Planalto admite dificuldades para conquistar eleitores da oposição, mas mantém aposta na aproximação com grupos como evangélicos e policiais
Passado exatamente um ano da eleição, a polarização entre apoiadores do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) e do antigo chefe do Executivo, Jair Bolsonaro (PL), dá sinais de resiliência. Pesquisas de avaliação de governo, embates no Congresso Nacional e nas redes sociais evidenciam, de acordo com especialistas, que o acirramento do debate político, com seu ápice na estreita diferença entre Lula e Bolsonaro no segundo turno disputado em 30 de outubro de 2022, vai se consolidando como “novo normal”.
O Palácio do Planalto admite dificuldades para conquistar eleitores bolsonaristas, mas ainda aposta na atração de segmentos, como evangélicos e policiais, que apresentam resistências.
O retorno de Lula para um terceiro mandato, duas décadas após estrear na Presidência, se dá com mais reservas por parte de seus opositores. Em setembro deste ano, pesquisa divulgada pelo Datafolha apontou que 38% dos eleitores avaliam o governo de forma positiva, e 31% de forma negativa. Com ligeiras variações, o panorama faz eco à aprovação de Bolsonaro medida pelo instituto em agosto de 2019. À época, 29% consideravam a gestão ótima ou boa; para 38%, era ruim ou péssima.
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O fatiamento do eleitorado em três porções de tamanhos semelhantes — 30% avaliaram os dois governos como regulares — foge à regra de gestões anteriores. Nos primeiros mandatos de Fernando Henrique Cardoso, Dilma Rousseff e do próprio Lula no Executivo, ao menos quatro em cada dez eleitores apontavam um quadro positivo no início de gestão, e apenas um a reprovava.
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O Datafolha também apontou que 84% dos entrevistados que citam o PL, de Bolsonaro, como seu partido de preferência desaprovam o governo Lula. Trata-se de um recrudescimento do comportamento de oposição, comparado aos partidários do PSDB, principal antagonista das disputas eleitorais vencidas por Lula e Dilma no passado. Segundo o mesmo instituto, que incluiu perguntas similares em pesquisas desde 2003, eleitores tucanos mais aprovavam do que desaprovavam a reta inicial de governos petistas. No governo Bolsonaro, de acordo com o Datafolha, um terço dos que citavam o PT como seu partido preferido reprovavam a gestão.
— É o novo normal da política brasileira. Antes, o eleitor que votou no candidato derrotado dava uma trégua para o governo eleito. Agora, a eleição continua no dia seguinte à votação — avalia o cientista político Josué Medeiros, coordenador do Observatório Político e Eleitoral (OPEL), vinculado à UFRJ.
Medeiros também enxerga impactos da polarização no Legislativo, com maior dificuldade para consensos sobre uma “agenda nacional”. O pesquisador cita que, enquanto a reforma da Previdência apresentada por Lula em 2003 foi aprovada graças aos votos da oposição — metade das bancadas do PSDB e do então PFL na Câmara votaram a favor —, a votação da reforma tributária neste ano teve rejeição de 75 dos 99 deputados do PL. Para o pesquisador, trata-se de uma postura pragmática de correligionários de Bolsonaro buscando fidelizar uma parcela do eleitorado, contrária ao governo, que consideram estar cristalizada.
A conclusão vai de encontro a outro levantamento, da Genial/Quaest, divulgado neste mês, no qual 64% dos eleitores apontaram haver uma maior divisão do país hoje. O percentual é maior entre apoiadores de Bolsonaro: 84% consideram o Brasil mais desunido.
Segundo a pesquisa, eleitores de Lula e de Bolsonaro têm avaliações díspares, em proporções semelhantes, sobre temas como a situação da economia ou as medidas adotadas pelo governo federal em casos como as enchentes na região Sul.
— É um fenômeno de calcificação política, ou seja, um processo de consolidação das preferências políticas que nos prende num cenário de polarização, que afeta nossas vidas em várias circunstâncias — analisa o diretor da Quaest, Felipe Nunes.
Em um sinal de transbordamento da polarização para outras esferas, um dado mensurado pela Quaest aponta que 14% dos eleitores de Bolsonaro afirmam que reduzirão o consumo de uma marca de chocolate após uma campanha publicitária com o influenciador Felipe Neto, que fez oposição ao ex-presidente em 2022. Para o cientista político José Alvaro Moisés, professor da USP, o episódio denota que a divisão política está “impregnada nos modos de comportamento”.
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Foto: Reprodução
— Embora a disputa entre PT e PSDB fosse muito aguda em alguns momentos, a polarização atual é mais intolerante. E ela não aparece apenas nos resultados eleitorais, mas tem impacto também nas atitudes e na cultura dos eleitores, e na sua avaliação sobre valores que devem prevalecer — afirma Moisés.
Em um esforço para mitigar a polarização e reconquistar eleitores, em especial os que consideram o governo “regular”, o Planalto relançou uma série de políticas de gestões petistas anteriores, como o Minha Casa Minha Vida e o Programa de Aceleração do Crescimento (PAC), além de adotar novamente a nomenclatura Bolsa Família no lugar do Auxílio Brasil.
— Há um tempo de maturação das políticas públicas. Os efeitos não são imediatos. Vamos colher os resultados disso mais para frente, com a política consolidada — disse o ministro da Secretaria de Comunicação Social (Secom), Paulo Pimenta, ao GLOBO.
O foco está em pautas com impacto na economia, com menor ênfase em temas identitários, caros à esquerda, mas que dão munição ao bolsonarismo.
A estratégia passa pela leitura de que o eleitor fiel a Bolsonaro dificilmente será convertido, mas que há margem para se reaproximar de grupos, como os evangélicos, que já foram mais amigáveis com o PT. Em 2014, por exemplo, Dilma dividiu a preferência de eleitores evangélicos com o tucano Aécio Neves (PSDB) no segundo turno, segundo sondagens do Ibope. No ano passado, o Ipec, formado por ex-executivos do instituto, apontou que Bolsonaro tinha o dobro de intenções de voto (62% a 31%) de Lula no segmento.
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Em 2023, a resistência evangélica a Lula segue acima da média geral, segundo o Ipec, embora o percentual de avaliações negativas ao governo neste segmento, de 31%, fique ligeiramente abaixo das positivas (33%).
Fonte: O Globo