Em encontro sobre xenotransplantes, especialistas dizem que obstáculos para cirurgias estão sendo superados
Em um moderno complexo de vidro em Genebra, no mês passado, centenas de cientistas de todo o mundo se reuniram para compartilhar dados, revisar casos — e celebrar avanços impressionantes.
O trabalho deles já foi considerado coisa de ficção científica: o chamada xenotransplante, o uso de órgãos de animais para substituir rins, corações e fígados humanos doentes.
Mas, à medida que os cientistas trocavam informações, ficava cada vez mais claro que aquilo já não era ficção. Eles estavam perto de conquistas que poderiam ajudar a aliviar a escassez de órgãos doados, um problema que afeta todos os países.
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Transplantes com órgãos de porcos geneticamente modificados, projetados para não desencadear rejeição pelo corpo humano, começaram a mostrar grande potencial.
— O futuro chegou — comemora Muhammad M. Mohiuddin, presidente da International Xenotransplantation Association, que organizou o encontro.
Os participantes foram informados de que dois pacientes na faixa dos 60 anos — um homem na Nova Inglaterra e uma mulher na China — sobreviveram por mais de seis meses com rins de porcos geneticamente modificados. (Os órgãos tiveram de ser removidos, e os pacientes voltaram à diálise.)
Vários ensaios clínicos com esses órgãos estão começando nos Estados Unidos. O primeiro participante de um estudo conduzido pela United Therapeutics, uma empresa de biotecnologia, acaba de receber um rim de um porco com dez edições genéticas.
RINS, FÍGADO E CORAÇÃO

No próximo ano, outra empresa, a eGenesis, iniciará um teste de rins transplantados de porcos que passaram por 69 edições genéticas. A empresa também começará a testar fígados de porcos para uso fora do corpo em pacientes com doença hepática crônica.
A empresa ainda espera começar a oferecer transplantes de coração de porco para bebês nascidos com um raro e grave defeito cardíaco congênito.
E, na China, onde mais de 1 milhão de pessoas sofrem de insuficiência renal, trabalhadores estão construindo a maior instalação do tipo para abrigar milhares de porcos geneticamente modificados cujos órgãos serão usados em transplantes.
Obstáculos importantes permanecem. Mesmo enquanto os cientistas aprendem mais sobre como controlar o sistema imunológico, que rejeita tecidos estrangeiros, eles descobrem que os rins suínos não estão funcionando tão bem quanto se esperava em humanos.
E embora os porcos geneticamente modificados sejam criados em instalações livres de patógenos e testados antes de seus órgãos serem retirados, vírus ou material genético viral passaram pela triagem em pelo menos duas ocasiões e foram detectados em órgãos transplantados.
Os cientistas revelaram um desses casos pela primeira vez na conferência. O receio é que órgãos infectados possam desencadear uma onda de infecções virais em humanos.
PONTO DA VIRADA

Ainda assim, os cientistas encararam os obstáculos como quebra-cabeças a serem resolvidos. Muitos compararam o momento atual ao estado dos transplantes entre humanos em torno de 1983, quando o poderoso imunossupressor ciclosporina se tornou disponível e ajudou a evitar a rejeição de órgãos transplantados.
— Acho que estamos em um ponto de virada — defende David K.C. Cooper, cientista da Universidade Harvard e consultor da eGenesis, que produz porcos geneticamente modificados para transplantes. — Já mostramos, com os poucos transplantes realizados, que os órgãos de porco vão funcionar bem.
Cooper disse acreditar que os órgãos reguladores devem receber com boa vontade a iminente onda de transplantes de porcos geneticamente modificados, já que muitos pacientes não têm outras opções.
— Acho que a FDA (agência reguladora dos EUA) será bastante tranquila ao permitir que um número maior de pessoas receba órgãos suínos — diz. — Veremos cada vez mais transplantes, e seus resultados só vão melhorar.
TABUS CULTURAIS
O interesse em obter órgãos como rins de porcos geneticamente alterados cresceu no mundo todo. Doenças crônicas como diabetes e hipertensão danificam os rins, e esses quadros estão aumentando em todos os lugares, impulsionados por alimentação ruim, tabagismo, consumo de álcool e falta de atividade física.
Até mesmo o aumento das temperaturas globais pode prejudicar os rins por causa da desidratação.
A doença renal é hoje a nona principal causa de morte no mundo e deve se tornar a quinta até 2040, informou Deusdedit Mubangizi, diretor de políticas e padrões de produtos de saúde da Organização Mundial da Saúde (OMS), na conferência.
Em países mais ricos, pacientes podem ser mantidos em diálise, embora o tratamento seja desgastante. Mas, em nações de baixa e média renda, a diálise é pouco acessível, e a insuficiência renal equivale a uma sentença de morte, afirmou Mubangizi.
Órgãos humanos doados para transplante estão em falta no mundo inteiro.
— Onde quer que você vá, ouve falar da fila de espera por transplantes — disse Mubangizi.
Embora cerca de 170 mil transplantes de órgãos sejam realizados por ano globalmente, ele afirmou que isso representa apenas 10% da necessidade.
Na China, por exemplo, são feitos menos transplantes de rim entre humanos do que nos Estados Unidos — ainda que o país tenha 1,4 bilhão de habitantes, mais de quatro vezes a população norte-americana.
Crenças culturais que valorizam o sepultamento do corpo inteiro e intacto estão profundamente enraizadas em muitas sociedades, contribuindo para a escassez aguda de órgãos doados.
No Japão, essa crença leva a uma falta crítica de rins doados, segundo Takayuki Hirose, professor assistente do Hospital da Universidade de Hokkaido. Pacientes japoneses podem esperar 15 anos ou mais por um rim, disse Hirose, e 300 mil pessoas estão na fila.
Muitos japoneses acreditam que o corpo abriga o espírito do indivíduo mesmo após a morte, o que é uma barreira à doação, explicou. Apenas cerca de 2 mil transplantes de rim são realizados por ano no Japão, e a maior parte dos órgãos vem de doadores vivos, como familiares.
Por causa das longas listas de espera, pacientes mais velhos são desencorajados a entrar no registro. Se você se inscreve para um rim aos 55 anos, vai esperar até pelo menos os 70 — e não pode receber um órgão depois dessa idade.
IMUNIDADE BAIXA
Um dos maiores desafios na xenotransplantação é reduzir o sistema imunológico do paciente o suficiente para evitar danos ao órgão e rejeição, mas não tanto que isso o prejudique.
Os primeiros trabalhos experimentais envolviam transplantar órgãos de porcos em primatas não humanos. Mas os médicos agora observam respostas mais fortes de células T de memória — que protegem contra patógenos previamente encontrados — em pacientes humanos, afirma Tatsuo Kawai, professor de Harvard que liderou cirurgias bem-sucedidas de xenotransplantação no Mass General Brigham.
Isso pode ocorrer porque humanos comem carne de porco e primatas não, sugeriu Kawai, o que significa que humanos podem estar sensibilizados aos órgãos suínos.
— Se um paciente nunca consumiu carne de porco, o xenotransplante pode ser mais fácil — diz.
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Fotos: Reprodução
Respostas imunes também podem estar influenciando outro problema persistente nos rins transplantados de porcos: os órgãos podem liberar altas quantidades de proteína na urina do paciente. A síndrome, chamada proteinúria, indica que os rins suínos não estão funcionando adequadamente — e talvez não durem muito.
Coágulos sanguíneos que podem danificar os órgãos também foram encontrados em pequenos vasos sanguíneos de alguns rins transplantados.
No fim de outubro, cirurgiões em Boston removeram o rim de um porco transplantado em um homem de 67 anos de New Hampshire após a piora da função renal. O paciente, Tim Andrews, que recebera o transplante em janeiro, viveu mais tempo com um rim de porco do que qualquer outra pessoa até agora.
Os cientistas ainda não entendem bem por que rins suínos transplantados falham. Alguns pesquisadores sugerem que mais edições genéticas nos porcos poderiam resolver o problema, ajudando o órgão a escapar melhor da resposta imune.
Outra possibilidade é que seja necessário suprimir o sistema imunológico do receptor de forma mais intensa para proteger o rim transplantado.
— Podemos esperar agora que os pacientes sobrevivam às cirurgias e fiquem fora da diálise — prevê Richard N. Pierson, professor de cirurgia da Harvard Medical School e do Massachusetts General Research Institute, que realizou pesquisas extensas em transplantes de coração de porco. — Mas eles serão atormentados por problemas de perda de proteína, ou isso será um incômodo administrável, com mais medicamentos ou mais alterações no porco? Esse é o principal desafio agora.
NOVOS PATÓGENOS
Não é o único, porém.
Os cientistas também precisam tranquilizar o público sobre o fato de que a xenotransplantação não introduzirá novos patógenos animais na população humana. Mas os arcabouços regulatórios para garantir a segurança dos pacientes e proteger a saúde pública ainda são frágeis na maior parte do mundo, inclusive na Europa.
Entre cerca de 30 países que responderam a uma pesquisa do Comitê Europeu de Transplante de Órgãos, um terço afirmou não ter legislação que cubra o transplante de órgãos, tecidos e células de animais em receptores humanos, afirma Ralf R. Tonjes, cientista que lidera o grupo de trabalho sobre xenotransplantação do comitê.
Traços de um citomegalovírus conhecido por infectar porcos foram encontrados no primeiro receptor de um coração de porco geneticamente modificado. O cirurgião que realizou a operação, Bartley Griffith, da Universidade de Maryland, disse que o vírus latente pode ter pegado carona no órgão transplantado e contribuído para o rápido declínio e morte do paciente.
Na conferência de Genebra, pesquisadores revelaram ter detectado RNA de um vírus suíno diferente nos fluidos corporais de um paciente que recebeu um rim de porco no NYU Langone Health no ano passado. O vírus, chamado pestivírus porcino atípico (APPV), não está associado a doenças em humanos, e nenhuma célula humana foi infectada.
Um teste posterior em uma amostra do porco mostrou que ele era a fonte do vírus, e o APPV foi encontrado no próprio órgão transplantado.
Embora porcos criados para transplantes sejam testados para cerca de 16 patógenos, nem o animal nem o rebanho tinham sido examinados para o APPV porque ele "não é considerado um patógeno preocupante", explica o cientista Simon H. Williams.
— Até o momento, não houve nenhum caso de infecção por APPV em qualquer hospedeiro fora de porcos — explica Williams. — Na verdade, nunca houve infecção humana por qualquer vírus do gênero pestivírus. Eles são principalmente vírus de animais de criação.
Ainda assim, deve sempre haver acompanhamento e avaliação de risco. Ele enfatizou que apenas RNA foi detectado, não o vírus em si, e que — RNA sozinho não é infeccioso, enquanto partículas virais podem ser.
Cientistas afirmam que o rastreamento metagenômico, capaz de detectar qualquer DNA não humano, e não apenas testar vírus específicos, pode ser usado para examinar porcos em busca de patógenos.
O grande temor é que um vírus suíno possa sofrer mutação e infectar um paciente transplantado, desencadeando uma epidemia ou pandemia. O medo da transmissão de doenças de animais para humanos pesa não só entre o público geral, mas também entre pacientes com insuficiência renal, que são os que mais se beneficiariam da xenotransplantação.
Se houvesse risco de que uma doença zoonótica fosse transmitida a eles e às suas famílias, esses pacientes ficariam muito menos propensos a considerar receber um órgão de porco, afirmou Heather Murphy, que apresentou os resultados de uma grande pesquisa da National Kidney Foundation com pacientes renais durante a conferência.
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— Essa foi a maior preocupação dos pacientes — disse Murphy. — Quando o risco se estende a seus entes queridos e à comunidade em geral, isso se torna um fator decisivo para muitos.
Fonte: O Globo