Mudanças climáticas e falhas no saneamento ampliam a presença de protozoários capazes de causar infecções graves no cérebro
Pesquisadores das áreas ambiental e de saúde pública emitiram um alerta sobre a expansão das chamadas amebas de vida livre protozoários que conseguem sobreviver sem depender de hospedeiros humanos ou animais. Embora muitas espécies sejam inofensivas, algumas têm potencial para causar infecções severas, especialmente no sistema nervoso central.
Esses organismos sempre estiveram presentes na natureza, principalmente no solo e na água. O que preocupa os cientistas é o aumento de sua circulação em ambientes antes considerados seguros. Segundo especialistas, fatores como as mudanças climáticas, o aquecimento de corpos d’água, a degradação dos sistemas de abastecimento e a falta de investimentos em monitoramento estão aproximando essas amebas da população e elevando o risco de infecção.
O alerta ganhou força com um estudo liderado pelo pesquisador Longfei Shu, da Universidade Sun Yat-sen, na China, publicado em dezembro na revista científica Biocontaminant. O trabalho destaca como transformações ambientais estão favorecendo a disseminação desses microrganismos em escala global.
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A AMEBA QUE ATINGE O CÉREBRO
Entre as espécies que mais preocupam os cientistas está a Naegleria fowleri, popularmente conhecida como “ameba comedora de cérebros”. Trata-se de um organismo raro, mas extremamente agressivo, capaz de causar uma infecção cerebral geralmente fatal.
Essa ameba vive em ambientes de água doce, como lagos, rios e fontes termais, especialmente em regiões de clima quente. A infecção ocorre quando a água contaminada entra pelo nariz, normalmente durante atividades como natação ou mergulho. A partir daí, o microrganismo migra pelo nervo olfatório até o cérebro, provocando inflamação intensa e destruição do tecido cerebral.
Os sintomas iniciais incluem febre alta, dor de cabeça intensa, náuseas, vômitos e rigidez no pescoço. Com a progressão da doença, podem surgir convulsões e alterações do estado mental. Como forma de prevenção, especialistas recomendam evitar mergulhar a cabeça em águas doces quentes e, sempre que possível, proteger o nariz ao nadar.
No Brasil, a presença da Naegleria fowleri é considerada rara, com registros confirmados apenas duas vezes: em 1975, no estado de São Paulo, eem 2024, no Ceará.
ORGANISMOS DIFÍCEIS DE COMBATER
De acordo com Longfei Shu, um dos maiores desafios no controle dessas amebas é sua extraordinária resistência. “Esses organismos conseguem sobreviver a condições extremas que eliminariam muitos outros micróbios. Elas toleram altas temperaturas, resistem a desinfetantes como o cloro e podem viver dentro de sistemas de distribuição de água considerados seguros”, explica o pesquisador.
Além de infectar diretamente o ser humano, algumas amebas funcionam como verdadeiros abrigos para bactérias e vírus. Ao se alojarem dentro delas, esses patógenos ficam protegidos contra antibióticos e outros agentes de controle, o que facilita sua disseminação. Esse mecanismo é conhecido como efeito “cavalo de Troia”.
SOLUÇÕES EXIGEM AÇÃO INTEGRADA
Para enfrentar o problema, os cientistas defendem uma estratégia combinada que envolva políticas de saúde pública, pesquisa ambiental e uma gestão mais rigorosa dos recursos hídricos.
“As amebas não representam apenas uma ameaça médica ou ambiental isolada. Elas estão na interseção desses dois campos, e combatê-las exige soluções integradas que atuem desde a origem do problema”, conclui Shu.
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