
*Por Diágoras Spinoza - Dizem que o Brasil não é para amadores. A BR-319 prova que também não é para engenheiros, ambientalistas, políticos ou qualquer cristão que ainda acredite em planejamento.
A estrada nasceu com um objetivo singelo: ligar Manaus a Porto Velho. Coisa simples, quase romântica. Mas evoluiu. Hoje é uma espécie de entidade amazônica: metade rodovia, metade polvo, com tentáculos que brotam sem autorização divina, licença ambiental ou vergonha na cara.
Segundo o Observatório BR-319 — uma Ong que é contra e faz das tripas coração para travar a BR-319 —, existem cerca de 18.900 quilômetros de ramais ao redor da estrada. Repito: a BR tem pouco mais de 800 km. Os “filhotes” já dariam para atravessar continentes com direito a parada pra café e troca de motorista na maior tranquilidade.
Quando somam tudo — estrada, ramal, picada, trilha, atalho, puxadinho viário e criatividade nacional — já passam de 43 mil vias mapeadas. É muita estrada e vigilância federal incrivelmente zero.
Na prática, virou um sistema viário paralelo, autogerido, espontâneo e completamente fora de qualquer noção de controle. Um SUS da clandestinidade, casa de mãe Joana, um SUS universal, gratuito e sem regulação.
O mais bonito é a origem dessas obras. Nenhuma teve licenciamento, não teve audiência pública, não teve estudo de impacto. Foi tudo no estilo “vi, gostei, abri, quem manda sou eu, e pronto”. A floresta acorda num dia e, quando vê, ganhou uma estrada nova.
E quando alguém resolve olhar mais de perto, descobre o requinte da situação: mais de 2.200 km dentro de Unidades de Conservação e cerca de 1.300 km em terras indígenas. Ou seja, exatamente onde estrada não poderia existir.
GENIALIDADE BRASILEIRA
Mas aí entra o toque de genialidade brasileira. A BR-319 oficial vive em estado de meditação profunda, como algo sobrenatural mesmo: estuda, reestuda, debate, reabre o debate, cria grupo de trabalho, faz seminário, consulta pública, audiência, oficina, escuta sensível e, se sobrar tempo, não decide nada.
Enquanto isso, a BR-319 clandestina, a BR dos tempos modernos, opera no modo startup: ágil, disruptiva e sem burocracia. Abre ramal no sábado, expande no domingo e na segunda já tem movimento. É como se o país tivesse criado dois modelos de desenvolvimento: um que precisa de licença até pra respirar e outro que desmata, abre estrada e fatura antes do almoço. E curiosamente, o segundo modelo é bem mais eficiente.
Aí entra a cena clássica. De repente, um “Condestável da República” chega, inaugura ponte, corta fita, tira foto, fala bonito sobre integração nacional. E lá atrás, longe do palanque, a floresta vai sendo desenhada naquele padrão consagrado como “espinha de peixe”.
Aliás, nem espinha mais é. Já virou um cardume completo, com filhote, primo, agregado e padrinho. E o mais fascinante: a conivência.
Quando se fala da pavimentação oficial, o debate vira ópera. Todo mundo canta, grita, argumenta, protesta. Mas quando o assunto são dezenas de milhares de quilômetros de ramais ilegais, o som baixa, o microfone falha e a plateia finge que foi ao banheiro urinar ou cagar.
A conivência espanca a cara da região, talvez porque, no Brasil, a clandestinidade resolveu um problema histórico: ela não depende de consenso.
SEM ESTADO, SEM REGRA
No fim das contas, a BR-319 virou uma tese viva sobre o país: o que é legal emperra, o que é ilegal prospera e o que é urgente vira evento com coffee break.
Seguiremos inaugurando pontes sobre rios e ao redor, crescerá um emaranhado de estradas invisíveis, sem placa, sem dono e sem controle. Estradas que ninguém assume, mas todo mundo usa, inclusive o crime organizado, que agradece a eficiência desse modelo “sem Estado, sem regra e sem pergunta”.
No ritmo que vai, qualquer dia desses alguém inaugura oficialmente a BR-319 clandestina. Com placa, discurso, fita e tudo. E aí sim, finalmente, o Brasil resolve o problema: legaliza o que nunca conseguiu controlar e chama de planejamento o que sempre foi improviso. É que, no fim, o maior projeto de infraestrutura da BR-319 não é a estrada. É a cara de pau.
A BR-319 é uma estrada que ficou igual roça abandonada: quando alguém olha, já tem caminho pra todo lado. E tome caminho ... E dinheirinho boooommm...