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*Por Diágoras Spinoza - Pois logo de cara, eu aviso ao leitor apressado que esta crônica não serve para quem acha que o Amazonas acaba na última foto do Instagram tirada na Ponta Negra. Isto aqui é para quem conhece o cheiro de diesel misturado com chuva grossa e sabe que, neste Estado, esperança anda de rabeta e atolada até o eixo. Não é mole, não.
No próximo dia 18, o presidente Lula desembarca no Amazonas para sobrevoar a BR-319. Vai ver a floresta do alto, que é sempre muito bonita vista do helicóptero porque do helicóptero não se sente o buraco, não se respira a poeira e nem se perde roda em ponte podre.
O motivo oficial da visita é inaugurar a ponte sobre o rio Autaz Mirim, no km 24 da estrada. Uma ponte novinha em folha, cheirando a leite, 245 metros de concreto e R$ 74 milhões de dinheiro público, erguida no lugar da antiga estrutura que caiu em 2022 como quem desistiu da vida pública brasileira.
A velha ponte passou anos pedindo socorro e um belo dia desabou poucas horas depois de ser interditada. No Amazonas até a tragédia trabalha em regime de urgência.
REPÚBLICA FUNCIONA ASSIM
Agora vem a parte mais brasileirinha da história. A ponte foi liberada ao tráfego no dia 27 de abril. O povo já atravessa normalmente. Caminhão passa. Ônibus passa. Moto passa. Cachorro passa. Mas faltava a etapa essencial da engenharia nacional que é a fotografia oficial com autoridade apontando para o horizonte como se tivesse inventado o concreto armado.
Primeiro a obra acontece. Depois vem o palanque. A República funciona assim.
Mas sejamos honestos. A ponte do km 24 não é o verdadeiro drama do Amazonas. Ela é só a maquiagem da fotografia. O problema mora no chamado trecho do meio da BR-319, entre o km 250 (perto do Rio Igapó-Açu) e o km 656,4 (próximo a Humaitá/AM), totalizando cerca de 400 km a 405,7 km de extensão.
Nesse trecho, o asfalto dos anos 70 evaporou da face da Terra como se a floresta tivesse resolvido devolver a rodovia ao estado primitivo por falta de manutenção, safadeza de ongs e excesso de seminário ambiental em Brasília.
Ali existe de tudo. Existe lama que engole caminhão. Existe ponte improvisada que range igual consciência de político em campanha. Existe motorista dormindo no meio do mato esperando o barro secar. Existe doente sem acesso rápido. Existe alimento caro. Existe isolamento. O que não existe é estrada.
E foi nessa região que o Brasil resolveu montar seu grande teatro jurídico amazônico.
TEM TUDO, MENOS ESTRADA
No dia 28 de abril, uma decisão da Justiça Federal suspendeu quatro licitações do DNIT para obras no trecho do meio. Quase R$ 700 milhões travados porque surgiu a tese de que aquilo não seria manutenção da rodovia e sim reconstrução completa. Descobriram que uma estrada destruída há décadas talvez precise de licença para deixar de ser destruída.
O argumento é sofisticado. Tem Estudo de Impacto Ambiental. Tem RIMA. Tem consulta prévia. Tem nota técnica. Tem ONG. Tem observatório. Tem coletivo. Tem tudo. Só não tem estrada.
Aí veio a desembargadora Maria do Carmo Cardoso, presidente do TRF1, e derrubou a suspensão menos de 24 horas depois. Disse o óbvio ululante que qualquer caminhoneiro de Humaitá já sabe desde o século passado. Se perder a estiagem, perde-se o ano inteiro porque na Amazônia a chuva não pede licença para cair e nem consulta parecer técnico antes de transformar rodovia em igarapé.
A decisão da desembargadora foi comemorada no Amazonas como final de Copa do Mundo. Tinha gente falando dela com mais entusiasmo do que narrador de futebol em gol aos 48 do segundo tempo.
Só que o amazonense também aprendeu a desconfiar até de boa notícia.
IMPORTANDO ATÉ CEBOLA
É que aqui toda vitória vem acompanhada de um “vamos acompanhar”. Toda obra vem com prazo elástico. Toda promessa vem bem ouriçada. E toda estrada vem com um grupo disposto a provar que o melhor para o amazônida é continuar isolado em nome de uma consciência ecológica geralmente produzida em apartamento refrigerado a quinze quilômetros da praia. Ou em New York.
Enquanto isso, o Amazonas segue pagando o frete mais caro do país para importar até cebola.
O curioso é que ninguém defende abrir uma estrada no meio de floresta intocada. A BR-319 já existe há mais de cinquenta anos. O que se pede é recuperar uma ligação terrestre entre o Amazonas e o restante do Brasil. Só isso. Nada revolucionário. Apenas o direito civilizatório de ir e vir sem depender exclusivamente de barco, avião ou milagre.
Mas no Brasil existe uma estranha teoria segundo a qual o Amazonas precisa continuar isolado para provar ao mundo que a floresta está protegida. É uma espécie de conservação geográfica por abandono administrativo.
TODO MUNDO FELIZ
E agora chega Lula com helicóptero, comitiva, ministros, senadores, deputados e fotógrafos. Todos felizes diante da ponte nova. Todos sorrindo como se tivessem carregado saco de cimento nas costas desde o km 250.
Eu não condeno fotografia oficial. Política vive de imagem desde que Cabral posou diante da primeira praia. O problema é quando a imagem substitui a obra.
Porque o povo daqui sabe distinguir concreto de discurso. Sabe que a janela hidrológica fecha em setembro. Sabe que o Ibama ainda não concluiu o licenciamento definitivo. Sabe que a guerra judicial vai continuar. Sabe que o Observatório do Clima não vai descansar, não vai refrescar.
O povo daqui sabe principalmente de uma coisa. Quando o avião presidencial levantar voo de volta para Brasília, quem precisa continuar no chão são os tratores.
No Amazonas a gente já aprendeu há muito tempo que inauguração não liga Estado nenhum. O que liga é estrada pronta. É isso aí.