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Por Diágoras Spinoza - Meus avós diziam que o Amazonas é um gigante adormecido sobre riquezas incalculáveis, mas o fato é que gigante adormecido é quem não sabe o que tem. O Amazonas sabe muito bem. O problema é que acorda todos os dias para descobrir que continua pobre, lascado e lesado.
A mais recente distribuição da Compensação Financeira pela Exploração Mineral, a famosa CFEM, trouxe mais uma daquelas cenas que fariam corar um dramaturgo do absurdo. Dos R$ 477,4 milhões distribuídos no Brasil aos estados e municípios mineradores, o Amazonas recebeu R$ 1,7 milhão.
Sim, o leitor leu corretamente. Um milhão e setecentos mil reais. Exatos 0,357% do bolo nacional. Coisa ridícula. É como se alguém encontrasse um cofre cheio de diamantes embaixo da cama e recebesse uma gorjeta para comprar um café.
O governo estadual ficou com R$ 340 mil, e deu pulos de moleque feliz com pirulito e picolé. Os municípios dividiram cerca de R$ 1,36 milhão.
Sozinho, Presidente Figueiredo, do endiabrado prefeito Fernandão, levou R$ 1,24 milhão graças à mina de Pitinga, operada pela Taboca. O restante virou uma espécie de rateio franciscano: Manaus recebeu R$ 41 mil; Barcelos, R$ 61 mil; Tabatinga, R$ 49. Uma distribuição tão modesta que parece prêmio de bingo beneficente.
O detalhe curioso é que quase toda a arrecadação mineral formal do Amazonas depende praticamente de uma única operação legalizada. Uma única. Estamos falando de um estado que ocupa mais de 1,5 milhão de quilômetros quadrados, maior que muitos países do planeta.
A ironia se torna tragicômica quando se observa o que acontece fora das planilhas oficiais.
Enquanto a mineração legal produz royalties de migalhas, a mineração ilegal produz fortunas.
Em setembro de 2025, a Polícia Federal deflagrou a Operação Ouro Negro contra um esquema de extração e comercialização clandestina de cassiterita na Terra Yanomami. A Justiça bloqueou mais de R$ 265 milhões em bens e valores dos investigados.
Tudo começou após a apreensão de apenas duas toneladas de cassiterita que circulavam com documentos suspeitos e licenças destinadas a “esquentar” minério ilegal.
Façamos uma pausa para apreciar a matemática amazônica. O estado inteiro recebeu R$ 1,7 milhão de royalties minerais. O esquema investigado movimentava patrimônio superior a R$ 265 milhões.
Eu explico: o crime organizado mineral aparece, nesta fotografia, com uma musculatura financeira mais de 150 vezes superior ao valor que retornou oficialmente aos cofres amazonenses.
Talvez seja por isso que a floresta tenha se transformado numa espécie de banco sem agência, sem fiscalização eficiente e sem gerente. Os depósitos entram de helicóptero, saem de avião e desaparecem em contas que jamais conhecerão uma árvore.
O mais impressionante é que ninguém pode alegar desconhecimento sobre o potencial mineral da região. O Amazonas abriga algumas das maiores reservas de cassiterita do mundo, além de ocorrências de ouro, nióbio, tântalo, terras raras e outros minerais estratégicos para a economia tecnológica do século XXI.
O subsolo guarda riqueza suficiente para despertar o interesse de governos, corporações multinacionais, aventureiros, quadrilhas e oportunistas de toda espécie.
Mas o que retorna para a população? Um chute na bunda, além de estradas precárias, municípios dependentes de transferências federais, comunidades indígenas sitiadas por invasores, rios contaminados e royalties que parecem troco de estacionamento.
O resultado é uma inversão perversa da lógica econômica. Em qualquer lugar minimamente racional, a riqueza natural financia desenvolvimento, infraestrutura, educação e saúde.
No Amazonas, ela parece financiar aeronaves clandestinas, atravessadores, falsificadores de licenças ambientais e operadores financeiros especializados em transformar floresta em dinheiro invisível.
A Terra Yanomami tornou-se símbolo desse paradoxo nacional. Sobre um território imenso, onde a Constituição prometeu proteção, prospera uma economia paralela capaz de movimentar centenas de milhões de reais, enquanto as populações locais convivem com os impactos ambientais, sanitários e sociais da invasão garimpeira.
É como se o Estado brasileiro tivesse criado uma curiosa modalidade de capitalismo amazônico: socializam-se os danos e privatizam-se os lucros. O ouro sai. A cassiterita sai. O estanho sai. Os dólares entram. Mas quase nada fica.
E a putaria sem fim segue seu curso no Amazonas, uma província mineral que arrecada como mendigo sobre um tesouro. Uma terra onde a riqueza subterrânea alimenta manchetes bilionárias e cofres públicos anêmicos. Uma terra em que a legalidade distribui migalhas enquanto a ilegalidade distribui fortunas.
É essa a definição correta de “terra de ninguém”. Ou “terra da Mãe Joana”.