Agente de 53 anos falou ao GLOBO sobre humilhações, medo e sentimento de injustiça durante agressões de instrutor em curso para 40 agentes no Ceará
Eu saí do Maranhão, onde moro e trabalho como policial civil, no dia 27 de maio. No dia seguinte, começaria o curso tático para mulheres da Polícia Militar, no Ceará. Antes, foram três dias de conversas sobre a importância da participação feminina na polícia. Eu estava cheia de confiança. O curso começou de verdade em 1º de junho, e o que posso dizer é que, a partir daí, eu vivi os oito dias mais traumatizantes da minha vida no processo que chamamos de semana rústica.
Hoje, eu não sinto mais a dor física das pauladas nas nádegas, só a tristeza de não ter o apoio das outras participantes que presenciaram tudo. O curso começou com 44 mulheres, e dez de outros estados ficaram no alojamento comigo. Antes de entrar no curso, muita gente achava que eu me sairia bem porque já tenho o título de coteana, do Curso de Operações Táticas Especiais (Cote) de 2012. Estavam enganados. Entrei para me atualizar e agora preciso de terapia para seguir a vida.
No primeiro dia, teve marcha típica militar, que antecederia os dias em que sabia que minha estabilidade física e emocional seria colocada à prova. É comum entre militares, e o sofrimento é bastante estimulado. Se você faz ou fala algo errado, paga com polichinelos e flexões enquanto os instrutores pisam nos seus dedos. Mesmo que não cometa nenhum erro, pode ser penalizada e deve responder sempre “sim, senhor”, “sim, senhora”. Apesar disso tudo, não levamos para o pessoal. Suportamos porque, no fim, queremos nos sentir merecedoras por superar nossos próprios limites.
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OS CINCO “S”
Uma das atividades propostas foi percorrer 14 quilômetros levando todo nosso material nas costas em uma área rural. Algumas de nós tínhamos que passar rastejando por áreas molhadas sem deixar respingar no fuzil. É comum colocarem pedra de cimento nas nossas costas para aumentar a dificuldade. Só comíamos uma batata no café da manhã e arroz branco no almoço. Emagreci cinco quilos. Nesses dias, eles nos analisam pelos cinco “s”: saúde, simpatia, sagacidade, saco e sorte. Se te faltar qualquer um dos “s”, é “sino”. Ou seja, você é eliminada. No primeiro dia, 12 mulheres saíram.
O que me chocou foi ver que, em alguns momentos, os ataques ali eram pessoais, dos instrutores contra as alunas. Eu vi uma participante sendo atingida com spray de pimenta nos olhos mais de cinco vezes. Quando ela estava se recuperando, espirravam de novo. Essa dinâmica de tortura se repetiu todos os dias, até que no oitavo aconteceu o episódio em que eu e outras mulheres fomos espancadas com ripa de madeira nas nádegas pelo instrutor Rafael Ferreira Martins.
No começo, eu nem sabia que ele era um “caveira”, homens formados no Curso de Operações Especiais, o mais difícil do meio policial e onde dizem que os oficiais apanham muito. O cabo Martins auxiliava a sargento Laurice Maia desde o início do curso. Até aquele momento, eu não sabia que era marido dela.
A trágica agressão aconteceu por conta de um pedaço de pizza. Os instrutores foram comer e dividiram as alunas para fazer a limpeza. De repente, ouço um alvoroço e ele falando: “roubaram a minha pizza, cadê a minha pizza?”. Eu não fazia ideia do que estava acontecendo e, então, ele pediu para fazermos fila em posição de flexão.
Eu não queria ir de jeito nenhum porque sabia que aquela punição não tinha a ver com o curso em si, ele só estava satisfazendo a vontade de ter poder sobre a gente. Trabalho no combate ao crime organizado. São décadas de profissão em um ambiente quase que todo comandado por homens. Mas foi surreal para mim o que vivi. Vi claramente a expressão de ódio na cara dele enquanto dava as pauladas e, ao mesmo tempo, o prazer em mandar. Ele falava que o comando era dele e a gente tinha apenas que obedecer.
Não consegui me opor à situação de imediato. Por ter 53 anos, ser uma das mais velhas e com formação mais vasta, fui rejeitada desde o primeiro dia pelas outras meninas. Elas não interagiam comigo, e fiquei bastante isolada. Por isso, quando o cabo Martins deu a ordem, a única coisa que passou pela minha cabeça era que, se eu me recusasse a apanhar, elas poderiam me excluir ainda mais porque uma das premissas é ser “uma por todas”. Por isso, abaixei a cabeça e levei as pauladas.
"VELHA DESOBEDIENTE”
Após ele bater em uma por uma, nós levantamos. Quando caminhávamos, ele falou que era para as quatro últimas voltarem. Eu estava entre elas, mas corri para dentro da tenda porque não queria apanhar de novo. Olhava para a sargento Maia o tempo todo, como quem pede socorro. Parei na frente dela e coloquei a mão na cintura. Ela viu a atitude como uma afronta e gritou para eu seguir. Fiz posição de “sentido” e me senti indo para o abate. Só que dessa vez eu gritei bem alto para o batalhão inteiro ouvir. Um grito de dor e de indignação.
No quartel, somos chamadas pelo número. Eu era a 34. Como o cabo Martins não gostou de eu ter gritado, ele começou a me xingar: “essa velha veio do Maranhão para fazer essa palhaçada. O comando é meu aqui”, falou. Meus lábios tremiam de raiva. Eu conheço o meu limite e soube naquele momento que não daria para continuar. Saí da sala de instruções como se fosse pegar um bloco de anotações e disse para a sargento Maia que iria bater o sino. Eu esperava ouvir dela um “aguenta firme”, mas foi um “vai lá”.
Mesmo após relatar o ocorrido na coordenação com lágrimas nos olhos, foi uma luta me deixarem ir embora. Já era noite, e queriam que eu ficasse no quartel, dormindo em um caminhão, ao lado do meu agressor. Me recusei. Disse que ia ao banheiro, mas fui até o portão principal falar com outro policial para tentar pegar o meu celular e pedir um carro de aplicativo. Em vão.
No dia seguinte, pela manhã, uma coordenadora tentou me convencer a ficar, mas assinei o termo de desligamento. Ela perguntou o que eu queria que fosse feito com o cabo Martins, mas não era problema meu. Peguei minhas coisas e fui embora. Fui até a delegacia, fiz boletim de ocorrência e exame de corpo de delito, que é a minha esperança de justiça, pois o alojamento não tem câmeras. O resultado aponta que o meu ferimento foi causado por um “instrumento de ação contundente”, o que refuta o argumento de eu ter caído em cocos, como alega a defesa do meu agressor.
As oficiais femininas viram, mas estão escondendo a verdade. Elas já prestaram depoimento à policia, e cada uma dá uma versão. Não entendo por que estão mentindo, apesar de saber que têm medo. Uma das oficiais inventou que eu me machuquei quando tentei me jogar de um caminhão em movimento durante uma dinâmica. A ideia é me tachar de desequilibrada mental. Em audiência com a delegada na sexta-feira, eu pedi que fosse feito corpo de delito nas alunas, já que elas não se opõem. Ainda tenho marcas e elas devem ter também. Mas não sei se farão.
Hoje, meu alívio é o acolhimento da minha família e dos meus chefes. Passei por muitas batalhas na profissão e na vida, mas esse episódio deixou marcas na minha alma. Só quero paz e justiça”.
PM AFASTADO
Em nota, a Academia Estadual de Segurança Pública do Ceará informou que o PM foi afastado do curso após a denúncia e que não admite atos de violência. Procurado, o advogado do instrutor, Daniel Maia, disse que “as acusações são falsas e já foram desmentidas pelos depoimentos das outras alunas do curso”.
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Fonte: O Globo