Em cerca de três décadas, a população de baleias-jubarte passou de aproximadamente 1,5 mil para mais de 35 mil indivíduos, resultado de esforços de conservação e pesquisas científicas lideradas pelo Instituto Baleia Jubarte.
A população de baleias-jubarte que migra para o litoral brasileiro apresentou uma recuperação expressiva nas últimas três décadas. De uma estimativa inicial entre 1,5 mil e 2 mil animais, registrada no começo dos anos 1990, o número ultrapassou 35 mil indivíduos, segundo levantamentos do Instituto Baleia Jubarte. A recuperação é resultado de décadas de monitoramento, pesquisas científicas e ações voltadas à proteção da espécie.
Um dos principais locais de reprodução das jubartes no país é o arquipélago de Abrolhos, no sul da Bahia. Todos os anos, as baleias deixam as águas geladas da Antártica e percorrem milhares de quilômetros até a região, onde acasalam e dão à luz seus filhotes.
Durante o período de migração, pesquisadores e turistas participam de expedições marítimas para observar os animais. O primeiro sinal costuma ser o borrifo, formado pela condensação do vapor da respiração da baleia ao entrar em contato com o ar. A partir dele, as embarcações identificam a direção dos animais e acompanham seus movimentos.
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As jubartes também podem ser reconhecidas pelas marcas na parte inferior da cauda. Cada desenho possui características próprias, funcionando como uma espécie de impressão digital que permite identificar indivíduos e acompanhar seus deslocamentos ao longo dos anos.
A história das jubartes no Brasil foi marcada por décadas de caça comercial. Desde o período colonial, os animais eram capturados principalmente para a extração de gordura, transformada em óleo utilizado na iluminação.
A caça foi proibida no país em 1987, após anos de mobilização em defesa da espécie. No ano seguinte, durante os trabalhos relacionados à implantação do Parque Nacional Marinho dos Abrolhos, pesquisadores identificaram uma pequena população sobrevivente na região.
A descoberta motivou o fotógrafo de vida selvagem Enrico Marcovaldi e a bióloga Márcia Engel a criarem o Projeto Baleia Jubarte, com o objetivo de estudar e proteger os animais. Em 1996, a iniciativa foi formalizada como instituto e passou a contar com o patrocínio da Petrobras, que permanece como sua principal financiadora.
O crescimento populacional foi considerado um marco para a conservação marinha. Em 2014, a espécie deixou a lista de animais ameaçados de extinção no Brasil.
O levantamento mais recente mencionado pelo instituto registrou mais de 35 mil baleias em 2022. Uma nova estimativa está em andamento e pode apresentar números um pouco inferiores. Segundo Marcovaldi, essa variação não representa necessariamente um retrocesso, já que a distribuição dos animais muda de uma temporada para outra.
FOTOGRAFIAS E TECNOLOGIA AJUDAM A IDENTIFICAR OS ANIMAIS
Ao longo de quase 40 anos de trabalho em Abrolhos, Enrico Marcovaldi acompanhou a evolução das pesquisas e o aumento da população de jubartes. As fotografias feitas por ele e por outros pesquisadores permitiram identificar mais de 10 mil animais.
Inicialmente, os registros fotográficos eram uma das principais ferramentas utilizadas para estimar a população. Atualmente, as imagens também são inseridas em plataformas colaborativas internacionais, que recorrem à inteligência artificial para comparar as marcas das caudas e verificar se uma baleia já foi catalogada anteriormente.
A estimativa populacional mais abrangente do instituto é realizada por meio de sobrevoos ao longo do litoral brasileiro, entre São Paulo e o Rio Grande do Norte.
Além de contar os animais, os pesquisadores coletam pequenas amostras de pele e gordura para análises genéticas e outros estudos. O material é obtido com uma flecha própria para biópsias, projetada para retirar uma pequena amostra sem causar ferimentos graves.
MUDANÇAS CLIMÁTICAS E POLUIÇÃO PREOCUPAM PESQUISADORES
Apesar dos avanços na conservação, as jubartes continuam enfrentando ameaças relacionadas à atividade humana. Entre os principais desafios estão a poluição dos oceanos, a presença de microplásticos e os efeitos das mudanças climáticas sobre a disponibilidade de alimento.
O diretor-executivo do Instituto Baleia Jubarte, Eduardo Camargo, afirma que um dos principais objetivos da organização é conciliar as atividades humanas com a preservação das baleias e de outros cetáceos.
As alterações ambientais podem afetar a oferta de alimento nas regiões polares, influenciando o ciclo de vida dos animais. Por isso, diferentes pesquisas procuram compreender como as mudanças na temperatura e nas condições do oceano interferem na saúde, na reprodução e na sobrevivência das jubartes.
Uma das linhas de investigação utiliza imagens captadas por drones desde 2018 para analisar o comprimento, o peso estimado e a condição corporal das baleias. O trabalho é desenvolvido pela bióloga e mestranda Laura Aguiar, da Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC).
A partir da comparação entre diferentes temporadas, a pesquisadora busca identificar possíveis relações entre a condição física dos animais e fatores ambientais.
Outra pesquisa, conduzida pela também mestranda Bruna Baleeiro, utiliza registros fotográficos acumulados ao longo de mais de 30 anos para atualizar as estimativas populacionais e investigar a frequência com que os mesmos indivíduos retornam ao Brasil.
Os dados podem ajudar a calcular taxas de sobrevivência e compreender como as condições ambientais influenciam a permanência das baleias na população.
PESQUISAS REVELAM ROTAS MIGRATÓRIAS E COMPORTAMENTOS
O Instituto Baleia Jubarte também contribuiu para esclarecer a relação entre as áreas de reprodução no Brasil e as regiões de alimentação na Antártica.
Em 2006, pesquisadores compararam fotografias de caudas de baleias registradas no litoral brasileiro com imagens obtidas nas ilhas Geórgia do Sul e Sandwich do Sul. A identificação dos mesmos indivíduos nas duas regiões ajudou a confirmar a conexão entre os locais.
Análises genéticas também identificaram parentesco entre animais encontrados em áreas distintas, incluindo uma correspondência semelhante à relação entre mãe e filho.
As pesquisas indicaram que as jubartes utilizam as águas brasileiras principalmente para reprodução e nascimento dos filhotes, enquanto as regiões próximas às ilhas antárticas funcionam como importantes áreas de alimentação.
Os estudos também avançaram na compreensão do comportamento dos animais. A pesquisadora Bianca Righi, durante seu doutorado na Universidade Estadual de Santa Cruz, investigou a relação entre fêmeas e filhotes e descreveu um comportamento de proteção observado com o auxílio de drones.
Em uma das situações registradas, uma fêmea cruzou as nadadeiras peitorais e manteve o filhote junto ao corpo, nadando de costas e virando a barriga para cima enquanto machos tentavam se aproximar para acasalar. O comportamento foi interpretado como uma estratégia de proteção do filhote.
INSTITUTO FORMA PESQUISADORES E AMPLIA CONHECIMENTO CIENTÍFICO
Além de monitorar as baleias, o instituto tornou-se um importante centro de pesquisa e formação de profissionais especializados em conservação marinha.
Mais de 700 estudantes de graduação já participaram do programa de estágio da organização, colaborando com a coleta de dados e atividades de educação ambiental. O trabalho também contribuiu para a conclusão de aproximadamente 60 projetos de mestrado e doutorado e a publicação de mais de 130 artigos científicos.
O diretor de pesquisas Milton Marcondes, médico-veterinário que participou das mobilizações contra a caça às baleias em 1987, destaca a importância da produção de conhecimento para preencher lacunas deixadas pelo período de exploração comercial.
Atualmente, o instituto mantém parcerias com universidades e pesquisadores de diferentes áreas, incluindo ecologia, zoologia e genética. O objetivo é ampliar a compreensão sobre a espécie e desenvolver estratégias para reduzir os impactos ambientais.
CONHECIMENTO CIENTÍFICO CONTRIBUI PARA POLÍTICAS DE CONSERVAÇÃO
O trabalho do Instituto Baleia Jubarte também auxilia na formulação de políticas públicas e na orientação de empresas interessadas em reduzir os impactos de suas operações sobre o ambiente marinho.
Um exemplo citado pela Petrobras foi a alteração da rota de embarcações que atendem ao Terminal Aquaviário de São Sebastião, no litoral paulista. A mudança foi planejada com base em informações sobre os deslocamentos das baleias, buscando evitar a passagem dos barcos por áreas importantes para a migração.
Segundo a empresa, o monitoramento permite identificar riscos e ajustar operações para diminuir os efeitos sobre a natureza.
A Petrobras financia o instituto desde sua criação. Para o ciclo atual de quatro anos, foram destinados aproximadamente R$ 30 milhões às atividades da organização.
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Para os pesquisadores, a recuperação das jubartes demonstra a importância da conservação baseada em ciência, fiscalização e cooperação entre instituições. Embora a população tenha crescido significativamente, a continuidade desse avanço depende da proteção dos oceanos e da redução dos impactos provocados pelas atividades humanas.