Reposição só é indicada quando há perda persistente de libido na pós-menopausa. Médicos alertam para efeitos adversos e desinformação
A pressão estética, a promessa de vitalidade e a enxurrada de conteúdo sobre hormônios nas redes sociais têm levado mais mulheres a buscar terapia de reposição de testosterona. Não há dados atualizados sobre o aumento dessa procura — até porque não existem formulações aprovadas para uso feminino —, mas a tendência preocupa entidades médicas.
Em maio de 2025, a Sociedade Brasileira de Endocrinologia e Metabologia (SBEM), a Federação Brasileira das Associações de Ginecologia e Obstetrícia (Febrasgo) e o Departamento de Cardiologia da Mulher da Sociedade Brasileira de Cardiologia emitiram um alerta conjunto: a única indicação reconhecida para o uso terapêutico da testosterona em mulheres é o tratamento do transtorno do desejo sexual hipoativo (TDSH) na pós-menopausa.
Apesar da fama de “hormônio masculino”, a testosterona também circula no corpo feminino. Produzida pelos ovários em níveis muito mais baixos, ela ajuda a manter massa muscular, força, energia, saúde óssea e libido. A partir dos 30 anos, esses níveis caem de forma gradual e a queda costuma se acentuar na menopausa, com possíveis reflexos na disposição, no humor e no desejo sexual.
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“Em uma sociedade que valoriza juventude, vitalidade e um padrão estético rígido, sinais normais do envelhecimento feminino acabam medicalizados e pouco explorados no campo emocional”, afirma o ginecologista José Maria Soares Junior, presidente da Comissão de Ginecologia Endócrina da Febrasgo. Acontece que a testosterona tem limitações claras e é preciso falar, com transparência, sobre seus efeitos reais e seus riscos.
A reposição para mulheres com TDSH vem sendo estudada há décadas. Uma revisão sistemática publicada em 2019 no The Lancet Diabetes & Endocrinology analisou 46 ensaios clínicos envolvendo mais de 8 mil mulheres e mostrou que doses fisiológicas do hormônio podem melhorar desejo, excitação, prazer e satisfação sexual sem aumento significativo de efeitos adversos graves no curto prazo.

Essas evidências embasam o Consenso Global sobre Terapia de Testosterona em Mulheres, referência internacional desde 2019. O documento afirma que a testosterona só tem indicação comprovada para TDSH em mulheres na pós-menopausa, após exclusão de outras causas para a perda de desejo. Também reforça que a reposição deve ser feita com formulações que permitam controle rigoroso de dose e acompanhamento contínuo.
Fora desse contexto, o consenso não encontra respaldo científico para o uso da testosterona com fins estéticos, cognitivos, de ganho de massa muscular, melhora de humor ou prevenção do envelhecimento.
“Existem indicações e contraindicações para a terapia hormonal clássica (estroprogestativa), então é muito importante a gente acompanhar a paciente, porque podemos perder a janela de oportunidade de até 10 anos da menopausa ou 60 anos para iniciar a terapia hormonal”, explica a ginecologista Helena Hachul De Campos, do Einstein Hospital Israelita. “Mas é preciso ser consciente para indicar adequadamente após ver benefícios, riscos, avaliar anamnese, exame complementar e antecedentes”.Em outras áreas, os estudos ainda são exploratórios. Uma análise baseada na NHANES (pesquisa nacional de saúde e nutrição dos EUA), publicada na Nature em 2022, encontrou associação entre níveis mais altos de testosterona e maior densidade mineral óssea em mulheres de 40 a 60 anos, mas o desenho observacional impede conclusões causais. Outro estudo, publicado em 2025 no JAMA, avaliou a combinação de fisioterapia e testosterona em mulheres idosas após fratura de quadril e observou melhora modesta na força e na recuperação funcional. Os dados, porém, são preliminares e não sustentam mudança de prática clínica.

Fotos: Reprodução
Na área cognitiva, um estudo da Clinical Endocrinology publicado também em 2025 analisou a relação entre hormônios sexuais e risco de demência em mulheres na pós-menopausa e em homens. O trabalho apontou associação entre níveis de testosterona e proteção cognitiva no sexo feminino, mas sem determinar causalidade entre os dois fatores.
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O aumento de informações e, sobretudo, de desinformações sobre hormônios nas redes sociais tem mudado a relação médico-paciente. “Agora, é comum que as mulheres cheguem ao consultório não mais com queixas abertas para investigação, mas com demandas específicas e um autodiagnóstico baseado em conteúdos que prometem a testosterona como solução mágica para cansaço, envelhecimento e baixa libido”, afirma Soares Junior.
Fonte: Metrópoles