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A República dos Viadutos Tortos
Foto: Reprodução / PORTAL DO ZACARIAS

Por Diágoras Spinoza - Pode-se dizer que Manaus, neste início de 2026, não vive uma pré-campanha eleitoral. Vive um reality show institucional.

 

O debate político migrou oficialmente para a estética do vídeo curto: trilha sonora épica, dedo em riste, edição nervosa e indignação coreografada. Governar, ao que parece, tornou-se um detalhe técnico.

 

Nas periferias, ou mesmo cortando a cidade, os igarapés continuam seu trabalho silencioso de acumulação histórica: lixo, promessas e o resto das narrativas que evaporaram depois da última live.

 

Estamos na alta temporada da escaramuça. De um lado, o mandatário digital reage com vigor cinematográfico. Do outro, o adversário devolve na mesma moeda dramática. No meio, uma operação de nome latino vira coadjuvante num roteiro que já conhecemos: acusação, resposta, indignação, corte seco, trilha épica. É tudo muito intenso. Só não é muito útil.

 

A água ainda falha. O esgoto ainda corre. A mobilidade ainda improvisa. Mas a retórica flui como nunca.

 

Manaus entrou na estação oficial do “culpe o outro”. É um fenômeno previsível: quanto mais próximo o calendário eleitoral, mais distante a responsabilidade administrativa. O problema nunca nasce no gabinete atual. Sempre é herança, sabotagem ou conspiração cósmica.

 

No meio do espetáculo, o cidadão tenta apenas atravessar a rua sem disputar espaço com motocicleta, ambulante, buraco ou milagre.

 

Os viadutos seguem majestosos — monumentos à engenharia que esqueceu o pedestre. O cadeirante pratica parkour urbano involuntário. O idoso calcula ângulos e riscos. A cidade, dita moderna pelas macaquices marqueteiras, é medieval nas calçadas.

 

As casas legislativas inflam discursos enquanto os igarapés inflam bactérias. Talvez o lixo seja, de fato, o projeto mais consistente em execução contínua. Não depende de licitação, nem de debate, nem de maioria parlamentar.

 

E o crime organizado? Esse não faz coletiva. Não grava vídeo. Não precisa convencer ninguém. Ele apenas ocupa os vazios deixados pela distração oficial. Cresce onde o Estado prefere discutir reputações em vez de resolver estruturas.

 

A política local virou UFC retórico: golpes baixos, respostas rápidas, plateia dividida. A diferença é que, no octógono real, alguém vence. Aqui, todos perdem, exceto o caos.

 

O eleitor amazonense, resiliente e calejado, assiste como quem revê novela antiga. Já sabe quem vai gritar, quem vai acusar, quem vai prometer. O suspense não está no enredo. Está na esperança — cada vez mais rara — de que alguém resolva falar de esgoto com a mesma paixão com que detona o adversário.

 

Todos dizem amar Manaus. Amam tanto que a transformaram em troféu discursivo. Disputam quem será o salvador, mas ninguém parece disposto a enfrentar o tédio administrativo que salva de verdade: planejamento, execução, fiscalização.

 

A cidade não precisa de heróis inflamados. Precisa de gestores entediantemente competentes. Mas isso não dá clique, não rende votos.

 

E, então, na República dos Viadutos Tortos, o concreto sobe rápido, a responsabilidade desce devagar e o discurso sempre chega antes da solução.

 

No fim, Manaus não está paralisada. Está ocupada demais discutindo. Entre o ringue e o igarapé. Entre o vídeo e o vazamento. Entre o discurso e o buraco. Tudo muito intenso, tudo muito inútil.

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