Presidente da Casa tenta reduzir tensões em 2026 depois de desgaste com governo, oposição, STF e imprensa ao longo do ano passado
A Câmara dos Deputados retoma oficialmente suas atividades legislativas nesta segunda-feira (2/2), com a primeira sessão de 2026 sob a presidência de Hugo Motta (Republicanos-PB). Após um 2025 marcado por conflitos internos, promessas cruzadas e desgaste político, o deputado sinalizou a líderes partidários que pretende adotar uma agenda mais moderada ao menos até o Carnaval.
Na semana passada, Motta reuniu os chefes das bancadas e indicou que colocará em votação a medida provisória do Executivo que institui o programa Gás do Povo, considerada prioritária pelo governo do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT). A MP está próxima de perder a validade, o que aumenta a pressão por sua apreciação.
O presidente da Câmara também tem atuado para evitar novos focos de tensão. Caso avance no Congresso uma Comissão Parlamentar de Inquérito (CPI) para investigar o Banco Master, a expectativa é de que a iniciativa não parta da Casa Baixa, em uma tentativa de conter desgastes adicionais.
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Eleito em 1º de fevereiro do ano passado com apoio expressivo 444 votos entre os 513 deputados, Motta enfrentou dificuldades para administrar um plenário profundamente polarizado. Nos bastidores da eleição, enquanto articulava sua candidatura com o então presidente Arthur Lira (PP-AL), fez acenos contraditórios: à oposição, prometeu levar adiante o projeto de anistia; aos governistas, garantiu que a proposta seria engavetada.
UM ANO DE DESGASTE POLÍTICO
O saldo de 2025 foi de fragilização da liderança de Motta. O projeto da anistia acabou sendo aprovado em 10 de dezembro, impulsionado pelo Centrão e relatado por Paulinho da Força (Solidariedade-SP). O texto frustrou a esquerda e desagradou parte da direita bolsonarista, que defendia perdão integral. Ainda assim, a proposta pode reduzir de forma significativa a pena imposta pelo Supremo Tribunal Federal (STF) a condenados pelos atos golpistas.
O presidente Lula anunciou veto ao projeto e, em gesto simbólico, assinou o ato no dia 8 de janeiro, data que marcou o terceiro aniversário dos ataques às sedes dos Três Poderes.
A condução do tema ampliou o desgaste de Motta nas redes sociais, que já vinham refletindo críticas por embates frequentes com o governo, a oposição e o Judiciário.
CASSAÇÕES E CONFLITOS INSTITUCIONAIS
Outro ponto sensível da gestão foram os processos de cassação envolvendo parlamentares de grande repercussão. A Mesa Diretora decretou, por via administrativa, a perda do mandato de Chiquinho Brazão (sem partido-RJ), preso sob acusação de ser mandante do assassinato da vereadora Marielle Franco. O caso não chegou a ser analisado em plenário.
Já Carla Zambelli (PL-SP), condenada pelo STF a 10 anos de prisão por invadir sistemas do CNJ, teve sua cassação inicialmente rejeitada pela Câmara, mas a decisão foi anulada pelo ministro Alexandre de Moraes após o trânsito em julgado. A deputada renunciou e segue presa na Itália, aguardando extradição.
Eduardo Bolsonaro (PL-SP) perdeu o mandato após acumular faltas não justificadas depois de se estabelecer nos Estados Unidos. Alexandre Ramagem (PL-RJ), condenado pelo STF por envolvimento na tentativa de golpe de 2022, teve o mandato cassado após deixar o país de forma clandestina.
No caso de Glauber Braga (PSol-RJ), acusado de quebra de decoro após agredir um militante do MBL, o plenário rejeitou a cassação e optou por uma punição alternativa: suspensão do mandato por seis meses. A decisão contrariou Arthur Lira, que defendia a perda do cargo.
OCUPAÇÕES E CRISE COM A IMPRENSA
Motta também foi criticado pela condução de duas ocupações da Mesa Diretora: uma organizada pela oposição, em agosto, em defesa da anistia, e outra liderada por Glauber, em reação ao avanço do processo contra ele. A paralisação de agosto durou mais de 30 horas e incluiu exigências como a votação da anistia, o fim do foro privilegiado e o impeachment do ministro Alexandre de Moraes.
Apesar de inicialmente ameaçar suspensões, Motta recuou e enviou os casos à Corregedoria, onde permanecem sem desfecho. Já a ocupação de Glauber terminou com intervenção da Polícia Legislativa, interrupção das transmissões oficiais e denúncias de agressões a jornalistas, o que aprofundou o desgaste da presidência da Casa.
PAUTAS TRAVADAS E DESAFIOS DE 2026
Entre as prioridades anunciadas e não concluídas em 2025 está a reforma administrativa. Ao longo do ano, Motta passou de um discurso otimista para o reconhecimento de que o tema enfrenta resistência e tende a avançar lentamente, especialmente em ambiente eleitoral.
Também ficaram para 2026 a PEC da Segurança Pública e o Projeto de Lei Antifacção. Ambas as propostas encontraram forte oposição de parlamentares, governadores e bancadas estaduais, que apontam invasão de competências, centralização excessiva no governo federal e falta de diálogo prévio.
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Críticas sobre custos, eficácia das medidas e o caráter mais simbólico do que prático dos textos ajudaram a frear o avanço das matérias, em um cenário ainda marcado por polarização política e disputas de narrativa.