.jpeg)
Diágoras Spinoza - Campanha política, na maioria das vezes, é mesmo coisa de doido, coisa de deixar Nelson Rodrigues à beira de um ataque de nervos, ou de risos. Sei que há propostas de candidatos que exigem reflexão, respeito. E há outras que pedem um psiquiatra de plantão.
A mais recente descoberta da alquimia eleitoral amazonense é a promessa do candidato ao Governo do Amazonas pelo PSTU, Gilberto Vasconcelos, de extinguir as escolas militares. Sim, porque, ao que parece, o grande drama da educação brasileira não é a evasão escolar, o analfabetismo funcional, a violência, a falta de professores, a infraestrutura precária ou o desempenho vergonhoso em avaliações nacionais.
O verdadeiro vilão é o aluno fazer fila, cantar o Hino Nacional e aprender que horário não é sugestão. Se alguma escola funciona relativamente melhor, elimina-se. Afinal, igualdade é quando todos afundam na mesma velocidade.
O curioso é que ninguém é obrigado a matricular o filho numa escola militar. Pais que não apreciam o modelo têm dezenas, centenas de escolas civis à disposição. Mas a simples existência de um modelo alternativo parece provocar em certos setores uma espécie de urticária ideológica. A disciplina virou suspeita. A autoridade tornou-se palavrão. O mérito passou a ser considerado uma forma sofisticada de opressão.
Não duvido de que o próximo passo seja abolir provas, porque elas discriminam quem não estudou.
Aliás, proponho coerência. Se a disciplina é um mal, acabemos também com os quartéis. As filas dos aeroportos. Os semáforos. O Código de Trânsito. Os relógios. Afinal, toda regra é uma afronta à espontaneidade revolucionária. Êta nóis!
Há quem enxergue nas escolas militares uma conspiração para transformar adolescentes em soldados, e isso é curioso. Nunca ouvi falar de um batalhão cuja principal arma fosse uma prova de matemática e um boletim escolar.
O máximo que essas escolas costumam produzir é algo infinitamente mais perigoso para certas utopias: jovens que aprendem que liberdade não significa ausência de regras. E isso, para alguns ideólogos, é quase um crime de lesa-revolução.
Há um curioso fenômeno em nossa política: sempre que uma instituição produz resultados minimamente positivos, alguém aparece para dizer que o problema está necessariamente nela. É como demolir uma ponte porque o rio continua existindo.
As escolas militares têm seus defeitos, evidentemente. Nenhuma instituição humana é perfeita. Mas costumam oferecer ambientes mais organizados, maior sensação de segurança para professores e alunos e regras claras de convivência. Não são fábricas de robôs, como gostam de caricaturar alguns militantes. São escolas onde, extraordinariamente, espera-se que o estudante estude.
Mais interessante ainda é notar que muitos dos críticos desse modelo jamais colocariam seus próprios filhos numa escola onde a indisciplina fosse tratada como expressão artística.
Defender a escola militar não significa desejar um país de continências e coturnos. Significa reconhecer uma verdade simples, embora politicamente inconveniente: educação exige autoridade, responsabilidade e limites. Crianças não nascem sabendo conviver. Adultos tampouco.
A civilização inteira é um longo curso de boas maneiras. Extinguir escolas militares porque elas representam disciplina parece tão incrível quanto fechar hospitais porque ainda existem doenças.
Mas campanhas eleitorais têm essa magia peculiar. Alguns prometem construir pontes. Outros prometem destruir as que já existem. Chamam isso de mudança. Eu continuo chamando de desperdício, ou de burrice imperdoável.