Um ano e meio depois de abandonar a carreira de jogador, Rafael Sobis soltou o verbo sobre a situação que viveu no Cruzeiro entre 2020 e 2021, na Série B do Campeonato Brasileiro. Críticas fortes, direcionadas principalmente ao presidente Sérgio Santos Rodrigues, que não tem mais gerência sobre o futebol desde a venda das ações da SAF.
"Falo sem modéstia: nós (jogadores e outros funcionários) salvamos o Cruzeiro da terceira divisão. Era um negócio bizarro, tristeza todos os dias. Vivemos um inferno todos os dias." (Rafael Sobis)
A entrevista foi ao Canal do Samuel Venâncio. As principais críticas estão ligadas ao aspecto financeiro. Foram constantes os atrasos salariais nos últimos anos e, com Sérgio Rodrigues, houve até greve dos jogadores por causa da situação.
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Desde aquela época, houve relatos de que jogadores ajudavam no dia a dia do Cruzeiro e colaborando com funcionários, que ganhavam salários menores – com a quitação de contas de casa e a doação de cestas básicas.
E Rafael Sobis citou auxílio não só dele, mas de outros profissionais, em situações básicas. Segundo o ex-atacante, o técnico Luiz Felipe Scolari chegou a ter até que pagar passagem de um jogador para retornar a Belo Horizonte, após ser expulso e ficar fora do jogo seguinte, que também seria como visitante.
"Teve uma vez que um jogador foi expulso, e a gente tinha dois jogos fora. Ele tinha que voltar, porque não fazia sentido ele ir para o outro. O Felipão pagou a passagem do bolso dele. Era um calvário. Vocês não têm noção do que a gente vivia."
Nos dois anos de insucessos na Série B do Brasileirão, o Cruzeiro contou com outros jogadores experientes no elenco. Um deles foi Manoel, hoje no Fluminense. Segundo o ex-atacante, o zagueiro chegou a ajudar um colega de trabalho, mais jovem, a pagar o parto do filho.
- Viramos pais dos meninos. A pressão sobre eles era sacanagem. O Manoel ajudou a pagar parto de filho de colega nosso. Também ajudou a pagar conta de luz de jogador. Não tinha como, e os caras na imprensa xingando a gente. A gente ainda tinha que jogar...
DÍVIDA NÃO PAGA E "ABANDONO"
Rafael Sobis teve passagem de sucesso pelo Cruzeiro, entre 2016 e 2018. Saiu em 2019, passou pelo Inter e estava no Ceará quando acertou o retorno à Toca da Raposa. Situação inesperada, principalmente pelo fato de que o atacante movia, naquele momento, uma ação trabalhista contra o clube celeste.
Essa ação é justamente mais um motivo de críticas do ex-atacante ao Sérgio Santos Rodrigues. De acordo com Sobis, foi feito um acordo com grande desconto, e o presidente prometeu pagamento a partir de fevereiro de 2021. Quitou apenas duas parcelas.
- Eu vim ganhando menos e deixei para trás os direitos que tinha do restante do contrato, fundo de garantia, essas coisas. (...) Voltei. Tinha o acordo, e aí o Sérgio falou: "A dívida, nós só conseguimos começar a pagar em fevereiro". E eu falei que estava tranquilo.
"Resumindo: pagou uma ou duas do novo acordo, nunca mais pagou. E do meu lado todos os dias."
Sobis contou que o presidente pedia ajuda aos jogadores mais experientes para conter o vestiário em meio aos atrasos de pagamentos.
- Me ligava: "Me ajuda, porque os caras estão bravos comigo. Não tenho dinheiro, eu prometi e não cumpri". Ele não aparecia. Eu, Fábio e Brock que segurávamos a bronca. Morei quatro meses na Toca. Tirava dinheiro do bolso para ajudar as pessoas.
Sobis também falou sobre a situação de abandono do elenco em meio à fase ruim dentro de campo. O jogador disse que Sérgio Santos Rodrigues, em alguns momentos, passava a não ter contato com o elenco mesmo tendo prometido um dia para quitar atrasados.
O ex-atacante lembrou o momento quando o presidente, mesmo em débito com os funcionários, foi até Portugal dar palestra sobre gestão. O fato ocorreu em outubro de 2021, com o Cruzeiro em 12º lugar na tabela da Série B.
"A gente não tinha respaldo de ninguém, nem deles. Claro que eles tinham afazeres, mas o Cruzeiro era mais importante. No dia a dia, nunca tinha ninguém. Falavam que iam pagar segunda, mas não apareciam. E a gente dava a notícia. Jogador queria me matar. Aí eu ligava, sumia um mês e aparecia em Portugal falando sobre gestão."
- Perdia jogo e não aparecia. Aparecia na hora da reza em algum jogo, no sentido de que era uma hora que a gente não ia falar, porque estávamos fechados. Sumia de novo. Não estou falando que ele não sofria. Ele tinha os afazeres, defendia o Cruzeiro e foi parte importante da mudança (para a SAF). Mas a gente precisava de pessoas no dia a dia para dividir responsabilidades. Em algumas viagens éramos só jogadores, o Felipão e os seguranças. Estávamos largados.
Rafael Sobis se aposentou do futebol com a camisa do Cruzeiro, no fim de 2021, pouco antes da efetivação da compra das ações da SAF por Ronaldo Fenômeno. No ano passado, o time conquistou o acesso à elite do Campeonato Brasileiro e, para 2023, a missão é se manter na Série A.
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O ge entrou em contato com Sérgio Santos Rodrigues a respeito das declarações de Rafael Sobis. Até o momento da publicação desta reportagem, o presidente do Cruzeiro não se manifestou. Assim que o dirigente se pronunciar, a matéria vai ser atualizada.
Fonte:GE