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A fatura da submissão: Argentina de Milei de joelhos perante Trump
Foto: Reprodução

Por Plinio Cesar A. Coêlho - Disseram que a liberdade viria com a motosserra. Que bastava “dinamitar o sistema”, acabar com a “casta”, extinguir o Banco Central, encolher o Estado até caber num bolso.

 

Mas, no primeiro teste de realidade, o discurso virou pedinte: o governo Milei circula o chapéu atrás de algo em torno de vinte bilhões de dólares para fechar as contas, recompor reservas e sustentar um programa que prometia justamente viver sem muletas.

 

Liberdade? Não: dependência. Soberania? Não: tutela. O preço da bravata é pago em dólares, com juros e condicionalidades.

 

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O CHEQUE DE VINTE BILHÕES DE DÓLARES NÃO É ESMOLA — É COLEIRA

 

- Cada dólar emprestado vem amarrado a metas, prazos e auditorias. É assim com organismos internacionais, é assim com fundos privados, é assim quando o aval político precisa ser carimbado por quem dita o tom no tabuleiro geopolítico.

- O governo que jurou “menos Estado” agora negocia “mais condicionalidades”: cortes lineares, privatizações apressadas, liberalizações sem rede e prioridade absoluta ao serviço da dívida — ainda que isso esmague salários, produção e serviços essenciais.

- Dizer que é “apenas um reforço de caixa” é subestimar a sociedade: um financiamento dessa magnitude, em situação de fragilidade, vira manual de governo escrito por quem empresta.

 

O MARKETING E A REALIDADE: “FIM DO ESTADO” COM O ESTADO NA VEIA

 

- Prometeu-se extinguir o Banco Central; na prática, implora-se por dólares justamente para alimentar reservas e tentar estabilizar a moeda. Sem reservas, não há âncora; sem âncora, não há programa.

- Bravou-se contra a “casta”, mas a casta dos credores nunca foi tão determinante: decide o ritmo do ajuste, a temperatura da economia, o alcance das reformas.

- Falou-se em “mão invisível”, mas a mão bem visível de Trump e de seus aliados políticos e financeiros arbitra o fôlego do experimento. Não é mercado livre; é mercado tutelado.

 

AJOELHAR-SE POR BÊNÇÃO POLÍTICA NÃO É POLÍTICA EXTERNA — É VASSALAGEM

 

- Buscar chancela de celebridades políticas estrangeiras — como Trump — não é estratégia diplomática: é mise-en-scène para consumo interno que sai caro em credibilidade externa.

- Alinhamento automático não é parceria; é subordinação. Relações maduras se constroem com pluralidade de alianças, não com culto de personalidade fora de casa.

- Quando a foto vira programa, a nação sai do enquadramento: interesses locais perdem lugar para a coreografia de quem promete abrir portas — e cobra pedágio.

 

PRIVATIZAR NO MEIO DO INCÊNDIO É VENDER A PREÇO DE CINZAS

 

- “Acabar com a festa” virou liquidação de ativos estratégicos durante crise, quando o valor da “prata da casa” despenca e o poder de barganha some.

- Sem regulação firme, serviços essenciais viram feudo de monopólios privados, com tarifas que sobem e qualidade que cai — e o Estado, que disseram extinto, volta pela porta dos subsídios para conter o caos.

- Entregar infraestrutura, energia e logística sob pressão fiscal e cambial não melhora a eficiência por decreto; consolida dependências por décadas.

 

A FATURA SOCIAL DO ARROCHO CEGO

 

- Cortes abruptos sem desenho e sem amortecedores não produzem eficiência; produzem desorganização, recessão e desespero — o custo perfeito para quem, depois, dita as próximas condições do empréstimo.

- O “choque de austeridade” em economias já fragilizadas reduz a arrecadação, piora o risco e, ironicamente, exige… mais dívida. É um círculo vicioso que beneficia credores e penaliza trabalhadores, pequenas empresas e Estados locais.

 

SOBERANIA NÃO É PALAVRA DE PALANQUE — É PRÁTICA COTIDIANA

 

- País soberano negocia, mas não ajoelha. Recebe investimento, mas define prioridades. Ajusta contas, mas protege a base produtiva e o tecido social.

- Quem terceiriza a bússola para agradar a credores confunde “estabilidade” com silêncio. Estabilidade de verdade é a que nasce de um plano crível, pactuado internamente, com previsibilidade jurídica e metas que não desidratam o futuro.

 

O QUE MILEI DEVERIA DIZER — E NÃO DIZ — SOBRE OS VINTE BILHÕES

 

- São um respiro de curtíssimo prazo, não um projeto de país.

- Vêm com condicionalidades que ultrapassam o calendário eleitoral e engessam escolhas futuras.

- Não substituem reformas sérias de capacidade estatal, regulação transparente, combate a privilégios e estímulos ao investimento produtivo — com valor agregado, inovação e exportações que paguem a conta do desenvolvimento.

 

HÁ OUTRO CAMINHO — MAIS DIFÍCIL, MAS DE PÉ

 

- Ajuste inteligente, com corte de desperdícios e revisão de renúncias, em vez de motosserra cega em serviços essenciais.

- Estabilização monetária responsável, com metas claras e transição institucional — e não fantasias de extinção do Banco Central em meio a tempestade cambial.

- Agenda de produtividade que una segurança jurídica, simplificação tributária e política industrial leve, voltada a encadeamentos e tecnologia, para exportar mais do que commodities.

- Diplomacia ativa e plural: negociar com todos, sem se curvar a ninguém — porque depender de um único fiador é a receita da submissão permanente.

 

Conclusão: Não há liberdade quando a chave do cofre fica com o credor. Não há soberania quando a pauta econômica é terceirizada para agradar plateias fora do país.

 

Os vinte bilhões podem comprar tempo; não compram dignidade nem projeto. A Argentina não precisa de um governo de joelhos: precisa de um governo que olhe nos olhos do seu povo, ajeite a casa com justiça e trate o mundo como parceiro — não como tutor

 

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Resumo em uma linha: o “empréstimo salvador” é a fatura da submissão — paga hoje com cortes e amanhã com futuro vendido. 

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