Experiência do SUS inspira o NHS a adotar atuação territorial para ampliar prevenção e reduzir desigualdades
Os agentes comunitários de saúde (ACS), base da atenção primária no Brasil, estão servindo de referência para mudanças no sistema público de saúde da Inglaterra, o NHS (National Health Service). Criado em 1991 e integrado à Estratégia Saúde da Família em 2006, o modelo brasileiro passou a inspirar, a partir de 2023, iniciativas inglesas voltadas à redução das desigualdades no acesso à prevenção e ao cuidado básico.
A experiência ganhou força com pesquisas conduzidas por especialistas da Fiocruz e do Imperial College London. Um estudo publicado nesta terça-feira (3) na revista Nature Health aponta que famílias acompanhadas por agentes comunitários no Reino Unido registraram aumento de 40% no uso de serviços preventivos, com crescimento expressivo na vacinação e na realização de exames de rastreamento, além de queda nos atendimentos médicos não programados.
A adoção do modelo brasileiro chama atenção por inverter a lógica tradicional da cooperação internacional em saúde, ao levar um país de renda média a influenciar políticas públicas de uma nação rica. O movimento ocorre em meio à forte pressão sobre o NHS, que enfrenta envelhecimento da população, falta de profissionais, impactos da pandemia e dificuldades históricas na atenção primária, apesar de um orçamento anual bilionário.
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Segundo Alessandro Jabotá, pesquisador da Fiocruz e um dos autores do estudo, a principal diferença entre os sistemas está na forma de acesso ao cuidado. Enquanto o NHS atua de maneira mais reativa, atendendo pacientes quando o problema já se instalou, o modelo brasileiro é proativo, com equipes responsáveis por territórios definidos e acompanhamento contínuo das famílias. Essa lógica tem sido testada no Reino Unido por meio dos community health workers (CHWs), que realizam visitas domiciliares regulares em áreas vulneráveis.
Em 2025, o governo britânico incorporou oficialmente esses profissionais apelidados de “Chewies” ao Plano Decenal de Saúde, reconhecendo seu papel estratégico. Especialistas, no entanto, alertam que o sucesso da iniciativa dependerá de financiamento estável e integração definitiva desses agentes à estrutura da atenção primária. Para Jabotá, o intercâmbio também traz aprendizados ao Brasil, especialmente em sistemas de informação e organização de fluxos, reforçando que a cooperação entre os dois países é de mão dupla.
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