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Adeus, Amélia. A urna agora é das mulheres
Foto: Divulgação

 

*Por Diágoras Spinoza - Durante muito tempo, a política brasileira adorou imaginar a mulher como a Amélia de Ataulfo Alves: virtuosa, recatada, obediente, satisfeita com o fogão, a família e, quando muito, com a tarefa de escolher o candidato recomendado pelo marido, pelo pai, pelo padre, pelo patrão ou pelo coronel de plantão.

 

Assim era de Norte a Sul do Brasil. Era uma democracia curiosa: a mulher podia lavar a roupa suja da família, mas não podia meter a mão na roupa suja da República.

 

Pois bem. A Amélia, aparentemente, pediu aposentadoria. E não foi sozinha.

 

Segundo o Tribunal Superior Eleitoral, 83.877.126 mulheres estarão aptas a votar nas eleições de 2026, o equivalente a 52,84% do eleitorado brasileiro. Os homens serão 74.845.001. Na hora em que a urna eletrônica chamar, a maioria será delas.

 

É uma mudança e tanto. Significa que aquela velha pergunta “o que será que o eleitor quer?” terá de ser acompanhada de outra, muito mais incômoda para certos caciques: “o que será que as eleitoras querem?”

 

E aí começa a confusão, pois há políticos que ainda imaginam a mulher como um eleitor com manual de instruções masculino. A conservadora seria aquela que vota porque o marido mandou. A progressista seria aquela que precisa necessariamente concordar com a cartilha do partido. A dona de casa seria apenas dona de casa. A profissional seria uma exceção. A mulher que fala alto seria “agressiva”. A que discorda seria “difícil”.

 

ELAS QUEREM OUSAR

 

Agora, a coisa mudou e é melhor avisar aos fabricantes dessas caricaturas que o produto saiu de linha. A mulherada quer ousar, quer ser protagonista.

 

Como observa a doutora em Direito pela USP, Juliana Diniz, as mulheres estão amadurecendo sua consciência política, percebendo seus direitos, sua autonomia e o valor do próprio voto. Elas querem ser tratadas como cidadãs, não como extensão eleitoral de algum homem cafajeste.


Na Folha de São Paulo, Ana Cristina Rosa, ao lembrar O Conto da Aia, de Margaret Atwood, chamou a atenção para uma verdade ainda mais elementar: democracia sem participação feminina é uma democracia mutilada.


O Brasil de 2026 parece disposto a oferecer uma pequena aula prática sobre isso. No Amazonas, por exemplo, as mulheres já não estão apenas do lado de cá da urna. Estão também do outro lado: disputando o poder com o bicho homem.


O eleitorado amazonense chega a 2.801.182 pessoas, e as mulheres são 1.440.590, ou 51,43%. A diferença é de quase 80 mil votos. É como se o Amazonas tivesse colocado um aviso na porta da política: “Senhores candidatos, favor não ignorar as mulheres. Elas são maioria e que se cuidem os malandros”.


FIRMES NO JOGO


E não se trata apenas de quantidade. Na Assembleia Legislativa do Amazonas, a presença feminina alcançou em 2026 um patamar histórico, com seis deputadas estaduais. Entre elas estão Alessandra Campêlo, Joana Darc, Brena Dianná, Mayra Dias, Débora Menezes e Mayara Pinheiro.


Algumas dessas mulheres já estão novamente no jogo eleitoral. Alessandra Campêlo subiu um degrau importante: teve sua candidatura a vice-governadora oficializada na chapa encabeçada por Omar Aziz.

 

Joana Darc vai disputar a Câmara Federal e Brena Dianná, Mayra Dias e Débora Menezes estão entre as parlamentares que buscarão a reeleição em outubro.

 

As mulheres não querem apenas escolher quem vai sentar na cadeira. Elas também descobriram que podem disputar a cadeira, o que muda completamente a conversa.

 

Por décadas muitos partidos trataram a participação feminina como decoração eleitoral: colocava-se uma mulher na fotografia, distribuía-se um pouco de espaço no palanque e, se possível, mantinha-se o comando masculino intacto.

 

Agora o problema é outro. O bicho pegou firme. A mulher não quer mais aparecer na fotografia. Quer ajudar a escolher o fotógrafo. E talvez até desligar a câmera quando a fotografia estiver ruim.

 

O mais engraçado é que alguns políticos parecem estar descobrindo essa realidade com o espanto de quem acabou de desembarcar de uma máquina do tempo.


Saúde, segurança, respeito


“Mas o que as mulheres querem?” Ora, a resposta não é tão complicada. A mulherada quer saúde que funcione, segurança, educação, emprego, renda, respeito, creche, transporte, dignidade, combate à violência, oportunidades e liberdade para decidir sua própria vida.

 

As mulheres querem, sobretudo, que não lhes seja explicado, em pleno 2026, que alguém sabe melhor do que elas o que devem pensar.

 

A mulher conservadora não é necessariamente submissa. A mulher progressista não é necessariamente militante profissional. A mulher religiosa não é politicamente ingênua. A mulher independente não é “agressiva”. E a mulher que discorda de um político não precisa de autorização masculina para fazê-lo.

 

Acontece que o tabuleiro virou e o eleitorado feminino não é uma manada eleitoral. É uma multidão de cidadãs, diferentes entre si, contraditórias, inteligentes, temperamentais, pragmáticas, idealistas, conservadoras, progressistas, religiosas, agnósticas, jovens, maduras, pobres, ricas, urbanas, ribeirinhas, do interior e da capital.

 

Há algo, porém, que parece uni-las: o direito de escolher por conta própria. E isso é uma coisa bastante perigosa para quem estava acostumado a escolher por elas.

 

Por isso, nas eleições de 2026, é melhor os candidatos trocarem os velhos discursos sobre “a mulher brasileira” por uma conversa mais simples: falar com as mulheres brasileiras. Olhar nos olhos. Ouvir.

 

SEM CHEFE E SEM MEDO


Os candidatos devem, principalmente, parar de imaginar que toda mulher chega à urna acompanhada de um homem invisível soprando em seu ouvido o número do candidato.

 

A urna eletrônica não pergunta quem é o marido. Não pergunta quem é o pai. Não pergunta quem é o chefe. Não pergunta quem autorizou. Pergunta apenas o voto.

 

Neste ano, a maioria dos dedos que vão apertar aqueles botões será feminina. Então, senhores políticos, uma sugestão singela deste cronista: guardem a velha Amélia no álbum de fotografias. As Amélias acabaram.

 

As mulheres de 2026 não estão pedindo licença para entrar na política. Estão entrando. E, quando chegarem à cabine de votação, farão algo ainda mais revolucionário: votarão em quem quiserem. Inclusive, em uma mulher. Aí os coronéis eleitorais de meia pataca terão insônias mil. 

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