmo tempo muito parecido conosco". Com seus estudos, ela busca traçar esse paralelo com os dias de hoje para compreender melhor nossos próprios costumes.
— O conceito de sexo [na Roma Antiga] era condicionado pela hierarquia, e não pelo gênero. Se você fosse poderoso, poderia fazer o que quisesse. Em geral, quase tudo era admissível desde que você fosse homem e parte ativa do relacionamento, com mulheres ou outros homens inferiores — afirma, pontuando ainda que o estupro e o adultério eram crimes, embora quem sempre suportasse o peso disso fosse a mulher. — A violência de gênero estava na ordem do dia e as possibilidades reais de intervenção da justiça eram muito poucas
SEXO E PODER EM ROMA
O sexo oral, explica, não era socialmente aceitável. O ato era visto como humilhante para quem o praticava. Isso não quer dizer que não tenha sido feito, mas "há poucas alusões e representações".
Os antigos romanos conheciam bem o orgasmo feminino e o clitóris, e há até fontes médicas que falam da manipulação do órgão para "eliminar a histeria". De qualquer forma, pontua Patricia, "o prazer feminino deve ser complicado quando você começa a ser estuprada aos 10 anos e tem sua noite de núpcias com homens maduros aos 12". A autora enfatiza que era comum associar o pênis ao "pilum", à lança e outras armas, o que diz tudo sobre o uso agressivo da sexualidade masculina.
Curiosamente, apesar de tantas histórias, filmes e séries de orgias e libertinagens romanas, a historiadora afirma que os antigos romanos eram "bastante puritanos".
— A realidade é que mesmo as demonstrações públicas de afeto eram desaprovadas — diz.
O 'CONSENTIMENTO'
Apesar dos aquedutos, das estradas, das leis e da grande cultura produzida pela Roma Antiga, destaca Patricia, reinava uma grande violência sexual.
— Não havia consentimento algum. O que tanto falamos agora, eles não tinham uma palavra para descrever. Foi imposto o conceito de que as mulheres deveriam submeter-se completamente à vontade dos homens, e os humildes aos poderosos — diz a autora.
"O que os romanos fizeram por nós em termos de sexo?", podemos nos perguntar. Patricia responde:
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— Quase tudo que sofremos sobre o sexo conjugal é devido a eles, transmitido pelo cristianismo. A questão da mulher passiva na posição missionária, esquecendo-se do seu prazer, sujeita ao desejo do marido, agindo como uma estrela do mar, aberta e pensando na lista de compras, vem dos romanos, e devemos ver quanto nos custa livrar-nos disso.
Fonte: O Globo