Relatório interno indica perdas superiores a R$ 220 milhões, mudanças em regras de aplicação e possíveis falhas na condução dos recursos da companhia.
Uma auditoria interna realizada pela Companhia Estadual de Águas e Esgotos do Rio de Janeiro (Cedae) identificou um prejuízo estimado em mais de R$ 220 milhões relacionado a aplicações financeiras realizadas no Banco Master. O relatório também apontou semelhanças entre a estratégia adotada pela estatal e a utilizada pelo Rioprevidência, fundo previdenciário do estado, que também direcionou recursos para a instituição financeira.
De acordo com os documentos analisados, o governo do Rio de Janeiro investiu aproximadamente R$ 4 bilhões no Banco Master. Desse total, cerca de R$ 3,7 bilhões foram aplicados pelo Rioprevidência e R$ 237 milhões pela Cedae.
A investigação revelou que, no início das negociações para um aporte de R$ 200 milhões, em 2023, o Banco Master não atendia aos critérios exigidos pela política de investimentos vigente da companhia. Segundo os auditores, a instituição possuía classificação de risco abaixo do mínimo estabelecido e era avaliada por apenas uma agência de rating, contrariando as normas internas.
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Meses depois, entretanto, as regras da política de investimentos foram alteradas, permitindo aplicações em instituições com perfil semelhante ao do banco. A auditoria concluiu que a mudança acabou viabilizando o investimento que anteriormente seria considerado inadequado.
O relatório foi elaborado pela atual gestão da Cedae após a perda dos recursos e encaminhado à diretoria da empresa, com recomendação de envio aos órgãos de controle para análise das possíveis responsabilidades.
Entre as conclusões, os auditores apontam indícios de negligência, falhas de gestão, possível fraude e risco ao patrimônio da estatal. O ex-diretor administrativo-financeiro da companhia, Antonio Carlos dos Santos, aparece entre os principais nomes citados no documento.
A investigação também reconstruiu a cronologia das negociações e concluiu que o Banco Master era considerado inelegível pelas regras em vigor quando as tratativas começaram. Em março de 2023, a Cedae aprovou uma política que exigia classificação mínima equivalente a “A-” e avaliações de pelo menos duas agências independentes. Contudo, documentos recebidos em julho daquele ano indicavam que o banco possuía nota “BBB-”, considerada inferior ao exigido.
Outro ponto destacado foi a existência de reuniões entre representantes do Banco Master e integrantes da diretoria financeira antes das datas oficialmente informadas à Comissão de Valores Mobiliários (CVM). Registros apontam encontros realizados em maio de 2023, além de uma viagem de representantes da Cedae a São Paulo para reuniões com executivos da instituição financeira.
Segundo a auditoria, as negociações ficaram concentradas em um grupo restrito da diretoria financeira, sem ampla participação de outros setores da companhia. Os primeiros alertas sobre riscos financeiros e reputacionais surgiram apenas quando outras áreas passaram a ter conhecimento da operação.
Na segunda fase da apuração, os auditores analisaram a gestão do investimento após a aplicação dos recursos. O documento afirma que, ao longo de 2025, diferentes departamentos da Cedae alertaram para a deterioração da situação financeira do Banco Master e recomendaram medidas para reduzir a exposição da estatal. Mesmo assim, a reação da diretoria financeira teria ocorrido de forma tardia.
Quando a companhia tentou recuperar integralmente os recursos investidos, em setembro de 2025, o banco já enfrentava dificuldades de liquidez. Em novembro, uma parcela prevista para devolução dos valores não foi paga e, no dia seguinte, o Banco Central decretou a liquidação extrajudicial da instituição.
A auditoria também registrou que a primeira reunião identificada entre representantes do Banco Master e a diretoria financeira da Cedae ocorreu poucos dias após um jantar realizado em Nova York entre o banqueiro Daniel Vorcaro e o então governador do Rio de Janeiro, Cláudio Castro. Apesar da coincidência temporal, os auditores ressaltaram que não encontraram elementos que comprovem relação entre o encontro e os investimentos realizados pela estatal.
Em resposta, Antonio Carlos dos Santos negou qualquer irregularidade e afirmou que todas as decisões relacionadas à política de investimentos foram acompanhadas pelo Conselho de Administração da empresa, que recebia relatórios periódicos sobre as aplicações.
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A atual gestão da Cedae informou que promoveu mudanças na política de investimentos, substituiu responsáveis pelos aportes e retirou indicações políticas de áreas estratégicas. A companhia também declarou que adotará medidas para identificar responsabilidades, calcular o prejuízo definitivo e buscar o ressarcimento dos recursos públicos.