Em suas últimas semanas, ela tentou resolver problemas com seus ativos financeiros pedindo uma dispensa da reunião do BC sobre juros, o que foi negado por Powell. Alguns dias depois, pediu para sair
A ex-governadora do Federal Reserve Adriana Kugler, cuja renúncia abrupta permitiu que o presidente Donald Trump nomeasse um aliado para o banco central dos EUA, violou regras de ética do Fed e estava sendo alvo de uma investigação interna quando deixou o cargo em agosto, segundo documentos divulgados no sábado.
Em suas últimas semanas no Fed, Kugler tentou resolver um problema relacionado aos seus ativos financeiros, mas o presidente Jerome Powell negou seu pedido de uma dispensa necessária antes da reunião de política monetária do banco central, realizada em 29 e 30 de julho, de acordo com um funcionário do Fed. Ela não participou da reunião e anunciou sua renúncia dias depois.
O Escritório de Ética Governamental divulgou no sábado as últimas declarações financeiras de Kugler, que incluíam negociações anteriormente não divulgadas de várias ações individuais em 2024 — algumas das quais ocorreram durante o período de blackout do Fed —, violando as regras de ética da agência.
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Autoridades de ética do Fed encaminharam o caso ao inspetor-geral da agência no início deste ano, conforme mostrado no documento. Eles também se recusaram a certificar as declarações, que Kugler apresentou cerca de um mês após sua renúncia. Um porta-voz do IG disse neste sábado que a investigação está em andamento.
A renúncia de Kugler deu a Trump uma oportunidade, mais cedo do que o esperado, para preencher uma vaga no conselho do Fed, em meio à sua intensa campanha de pressão pedindo que os formuladores de política reduzissem drasticamente as taxas de juros.
A vaga acabou sendo preenchida pelo assessor de Trump, Stephen Miran, que tirou uma licença não remunerada de seu cargo como presidente do Conselho de Assessores Econômicos da Casa Branca e tem defendido repetidamente cortes rápidos nas taxas.Kugler, nomeada para o Fed em setembro de 2023 pelo presidente Joe Biden, recusou-se a comentar.
A ex-governadora do Fed anunciou em 1º de agosto que deixaria o cargo em 8 de agosto — quase seis meses antes do término de seu mandato — sem citar um motivo e após ter faltado à reunião de julho do banco central. Na época, o Fed afirmou que sua ausência se devia a “questões pessoais”.
Antes dessa reunião, Kugler solicitou permissão para realizar transações destinadas a resolver o que o funcionário do Fed descreveu como participações financeiras não permitidas. Não ficou claro imediatamente quais ativos estavam envolvidos nesse pedido.
Segundo o funcionário, Kugler solicitou uma dispensa das regras que exigem que altos dirigentes do Fed obtenham autorização antes de realizar determinadas transações financeiras e que proíbem negociações durante os chamados períodos de blackout, que abrangem as reuniões de política monetária. Powell negou o pedido.
Essa não foi a primeira vez que Kugler infringiu as regras de ética do Fed. Em declarações divulgadas no ano passado, ela reconheceu ter violado proibições de negociação quando seu marido executou diversas operações com ações.
Kugler afirmou na época que seu cônjuge realizou as compras sem seu conhecimento. As ações foram posteriormente vendidas, e Kugler foi considerada em conformidade com as leis e regulamentos aplicáveis, segundo as declarações.
Os documentos recém-divulgados mostraram negociações anteriormente não reportadas em 2024 com ações individuais — o que é proibido para dirigentes do Fed e seus familiares diretos — incluindo Materialise NV, Southwest Airlines, Cava Group, Apple Inc. e Caterpillar.Algumas das transações também foram realizadas durante períodos de blackout, quando operações são proibidas.
Isso incluiu a compra de ações da Cava em 13 de março de 2024, dias antes da reunião de 19 e 20 daquele mês, e a venda de ações da Southwest em 29 de abril de 2024, na véspera da reunião de 30 de abril e 1º de maio. A declaração também lista várias transações com fundos realizadas durante períodos de blackout.Uma nota de rodapé ligada à venda de ações da Materialise NV em 2 de janeiro de 2024 dizia:
“Em conformidade com sua declaração de 15 de setembro de 2024, determinadas atividades de negociação foram realizadas pelo cônjuge da Dra. Kugler, sem o conhecimento da Dra. Kugler, e ela afirma que seu cônjuge não tinha a intenção de violar quaisquer regras ou políticas.”
A divulgação cobriu os anos-calendário de 2024 e 2025 até sua renúncia. Altos funcionários do Fed são obrigados a apresentar declarações anualmente e após deixarem o banco central, além de relatar transações financeiras periódicas.
Um porta-voz do Escritório do Inspetor-Geral do Fed confirmou no sábado que recebeu um encaminhamento da seção de ética do conselho relacionado à declaração de Kugler.“Abrimos uma investigação e, conforme nossa prática, não podemos comentar mais até que nossa investigação seja encerrada”, disse a pessoa.
Powell introduziu restrições mais rigorosas sobre investimentos e negociações para os formuladores de política monetária e funcionários seniores do banco central em 2022. Isso ocorreu após revelações de atividades de negociação incomuns em 2020 por vários altos funcionários.
O presidente do Fed de Boston, Eric Rosengren, e o chefe do Fed de Dallas, Robert Kaplan, anunciaram suas aposentadorias antecipadas após as revelações, com Rosengren citando problemas de saúde. O órgão de fiscalização interna do Fed acabou inocentando ambos de infrações legais, mas os repreendeu por minar a confiança do público no banco central.
As novas regras — que, segundo o Fed na época, tinham como objetivo apoiar a confiança do público na imparcialidade e integridade dos formuladores de políticas — aumentaram as exigências de divulgação financeira, entre outras medidas.
A senadora Elizabeth Warren, democrata de Massachusetts, que há muito defende regras de ética mais rígidas no banco central, divulgou um comunicado no sábado pedindo legislação bipartidária “para tornar o Fed mais transparente e responsável”.
O mais recente escândalo “deixa claro que o Fed ainda não possui as proteções ou a cultura de responsabilidade que o povo americano espera”, disse o presidente do Comitê Bancário do Senado, Tim Scott, em um comunicado.
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“O próximo presidente do Fed deve restaurar a integridade, fortalecer a transparência e acabar com o padrão de pessoas de dentro da instituição agindo segundo suas próprias regras”, acrescentou.
Fonte: O Globo