Com receitas em queda, endividamento elevado e mudanças no controle acionário, varejista busca fôlego para evitar um cenário mais crítico.
O Grupo Pão de Açúcar (GPA), uma das redes mais tradicionais do varejo brasileiro, atravessa um dos momentos mais delicados de sua história. Entre 2012 — quando passou ao controle do grupo francês Casino e 2023, último ano dos franceses como controladores, a companhia registrou uma retração de 64% na receita bruta, segundo dados divulgados ao mercado.
Analistas atribuem a crise a uma combinação de fatores: expansão acelerada no passado, decisões estratégicas controversas, disputas societárias, desinvestimentos, juros elevados e mudanças profundas no comportamento do consumidor.
Em maio do ano passado, a família Coelho Diniz, tradicional no varejo mineiro, tornou-se a principal acionista do grupo, com 24,6% de participação, após o Casino reduzir sua presença. Atualmente, os franceses buscam um comprador para a fatia restante de 22,5%.
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ALERTA SOBRE CONTINUIDADE OPERACIONAL
O GPA chamou atenção do mercado ao afirmar, em notas explicativas do balanço, que há “incerteza relevante” quanto à sua continuidade operacional. A auditoria da Deloitte também destacou riscos nas demonstrações financeiras.
A companhia acumula R$ 4 bilhões em endividamento total, sendo R$ 1,7 bilhão com vencimento previsto para 2026. O capital de giro líquido está negativo em R$ 1,2 bilhão. Além disso, existem aproximadamente R$ 16 bilhões em disputas tributárias classificadas como “perdas possíveis”, ainda não provisionadas.
DE GIGANTE DIVERSIFICADO A OPERAÇÃO ENXUTA
Em 2012, o GPA era um conglomerado com receita bruta de R$ 57 bilhões, 1.882 lojas e 151 mil funcionários. Além das bandeiras Pão de Açúcar e Extra, o grupo atuava no atacarejo, no varejo de eletrodomésticos (com participação em Casas Bahia e Ponto Frio), comércio eletrônico, drogarias e postos de combustíveis.
Ao longo dos anos, ativos foram vendidos e a estrutura encolheu. Em 2023, a receita bruta caiu para R$ 20,6 bilhões. Hoje, a empresa atua exclusivamente no varejo alimentar, com 728 lojas e cerca de 37 mil colaboradores. O Ebitda foi de R$ 1,7 bilhão, mas o prejuízo líquido alcançou R$ 824 milhões.
Especialistas apontam que parte dos recursos obtidos com vendas de ativos foi direcionada a operações do Casino no exterior, como a rede colombiana Grupo Éxito, posteriormente vendida.
AMBIENTE MAIS COMPETITIVO
O cenário macroeconômico também pesou. A taxa Selic em 15% encarece o custo da dívida das varejistas, enquanto o consumidor passou a alternar mais entre formatos como atacarejo, farmácias, lojas de bairro e e-commerce.
Redes regionais ganharam protagonismo. Em 2024, o Supermercados BH superou o GPA e se tornou a quarta maior rede do país, atrás de Carrefour, Assaí e Grupo Mateus.
NOVO COMANDO E BUSCA POR SOLUÇÕES
O atual CEO, Alexandre Santoro, que assumiu o cargo em janeiro, reconheceu a gravidade do momento e defendeu uma transformação estrutural e cultural na empresa. O grupo anunciou cortes de custos, redução de investimentos para até R$ 350 milhões em 2026 e simplificação administrativa, que já resultou na demissão de 700 funcionários.
Apesar das dificuldades, analistas destacam que o GPA mantém ativos relevantes: marca forte, presença em pontos estratégicos de 11 capitais e no Distrito Federal, programa de fidelidade Cliente Mais, marca própria consolidada (Qualitá) e operação digital lucrativa.
Para especialistas do mercado, ainda é cedo para falar em recuperação judicial, mas a companhia deverá buscar capital novo e possivelmente renegociar dívidas, inclusive com eventual conversão em participação acionária.
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O desafio agora é reconstruir a geração de caixa e recuperar a confiança do mercado após mais de uma década de retração.