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A Amazônia sem dono, sem rumo, sem gente
Foto: Reprodução

 

*Por Diágoras Spinoza - Meus cumprimentos ao caro leitor. Quem vos escreve é Diágoras Spinoza, ainda espantado com a habilidade brasileira de transformar contradição em política pública.

 

Lembro-me de João Augusto de Araujo Castro em Conferência das Nações Unidas sobre o Meio Ambiente Humano, em 1972, quando o Brasil, com uma elegância hoje extinta, teve a ousadia de dizer o óbvio: país pobre não polui, sobrevive. E sobreviver, naquele contexto, significava desenvolver-se. Araujo Castro não era negacionista ambiental — era apenas imune à hipocrisia internacional, essa velha doença tropical importada da Europa. Ele falava em soberania. Hoje, falamos em licença.

 

Enquanto isso, no Amazonas — esse território que virou peça de museu moral para ONG estrangeira — assiste-se a um espetáculo curioso: o Estado brasileiro, sob a batuta ambientalista de Marina Silva, consegue ser simultaneamente ausente e intervencionista. Ausente para proteger o homem amazônico; intervencionista para impedir que ele exista economicamente. Uma putaria contra a gente.

 

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O caso da mineração em Autazes é exemplar. De um lado, uma multinacional canadense avança com motosserras e licenças fragmentadas — um verdadeiro quebra-cabeças jurídico onde cada peça parece inocente, mas o quadro final é devastador. De outro, comunidades Mura divididas, pressionadas, ignoradas ou convenientemente ouvidas, dependendo da conveniência narrativa.

 

E no meio disso tudo o Governo Federal, praticando o esporte nacional do “não é comigo”. O Ibama olha para o lado, a Funai chega atrasada e o discurso ambiental segue impecável nos seminários de Brasília.

 

As ONGs, por sua vez, fazem o que sabem fazer: transformam a Amazônia em santuário de carapanãs, como bem disse Lúcio Carril, e o lascado cidadão amazônida em figurante. Falam em floresta, biodiversidade, carbono, mas raramente em gente. O caboclo, o indígena, o ribeirinho real (não o de relatório) vira detalhe incômodo numa equação moral já resolvida em escritórios climatizados.

 

Curioso é que, enquanto se condena qualquer iniciativa econômica local com fervor quase religioso, tolera-se — com burocrática serenidade — a entrada de capitais estrangeiros que fazem exatamente aquilo que se diz combater. É a ecologia criminosa: condena-se o desenvolvimento quando ele é nacional; negocia-se quando vem com sotaque estrangeiro. Nada contra os canadenses, mas, sim, contra a merda que é o governo brasileiro.

 

Araujo Castro, se vivo fosse, talvez perguntasse: em que momento trocamos soberania por aprovação internacional? Em que instante decidimos que o maior problema da Amazônia deixou de ser a pobreza para ser o risco de progresso?

 

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No Amazonas de hoje, parece que o homem é o único elemento descartável do ecossistema. Precisamos esbravejar e repudiar esse estado de coisas. Não podemos continuar protegendo a floresta de quem nela vive e entregando-a, com toda a papelada em ordem, a quem nela lucra. E quem não gostar, que vá tomar chá de cumaru mais adiante. 

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