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Diágoras Spinoza - A proposta do presidenciável Renan Santos, do Missão, de dividir o continental município de Barcelos, no Alto Rio Negro, provavelmente não dará em nada. Terá, com toda a pompa republicana, o destino reservado às grandes questões brasileiras, a gaveta do esquecimento nacional.
A gaveta é uma das instituições mais sólidas da República. Não tem orçamento, não presta contas, não sofre fiscalização e funciona há décadas com uma eficiência que faria inveja a qualquer órgão público.
Quando aparece um problema complicado, cria-se uma comissão. A comissão produz um relatório. O relatório recomenda novos estudos. Os estudos exigem audiência pública. A audiência pública cria uma comissão especial. A comissão especial, depois de muito trabalhar, encaminha tudo para a gaveta.
A gaveta, diligente, fecha-se. Foi assim que o Brasil descobriu uma coisa extraordinária. Barcelos é grande. Muito grande.
Terra do empresário Antônio Zacarias e do saudoso senador Fábio Lucena Bittencourt, Barcelos possui 122.453 quilômetros quadrados. É maior que vários estados brasileiros. Não é apenas um município de dimensões continentais. É quase uma provocação geográfica dirigida à burocracia da esculhambação nacional.
Um cidadão pode atravessar Barcelos durante horas, dias, talvez uma eternidade amazônica, e continuar rigorosamente dentro do mesmo município. Se perguntar onde termina a prefeitura, alguém provavelmente apontará para o horizonte e dirá: lá adiante. Quanto? Depende do rio. É a chamada administração por GPS amazônico.
Barcelos não é apenas um município. É uma espécie de teste de resistência para a própria ideia convencional de município. São mais de 122 mil quilômetros quadrados administrados a partir de uma sede municipal diante de uma realidade em que rios, comunidades dispersas, distâncias monumentais e dificuldades logísticas fazem qualquer conceito de “perto” parecer piada de salão.
A PESSOA ERRADA
É nesse cenário que apareceu Renan Santos. O presidenciável do Missão resolveu mexer no vespeiro e incluiu Barcelos em sua proposta de reorganização territorial. O documento fala em reavaliar territórios considerados desproporcionais à capacidade administrativa do ente. Barcelos aparece nominalmente.
Mas, o assunto nasceu com um defeito imperdoável. Foi levantado pela pessoa errada. Há uma curiosa tradição política brasileira segundo a qual uma boa ideia, quando pronunciada pela pessoa errada, transforma-se imediatamente em ideia ruim. O conteúdo é submetido a uma espécie de exame ideológico antes de ser autorizado a existir.
Funciona mais ou menos assim. O assunto merece discussão? Merece. Quem falou? Renan Santos. Ah, isso é besteira. E está encerrada a discussão.
É nesse momento que a política brasileira demonstra sua extraordinária capacidade de separar o conteúdo da embalagem. Se o sujeito é simpático, a proposta vira ousadia. Se é antipático, vira maluquice. Se pertence ao campo adversário, vira ameaça à democracia. Se ninguém sabe de onde veio, vira “tema complexo”.
E Barcelos fica lá. Lá nos cafundós do Alto Rio Negro. Gigante. Lindo. Misterioso. Distante. Quase invisível aos olhos de um país que só costuma olhar para a Amazônia quando precisa de uma fotografia, de uma estatística, de uma matéria internacional ou de uma tonelada de alguma coisa que tenha valor em dólar.
O mais curioso é que a proposta de Renan Santos não é exatamente um projeto pronto para Barcelos. Não há ali um mapa dizendo onde se divide, onde se cria alguma coisa ou onde se transfere alguma outra. Há uma provocação territorial. E provocação, no Brasil, é coisa perigosíssima. Provoca a necessidade de pensar. E pensar sobre a organização territorial da Amazônia é quase uma atividade subversiva.
Imagine um grupo de técnicos reunido em Brasília. Senhores, temos um município de mais de 122 mil quilômetros quadrados, com população relativamente pequena e dispersa, comunidades acessíveis predominantemente por rios e enormes dificuldades logísticas. Talvez devêssemos estudar se a estrutura administrativa atual é realmente a mais adequada.
Faz-se silêncio. Um assessor levanta timidamente a mão e pergunta se não seria melhor simplesmente não estudar. A sala inteira respira aliviada. O problema está resolvido. O assunto foi para a gaveta.
Mas o problema é que a Amazônia não cabe na gaveta. Acho que é esse o pecado de Barcelos. Ter um tamanho que obriga o Brasil a pensar grande.
DIVIDIR OU NÃO DIVIDIR
A discussão não deveria começar pela pergunta simplória sobre dividir ou não dividir. Deveria começar por outra, muito mais incômoda. A atual organização territorial da Amazônia é realmente a melhor maneira de levar Estado, serviços públicos, infraestrutura, segurança, educação e oportunidades econômicas a quem vive nesses territórios gigantescos?
A pergunta não pertence a Renan Santos. Não pertence ao Missão. Não pertence à direita, à esquerda, ao centro, ao centrão ou à próxima invenção semântica da política nacional, talvez um centro-esquerda liberal com sensibilidade amazônica e responsabilidade fiscal moderadamente desenvolvimentista. A pergunta pertence ao rincão amazônico.
E aí a coisa fica séria. Barcelos pode continuar como está. Pode ser estudado. Pode ser dividido. Pode permanecer inteiro. Pode ganhar outro desenho administrativo no futuro. Pode até transformar-se, algum dia, em exemplo de uma nova concepção territorial para a Amazônia.
Contudo, uma coisa parece cada vez menos razoável. Recusar a discussão só porque quem levantou a questão é um adversário político. Até porque é perfeitamente possível discordar de Renan Santos em outras propostas, criticá-lo, fiscalizá-lo e contestá-lo, inclusive quanto à sua política de zonas econômicas especiais e ao silêncio de seu plano sobre a Zona Franca de Manaus, sem transformar Barcelos em refém de uma guerra política que nada tem a ver com seus habitantes.
Uma coisa não deveria cancelar a outra. Aliás, essa é a ironia mais amazônica de todas. O homem chega de fora, aponta para Barcelos e diz que aquilo precisa ser reavaliado. O Amazonas responde que é um absurdo. Depois da indignação, todos voltam para casa.
E Barcelos continua lá. Com seus 122 mil quilômetros quadrados, seus rios, suas comunidades, suas distâncias, suas riquezas e seus problemas. A burocracia continua com suas gavetas. Brasília continua estudando. E o Brasil continua descobrindo, a cada geração, novas maneiras de adiar aquilo que não tem coragem de enfrentar.
Um dia, talvez, alguém abra a gaveta. Vai encontrar o projeto. Vai tirar o pó. Vai convocar uma comissão. A comissão criará uma subcomissão. A subcomissão pedirá um estudo. O estudo recomendará outro estudo. O segundo estudo concluirá que o assunto é complexo.
Alguém perguntará o que fazer. O presidente da comissão, com a serenidade ancestral dos estadistas brasileiros, responderá que é melhor arquivar.
SERRA DO ARACÁ E OS MINÉIROS
Barcelos, lá no Alto Rio Negro, continuará sendo maior que muitos estados da República. Continuará sendo uma imensidão administrada à distância. Continuará sendo rico. Continuará sendo pobre. Continuará sendo lembrado quando interessar. E esquecido quando importar.
É que, na Amazônia, “depois” costuma ser apenas a forma burocraticamente elegante de dizer “nunca”. E esse “nunca” tem um preço.
A Serra do Aracá guarda riquezas minerais. Barcelos também ostenta reservas de diamantes, granitos, rochas ornamentais e outros recursos de extraordinário valor. A floresta, os rios, o subsolo e a biodiversidade acumulam riquezas que há séculos despertam o apetite de quem possui capital, tecnologia e poder para transformá-las em patrimônio.
O paradoxo é quase obsceno. A riqueza está lá. A tecnologia está em outro lugar. O capital está em outro lugar. As decisões estão em outro lugar, nos Estados Unidos, na China, na Rússia, etc. E o desenvolvimento, esse, fica sempre para depois.
O ouro, o diamante, o granito, a madeira, a biodiversidade e tudo aquilo que pode ser convertido em riqueza encontram caminhos. Estradas, portos, mercados e interesses aparecem com uma velocidade impressionante quando existe lucro.
Só o Estado demora. Só a escola demora. Só a saúde demora. Só a infraestrutura demora. Só a dignidade pode esperar.
Essa é a tragédia mais profunda de Barcelos. Não a distância de Brasília, mas a distância entre a riqueza de seu território e a pobreza da atenção que o Brasil lhe dedica.
RISCO DE SEGUIR POBRE
Há lugares que são pobres porque não têm recursos. Barcelos corre o risco de continuar pobre porque os recursos que possui são maiores do que a capacidade política de transformá-los em futuro para quem vive ali.
E então chegamos ao ponto em que a ironia já não basta. Não é engraçado que um município maior que vários estados brasileiros possa ser administrativamente tratado como uma nota de rodapé.
Não é engraçado que uma das regiões mais ricas do planeta continue esperando por serviços públicos elementares.
Não é engraçado que o Brasil descubra a Amazônia sempre pelo valor de suas riquezas e quase nunca pelo valor de seu povo.
E não é engraçado que, enquanto discutimos quem teve a ideia, de onde veio a ideia e qual partido poderá lucrar com a ideia, a própria Amazônia continue pagando a conta da nossa incapacidade de pensar para além da próxima eleição.
Creio que Barcelos não precise ser dividido, mas respeitado. Talvez o território não seja o problema, já que o problema parece ser a nossa maneira pequena de administrá-lo.
Essa é a última ironia. O maior município do Brasil não cabe na gaveta, mas a Amazônia inteira, aparentemente, ainda cabe na nossa consciência, porque basta fechá-la para não vermos nada.
Barcelos continuará lá. A riqueza continuará lá. O povo continuará lá. E Brasília continuará dizendo que é cedo demais para decidir.
Na Amazônia, porém, há uma crueldade escondida nessa palavra. “Cedo demais”. Para quem? Para quem espera há décadas, “depois” não é prudência. É abandono. É miséria. E, quando o abandono finalmente recebe um nome elegante, costuma-se chamá-lo de política de Estado.
Abaixo a canalhice brasileira contra Barcelos!