.jpeg)
Por Diágoras Spinoza - Neste país de parâmetros morais em frangalhos, certas cenas dispensam discursos inflamados para expor o constrangimento da vida pública. Basta um gesto: dedos atravessando o ar na altura do pescoço e, pronto, a civilização tropeça mais uma vez na própria barbárie.
Foi o que se denunciou nos bastidores da TV Norte, após o debate entre candidatos ao Governo do Amazonas, na terça-feira (13). A deputada estadual Alessandra Campêlo, candidata a vice-governadora na chapa de Omar Aziz, afirmou ter sido alvo de um gesto de degola atribuído ao policial Kidson Maia, candidato derrotado a deputado estadual. Segundo ela, o gesto teria sido repetido três vezes, diante de pessoas e câmeras.
Três vezes! A política amazonense ganha, assim, uma coreografia de gosto duvidoso: o teatro do pescoço, apresentado sob os holofotes de uma campanha em que adversários parecem, por vezes, esquecer que divergência não é declaração de guerra.
Não se exige que candidatos distribuam flores ou terminem debates abraçados ao som de violinos. A democracia comporta ironia, confronto e crítica contundente. O que não deveria comportar é a banalização de gestos que, pelo contexto, possam ser interpretados como intimidação.
Alessandra declarou ter se sentido ameaçada. Sua denúncia merece apuração séria, sem prejulgamentos nem desqualificações automáticas. Afinal, não é necessário esperar que uma ameaça percebida se transforme em agressão física para reconhecer a importância de investigar o ocorrido.
Nos bastidores, porém, surgiu outro espetáculo: o da relativização.
O vereador Sargento Salazar, aliado de Kidson e deputado federal eleito, sugeriu que o gesto poderia significar simplesmente que Omar Aziz perderia a eleição. Uma profecia eleitoral feita com a mão na altura do pescoço: método original, embora as urnas continuem sendo instrumentos mais confiáveis para anunciar derrotas.
Salazar também mencionou supostas ofensas verbais atribuídas a Omar Aziz contra um profissional de marketing. Se houve excessos, eles igualmente merecem avaliação. Mas uma eventual grosseria não absolve outra conduta. A ética não funciona como balcão de compensações, no qual a falta alheia compra licença para a própria.
É a velha lógica do recreio: se o outro empurrou primeiro, vale empurrar também. Nesse sistema, a responsabilidade desaparece e a política vira uma competição infantil para saber quem consegue justificar o próprio excesso com o excesso do adversário.
Omar divulgou imagens nas redes sociais em que Salazar aparece fazendo gesto semelhante e contestou o comportamento de pessoas ligadas ao grupo adversário durante o debate. As imagens e os relatos devem ser examinados integralmente, para que os fatos sejam esclarecidos sem condenações antecipadas nem explicações improvisadas.
Que espécie de política se oferece à sociedade quando a disputa por votos descamba para gestos que podem ser percebidos como ameaças?
A derrota eleitoral não concede salvo-conduto ao ressentimento. Perder faz parte da democracia; intimidar não pode ser naturalizado como folclore de campanha. E a condição de policial de Kidson Maia, longe de autorizar qualquer conclusão antecipada sobre sua responsabilidade, torna legítimo cobrar de quem exerce função pública o cuidado exigido pelo peso de sua atuação social.
Também merece reflexão a reação atribuída a Salazar. Alessandra afirmou que ele teria permanecido ao lado de Kidson, rindo, e posteriormente repetido o gesto. Se confirmada pelas imagens, essa conduta levantará uma questão que ultrapassa a rivalidade partidária: a facilidade com que comportamentos potencialmente intimidatórios podem ser tratados como brincadeira quando o alvo é um adversário.
A solidariedade a Alessandra Campêlo não exige adesão ao PSD nem apoio à candidatura de Omar Aziz. Exige apenas um princípio democrático elementar: nenhuma mulher deve ser constrangida por comportamentos que possam ameaçar sua integridade, e nenhuma disputa eleitoral deve servir de desculpa para banalizar a violência.
Solidarizar-se não significa decretar culpados antes da investigação. Significa respeitar a denúncia, exigir esclarecimento rigoroso e rejeitar a política que transforma intimidação em piada e responsabilidade em torcida organizada.
A urna serve para encerrar mandatos, não para encenar degolas. A palavra serve para confrontar ideias, não para normalizar o medo.
A Alessandra Campêlo, minha solidariedade. Que as imagens sejam examinadas, os fatos esclarecidos e eventuais responsabilidades apuradas com rigor, independentemente de partido ou conveniência eleitoral.
No Amazonas, como em qualquer democracia que se pretenda respeitável, há algo que precisa ser degolado sem piedade: a intolerância. Nunca a dignidade de quem participa da vida pública.