Ir do Rio ou São Paulo até Johannesburgo ou Dacar é mais caro — e por vezes despende mais tempo — do que viajar a Tóquio ou Dubai
Adalton e Fernanda Barbosa vivem na África do Sul há quatro anos e ainda não sabem quando conseguirão visitar a família na Bahia. A última vez que os modelos viajaram para o Brasil foi em outubro de 2021. Vontade não falta: o problema é a falta de voos diretos, que eleva os preços das passagens e torna a viagem muito mais cara e longa, com conexões e escalas.
— A gente até tentou ir de novo recentemente, mas os preços estão surreais. Impossível de pagar — lamentou Fernanda, que não topou no momento gastar cerca de R$ 5 mil com a viagem demorada e cheia de escalas.
O que o casal vive é uma realidade: apesar de serem “vizinhos”, Brasil e África sofrem com a falta de voos. Mesmo com fortes laços históricos e culturais e um comércio anual que atinge US$ 21,3 bilhões (R$ 103,9 bilhões), há quase nenhuma conectividade por via aérea entre esses dois lados do Atlântico, o que impacta não só nas relações familiares, mas, sobretudo, nos negócios e no turismo. A corrente de comércio Brasil-África, que chegou a 5,9% do total brasileiro em 2014 — quando o país tinha 37 embaixadas no continente — caiu para 3,5% do total brasileiro em 2022.
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Hoje em dia para voar de São Paulo ou do Rio para grandes cidades africanas como Johannesburgo, Dacar, Lagos, ou Cairo é mais caro — e por vezes despende mais tempo — do que ir a locais muito mais distantes, como Tóquio ou Dubai, segundo levantamento feito pelo GLOBO para voos em meados de junho, com pesquisa realizada com três semanas de antecipação.
Apenas dois países, dos 54 que compõem o continente com cerca de 1,4 bilhão de habitantes, estão ligados diretamente ao Brasil: Angola e Etiópia, contando com 12 voos entre suas capitais, Luanda e Adis Abeba, respectivamente, e São Paulo. No auge, no começo de 2020, eram 32 voos diretos entre o continente africano e o Brasil por semana, que partiam também de Cabo Verde, África do Sul e Marrocos e chegavam ainda a Fortaleza.
FALTA DE CONCORRÊNCIA
Mas mesmo cidades com voos diretos do Brasil têm custos maiores que para outros destinos: Um voo direto, apenas ida, de São Paulo com destino a Luanda demora 8h20 e não sai por menos de R$5.995. Para Nova York, com um voo de cerca de 10 horas, a passagem para o mesmo dia, e comprada com a mesma antecedência, sairia por R$ 2.805. Também quem quiser sair do aeroporto internacional de Guarulhos de Ethiopian Airlines para Adis Abeba,em voo de 12h , vai desembolsar R$ 7.209.
—Acredito em três tripés para explicar a situação: econômico, político e a questão imigratória. Mas claro, ressaltando, a Covid embaralhou tudo e ainda estão recuperando — afirmou o especialista André Soutelino, sócio da A.L.D.S. Sociedade de Advogados, que lembra que, em seu auge, a Varig voava também para Maputo, Abdjan, Cidade do Cabo, Luanda, Lagos e Johannesburgo.
Na maioria dos casos, porém, não há voos diretos. Até 2020 havia 12 voos diretos semanais ligando Brasil e África do Sul, um dos países africanos com mais brasileiros vivendo e também um dos mais visitados por turistas do Brasil, operados por Latam e South African Airways. Mas foram suspensos pela pandemia e não voltaram. A empresa latina fez uma nova promessa: retomar três voos semanais a partir de setembro, mas a aérea já havia anunciado outras datas que não foram cumpridas.
— A gente parou de vender [o destino] África do Sul desde a pandemia — disse Renata Rossi, diretora comercial de uma operadora de turismo.
— O motivo foi exatamente a falta de voos diretos.Há cinco anos, os brasileiros estavam entre as 10 nacionalidades que mais visitavam a África do Sul. Desde 2019, quando 77.216 brasileiros vieram para o país, o pior ano foi 2021, quando este número caiu para 5.366 pessoas, segundo dados do governo sul-africano. No ano passado, 14.727 brasileiros desembarcando no país, principalmente em dezembro.
O presidente do Instituto Brasil-África (Ibraf), João Bosco Monte, comemorou a nova promessa de voos da Latam para o continente:
— Sem voos não há negócios. Os empresários precisam ter uma boa malha aérea para que os deslocamentos sejam mais fáceis, rápidos e baratos — afirmou.
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A engenheira Teresa Cristina Tarsia gosta de viajar. Ao longo da vida, ela disse que já visitou mais de 40 países, mas apenas um africano: a África do Sul. Para voltar ao Brasil da Cidade do Cabo, escolheu um longo caminho, com escala em Istambul.
— Eu procuro sempre economizar, paguei US$ 580 nessa passagem. Se eu optasse por um outro, eu pagaria três vezes mais. É cansativo, exaustivo, mas compensa — contou.
A prefeitura da Cidade do Cabo quer voos diretos vindos do Brasil, sem depender de Johannesburgo. O conselheiro do Comitê Municipal de Crescimento Econômico da cidade, James Vos, e Enver Duminy, CEO da organização oficial de marketing de destino da cidade, Turismo da Cidade do Cabo (CTT, sigla em inglês), estiveram no Brasil em abril discutindo a criação de um corredor comercial e de viagens Sul-Sul. Na agenda houve reuniões com executivos de companhias aéreas e autoridades no Rio e em São Paulo, como a secretária municipal de Relações Internacionais, Marta Suplicy.
A Cabo Verde Airlines também promete retomar ainda este ano voos diretos para o Brasil, suspensos com a pandemia, mas não informa detalhes. Nigéria é outro país que pensa em implementar voos diretos do Brasil, mas não há um plano claro. A Linhas Aéreas de Moçambique (LAM), que enfrenta problemas financeiros, divulgou a intenção de voar para novos destinos, incluindo o Brasil, mas sem especificar como fará isso.
Também está marcado para setembro o início de voos diretos entre o Egito e o Brasil. Será um voo charter semanal entre Cairo e São Paulo pela espanhola Master Flights, que espera voos lotados:
— Mesmo sem voo direto, cerca de 40 mil brasileiros viajaram para o Egito no ano passado — disse o CEO da empresa, Alfonso Martinez.
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Foto: Reprodução
ESTUDANTES NO BRASIL
A operadora de turismo brasileira Kika Ermel diz que os altos preços das passagens entre Brasil e países africanos afetam diretamente o fluxo do turismo e geram prejuízos deste lado do Atlântico:
— Para um estudante africano ir ao Brasil, por exemplo, ele vai pagar mais caro — completou, lembrando que o Brasil é uma referência acadêmica em países de língua portuguesa da África.
Dois agentes de turismo na África afirmaram ao GLOBO — sem se identificar, por medo da reação das aéreas— que a falta de concorrência também afeta os preços. Nas rotas europeias, americanas e asiáticas há mais concorrência.
A ministra do Turismo da África do Sul, Patricia de Lille, disse à reportagem estar entusiasmada com a promessa de retorno de voos entre São Paulo e Johannesburgo, apostando que isso impulsionará o turismo dos dois lados:
— O Brasil é um país apreciado por muitos sul-africanos, e há muitas semelhanças entre nossos países e nossas vibrantes ofertas turísticas, incluindo incríveis experiências culturais que os brasileiros desfrutarão na África do Sul. Como parceiros das nações do Brics (Grupo que reúne Brasil, Rússia, Índia, China e África do Sul), esperamos avançar nesta integração.
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Fonte: O Globo