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Ataque em Nova Orleans e explosão de Tesla expõem radicalização dentro de Exército dos EUA
Foto: Reprodução

Mesmo sem uma ligação definitiva entre os atentados, característica em comum entre os suspeitos reflete dificuldade do governo americano em erradicar extremismo entre militares

Embora as investigações primárias não tenham encontrado "nenhuma ligação definitiva" entre os atentados que ocorreram no dia de Ano Novo em Nova Orleans e em Las Vegas, nos Estados Unidos, os dois suspeitos têm algo em comum: ambos eram membros — reformados ou em serviço — das Forças Armadas americanas. A característica em comum reacende os temores do extremismo entre militares americanos, algo que o governo tem tido dificuldade para erradicar nos últimos anos.

 

O primeiro é o veterano do Exército Shamsud-Din Jabbar, um cidadão americano do Texas, de 42 anos, suspeito de avançar contra uma multidão com um caminhão nas celebrações em Nova Orleans, matando 14 pessoas e depois morto em uma troca de tiros com a polícia. Já o suspeito pela explosão de um Tesla Cybertruck do lado de fora do hotel internacional Trump em Las Vegas, Matthew Livelsberger, era um militar da ativa do Exército que estava de licença. Ele atirou na própria cabeça pouco antes da explosão, que feriu sete pessoas.

 

Os dois casos, mesmo que não interligados diretamente, não são inéditos no país. Segundo o The Violence Project, organização de pesquisa sem fins lucrativos dedicada ao estudo e à prevenção da violência nos EUA, há ao menos 55 casos de atiradores em massa com antecedentes militares confirmados em seu banco de dados, que vai de 1996 a 2024.

 

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Já o Consórcio Nacional para o Estudo do Terrorismo e Respostas ao Terrorismo (Start, na sigla em inglês), da Universidade de Maryland, identificou 721 indivíduos com antecedentes militares dos EUA envolvidos em crimes com motivações diversas entre 1990 e 2024.

 

HISTÓRICO DOS SUSPEITOS


Jabbar passou oito anos no Exército dos EUA, entre 2007 e 2015, onde trabalhou como especialista em recursos humanos e tecnologias da informação. Em 2009, foi para o Afeganistão, onde atuou em funções administrativas por um ano. O suspeito ainda serviu por um mês na Marinha, em 2004, mas não chegou a passar por um treinamento formal.

 

Dentro do carro usado no ataque, agentes encontraram ao menos duas bombas caseiras e uma bandeira do grupo terrorista Estado Islâmico (EI), uma organização que se notabilizou por incentivar que indivíduos radicalizados usassem veículos em atentados. Por isso, investigadores acreditam que ele tenha agido sozinho, um "lobo solitário", embora não descartem um possível apoio de outros indivíduos.

 

Polícia isola área de ataque em massa na Bourbon Street, em Nova Orleans — Foto: Matthew Hinton/AFP

Polícia isola área de ataque em massa na Bourbon Street,

em Nova Orleans (Foto: Matthew Hinton/AFP)
 


Livelsberger, por sua vez, serviu na ativa das Forças Especiais de janeiro de 2006 a março de 2011, depois na Guarda Nacional de março de 2011 a julho de 2012 e na reserva do Exército de julho de 2012 a dezembro de 2012. Ele retornou ao serviço ativo em dezembro de 2012, servindo nas Operações Especiais do Exército dos EUA, tornando-se um soldado de elite nos Boinas Verdes.

 

O veículo que explodiu carregava o que foi apontado como um sistema de detonação caseiro, que utilizava fogos de artifício, galões de gasolina e combustível de acampamento. Segundo os investigadores, a intenção era ferir o maior número de pessoas possível.

 

MEDIDAS FALHAS


Segundo o Start, mais de 480 pessoas com histórico militar nos EUA foram acusadas de crimes extremistas ideologicamente motivados entre 2017 e 2023 — incluindo os mais de 230 presos em conexão com a insurreição de 6 de janeiro de 2021, no Capitólio, sede do Legislativo, quando apoiadores de Donald Trump tentaram impedir a certificação da vitória de Joe Biden nas eleições presidenciais de 2020.

 

Além do Capitólio, há uma série de outros episódios em que membros das Forças Armadas do país se envolveram em atos de terrorismo doméstico nos últimos anos. Para citar alguns, em 2023, um ataque a tiros em massa em Lewiston, Maine, deixou 18 mortos; o autor foi Robert Card, reservista do Exército dos EUA. Outro caso semelhante ocorreu em 2009, na antiga base militar de Fort Hood, no Texas, resultando na morte de 13 pessoas. O responsável pelo ataque a tiros foi Nidal Hasan, um major do Exército e psiquiatra que se radicalizou.

 

Casos como esses levaram o governo americano a tentar implementar uma série de medidas para erradicar o extremismo entre seus militares. Pouco depois do caso do Capitólio, o secretário de Defesa da administração Biden, Lloyd Austin, anunciou medidas para combater o extremismo no Exército dos EUA em 2021, incluindo um grupo de trabalho, o Countering Extremism Working Group, e um relatório independente. Mas os esforços não foram adiante, com os republicanos do Congresso encerrando o grupo em 2023, citando oposição ao que chamaram de "guerra contra o woke" e "caça às bruxas".

 

Já o relatório encomendado pelo Pentágono, que foi publicado no final de 2023, com mais de um ano e meio de atraso, tentou minimizar a situação, afirmando que não há "nenhuma evidência de que o número de extremistas violentos nas Forças Armadas seja desproporcional ao número de extremistas violentos nos EUA como um todo", embora tenha indicado um "possível aumento" entre ex-militares.

 

O documento foi amplamente criticado pelo uso de dados "grosseiramente" desatualizados, conforme apontado por uma investigação da agência americana Associated Press (AP), em novembro passado. A reportagem, que cita dados da Start, também aponta que, desde 2017, militares e veteranos dos EUA têm se radicalizado mais rapidamente que civis e que, apesar de representarem menos de 1% da população, militares ativos responderam por 3,2% dos casos extremistas registrados até 2022.

 

Segundo a diretora de estratégia e cofundadora do Global Project Against Hate and Extremism, Heidi Beirich, citada pelo jornal britânico The Guardian, o governo Biden teve esforços promissores para combater o extremismo entre militares, com medidas como um banco de dados de tatuagens, regras contra interações com grupos extremistas on-line e melhorias no processo de liberação de segurança. No entanto, cita, a falta de fiscalização eficaz e de dados confiáveis também comprometeu esse progresso.

 

Além disso, o problema se tornou um assunto politizado entre democratas e republicanos, e a nomeação de Pete Hegseth como secretário de Defesa por Trump, que chamou tais esforços de "woke", pode ser um indicativo de que o cenário não vai melhorar.

 

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— É deprimente que esse problema pareça não ser levado a sério, e provavelmente teremos mais incidentes de terrorismo de veteranos ou de serviço ativo. O povo americano estará mais em risco — disse Beirich ao Guardian. 

 

Fonte: O Globo

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