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A Santa Guerra dos versículos e o recuo dos tambores amazônicos
Foto: Reprodução / PORTAL DO ZACARIAS

 

 "Se os Bolsonaros não se entendem nem entre si, como entenderão o Brasil?" (Ruy Castro)

 

Por Diágoras Spinoza - Brasil, esta pátria amada idolatrada que há muito trocou o debate econômico pelo Fla-Flu teológico, assiste agora ao ápice de sua sofisticação litúrgica: a Guerra Santa dos Almofades.

 

Esqueçam as velhas cruzadas medievais com espadas e armaduras pesadas. A modernidade conservadora nos brindou com um bombardeio de alta precisão cirúrgica, travado nos ringues digitais, onde as munições são santos versículos e os guerreiros vestem linho fino e utilizam smartphones de última geração.

 

No centro desse octógono da salvação, duas titãs da fé disputam o cinturão do monopólio da Verdade e, de quebra, uma indicação presidencial

 

De um lado do córner, pesando anos de assessoria partidária e uma unção divina autodeclarada, Michelle Bolsonaro, a madrasta de todas as virtudes. Do outro, armada com um motor de alta rotação e o direito consuetudinário de nora, Fernanda Bolsonaro, a cirurgiã-dentista pronta para extrair a moral alheia sem anestesia.

 

Querem saber o pretexto de tudo? Uma lavagem de roupa suja familiar digna de Casos de Família, mas envelopada para o rebanho com o selo dourado das Escrituras.

 

Como bem observou o mestre Ruy Castro em cirúrgica intervenção jornalística na Folha de São Paulo, o espetáculo beira o virtuosismo exegético.

 

Se alguém ousar sussurrar uma frase de Jó ou Malaquias, as duas generalas respondem na velocidade de um clique com o capítulo e o versículo exatos. Michelle abriu os trabalhos sacando Salmos para acusar o enteado Flávio de "apunhalá-la" com sua indisfarçável grossura machista.

 

Fernandinha, que não leva desaforo dogmático para casa, contra-atacou brandindo Provérbios em legítima defesa do cônjuge. É a inflação do ódio empacotada com as etiquetas de "amor" e "mansidão".

 

 

ARCANJO JUSTICEIRO

 

O sublime paradoxo desse armagedom doméstico reside na figura do próprio Flávio Bolsonaro, o herdeiro que recentemente autoproclamou o pleito como uma "luta do Bem contra o Mal", colocando-se, naturalmente, no papel de arcanjo justiceiro.

 

Contudo, diante de tamanha erudição bíblica de suas patroas, fica a dúvida: será que o nobre senador passaria em uma sabatina rigorosa conduzida por pastores com PHD?

 

Seria ele capaz de recitar João 14:16 sem gaguejar, ou engasgaria no primeiro Salmo? No reino dos influenciadores apostólicos, quem tem um smartphone e um verniz de beatice é rei, ou quase.

 

Mas, como toda guerra santa que se preze, o dízimo político cobra seu preço antes mesmo da colheita.

 

Sentindo o azedar do vinho familiar e a fritura nos bastidores, Michelle abdicou do trono do PL Mulher. A justificativa oficial é de uma pureza tocante: vai se dedicar integralmente ao repouso do "Varão de Plutarco", o patriarca Jair, que cumpre sua temporada de meditação em prisão domiciliar, além dos cuidados com a caçula.

 

Trata-se de uma cortina de fumaça piedosa para camuflar o racha com o partido e o cansaço das bases, que já começavam a chiar com o hábito da ex-primeira-dama de agraciar apenas seus fiéis escudeiros com os fundos da legenda.

 

 

PROVÍNCIA DO AMAZONAS

 

Contudo, a piada ganha contornos de tragédia folclórica quando o terremoto da corte atinge as províncias. Enquanto Brasília implode em citações bíblicas, as réplicas sísmicas viajam milhares de quilômetros até desembarcar nas águas calmas do Rio Negro e do Solimões.

 

No Amazonas, o puritanismo estético do PL local derreteu mais rápido que gelo no asfalto de Manaus.

 

Diante do espetáculo dantesco da dinastia, as lideranças locais aplicaram a milenar tática do "sumiço digital". Figuras exponenciais como Maria do Carmo Seffair e o deputado federal Alberto Neto, outrora devotos fervorosos da iconografia bolsonarista, correram para as suas redes com o apagador de passado em punho.

 

Fotos abraçados ao clã? Nem pensar. Textos de fidelidade eterna? Simplesmente extintos. De repente, a santíssima trindade do conservadorismo foi substituída, num passe de mágica algorítmica, pela defesa intransigente da Zona Franca de Manaus e pelo aroma do tucunaré na brasa.

 

Descobriu-se, do dia para a noite, que o patriotismo regional fala mais alto quando os donos do poder nacional decidem se engalfinhar publicamente.

 

O racha interno no diretório amazonense do PL virou um salve-se quem puder teológico-partidário. Enquanto a bancada tenta fingir demência digital, o grupo de Maria do Carmo já articula a foice e o martelo da purificação interna, ameaçando expulsar filiados que se atreveram a piscar o olho para o governador Roberto Cidade.

 

 

PROCISSÃO DE DESORIENTADOS

 

As chapas proporcionais, que deveriam ser o exército organizado para a disputa legislativa, hoje parecem uma procissão de desorientados em plena festa de Parintins, sem saber se garantem o fundo partidário ou se compram uma Bíblia nova para o caso de serem cobrados pelos versículos de Michelle.

 

A moral dessa ópera-bufa é a herança política do bolsonarismo, que transformou-se em um inventário litigioso antes mesmo do falecimento político do espólio.

 

Se a família real do conservadorismo nacional não consegue manter a compostura na mesa de domingo, trocando afagos por admoestações proféticas nas redes sociais, como pretendem governar os destinos da República?

 

Enquanto isso, no Amazonas, os candidatos locais provam que a fé move montanhas, mas o medo de perder votos move o dedo indicador para o botão "excluir publicação". Que Deus nos perdoe, mas a comédia humana é irresistível. Podem rir: Rá...Rá...Rá...

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