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Amazonas entre a bonança e a bancarrota: a barca vai, mas o casco range. Cuidado!
Foto: Reprodução / PORTAL DO ZACARIAS

 

 

Por Diágoras Spinoza - Descobri recentemente que o Amazonas está rico. Pelo menos é o que dizem os números, e os números, como se sabe, não mentem. Só omitem.

 

A arrecadação estadual fechou 2025 em R$ 46,9 bilhões, com crescimento de 9,5%, segundo a SEFAZ. A receita tributária ultrapassou R$ 20 bilhões, puxada pelo honrado e incansável ICMS, um contribuinte silencioso que nunca tirou férias. No primeiro trimestre de 2026, entraram R$ 9,1 bilhões em receitas contra R$ 7,2 bilhões em despesas. Sobrou dinheiro. Parabéns a todos. Que venham os discursos. E vieram.

 

O que ninguém conta, com o mesmo entusiasmo da coletiva de imprensa, é que parte desse resultado vem de receitas não recorrentes: recuperação de dívida ativa, picos pontuais de arrecadação, aquele dinheiro que aparece uma vez e some como primo distante que só visita quando precisa de favor. Não é o tipo de renda que o contador recomenda para quem quer financiar apartamento. Mas é o tipo que político gosta de exibir em ano eleitoral como se fosse herança garantida.

 

MULTIPLICAÇÃO CÍNICA

 

Porque outubro está chegando. E outubro, no Amazonas, tem o dom sobrenatural de fazer brotar obras em esquinas que passaram décadas sem calçada, programas sociais com nomes em inglês e reajustes que a matemática não sabia que existiam. É o milagre da multiplicação dos recursos, fenômeno que a ciência econômica ainda não conseguiu explicar, mas que qualquer cabo eleitoral domina com cínica naturalidade.

 

O governador Robertinho Cidade sabe de tudo isso. Ninguém chega ao Palácio da Compensa sem entender que promessa de contenção de despesas não elege nem síndico de prédio. O problema é que a matemática, diferente do eleitorado, não se impressiona com palanque. Ela simplesmente apresenta a conta. Com juros.

 

E a conta que o Amazonas vai ter de pagar um dia tem endereço certo: a concentração econômica absurda que faz do Polo Industrial de Manaus o único coração funcionando num organismo que precisaria de pelo menos três. Câmbio oscila, consumo recua, política industrial muda em Brasília e o Amazonas espirra antes de qualquer um perceber que o resfriado já começou. Estados com economia diversificada aguentam o tranco. O nosso vai buscar lenço.

 

COISAS DE ENCHER O SACO

 

Já ouvi falar em bioeconomia em vários seminários diferentes, com coffee break e tudo. Coisas de encher o saco. Ouvi sobre turismo sustentável em quantidades que já ultrapassaram a capacidade de qualquer floresta absorver CO2. Ouvi sobre serviços digitais, sobre inovação, sobre o futuro promissor que está sempre chegando e nunca chega de vez. O que ainda não vi foi isso virar política pública com orçamento, continuidade e, principalmente, coragem de seguir em frente quando o assunto sai das manchetes.

 

O que costuma ter orçamento, continuidade e velocidade de implementação é o aumento de despesas permanentes. Folha salarial, especialmente. Aquele tipo de gasto que em ano eleitoral parece gesto de justiça social e no ano seguinte aparece no relatório do Tesouro Nacional com uma setinha vermelha apontando para cima, acompanhada de nota técnica que ninguém lê em público.

 

Sugiro que o novo governo do Robertinho resista à tentação de tratar receita extraordinária como salário fixo. É o equivalente fiscal de ganhar na loteria e assinar contrato de aluguel compatível com o prêmio. Funciona no primeiro mês. Os meses seguintes costumam ser mais pedagógicos.

 

MAR REVOLTO

 

Sugiro também investir em algo que não rende foto, não rende manchete e raramente rende voto: eficiência arrecadatória. Combater sonegação, modernizar fiscalização, usar tecnologia para ampliar a base sem precisar apertar o contribuinte honesto que já paga em dia e ainda torce para o time do coração perder. É trabalho de formiguinha. Mas formiguinha que trabalha direito não passa fome no inverno, como ensinaria qualquer fábula que nossos gestores provavelmente estudaram e decidiram não aplicar.

 

O Amazonas de 2026 é uma embarcação em mar relativamente calmo, com vento razoável a favor e um capitão ainda aferindo os instrumentos. Dá para navegar bem. Dá para chegar a outubro com as contas equilibradas, a tripulação satisfeita e o casco inteiro. Mas para isso é preciso lembrar que calmaria não é garantia de travessia, e que o mar amazônico tem o hábito inconveniente de mudar de humor sem avisar a assessoria de imprensa.

 

A barca do governador Robertinho está navegando. E eu só peço que alguém confira se tem alguém olhando para o casco. Porque quando começar a fazer água, todo mundo vai estar olhando para o horizonte e jurando que não viu nada.

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