Temperaturas elevadas, ar seco e queimadas afetam rendimento, recuperação e até equipamentos utilizados nas atividades esportivas
O calor intenso e a fumaça provocada pelas queimadas têm alterado a rotina de treinamento de atletas em Manaus. Na Vila Olímpica, no bairro Dom Pedro, treinadores precisaram modificar horários, reduzir a duração de algumas atividades e reforçar os cuidados com hidratação para amenizar os efeitos das condições climáticas.
A treinadora olímpica Margareth Bahia explica que os treinos passaram a ser organizados de acordo com os períodos de menor exposição ao calor. Pela manhã, quando necessário, as atividades começam mais cedo. Já os trabalhos técnicos são transferidos para o fim da tarde.
“Temos tentado treinar um pouco mais tarde a parte técnica ou iniciado o treino mais cedo quando a gente precisa fazer de manhã. Mas a gente está tendo dificuldade, principalmente o pessoal do lançamento de dardo, porque o campo fica extremamente ressecado”, relatou.
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O estado do campo também se tornou um desafio para os atletas. Uma equipe realiza a irrigação do espaço, mas, segundo a treinadora, o serviço nem sempre consegue atender à necessidade dos treinamentos.
Durante os exercícios de lançamento de dardo, por exemplo, a equipe prioriza a irrigação das áreas onde o equipamento costuma cair. Mesmo assim, a quantidade de água disponível nem sempre é suficiente para manter o terreno em condições adequadas.
O ressecamento do solo também pode provocar danos aos equipamentos. Segundo Margareth, um dardo já chegou a quebrar durante os treinamentos devido às condições do campo.

Bairro Dom Pedro, onde fica localizada a Vila Olímpica,
registra a maior temperatura de superfície da capital, em um
padrão térmico que já atinge mais de 85% dos moradores de Manaus
CALOR REDUZ RITMO E DURAÇÃO DOS EXERCÍCIOS
Além dos problemas estruturais, as altas temperaturas interferem diretamente no rendimento dos atletas. Quando os treinadores percebem sinais de desgaste, a intensidade ou a duração da atividade é reduzida.
“Quando a gente percebe que o atleta não está em condições, a gente acaba parando o treino mesmo”, afirmou Margareth.
Atletas de diferentes modalidades são afetados. Os praticantes de salto enfrentam o aquecimento da areia, enquanto os corredores precisam lidar com temperaturas elevadas durante os exercícios.

Atletas têm treinando no fim da tarde como
forma de driblar o calor extremo
O treinador Thiago de Melo, responsável por velocistas, corredores de meio-fundo, fundo e atletas de rua, também alterou os horários das atividades.
Segundo ele, treinos que começavam por volta das 16h passaram a ser realizados às 17h ou até 17h30, dependendo da atividade. Os trabalhos de academia também foram transferidos para um ambiente climatizado.
“Tudo isso para eles não sofrerem. Poucos atletas irão competir nesse momento, então o volume de treino está mais baixo e a intensidade alta, enquanto a duração do treinamento está por volta de uma hora”, explicou.

Treinadora Margareth Bahia
FUMAÇA TAMBÉM INTERFERE NAS ATIVIDADES
A presença de fumaça durante o período de queimadas acrescenta outra dificuldade à rotina esportiva. Em anos anteriores, segundo Margareth, treinamentos chegaram a ser suspensos quando a qualidade do ar ficou comprometida.
A estratégia adotada atualmente é concentrar parte das atividades no fim da tarde e início da noite, quando as condições podem ser mais favoráveis.

Treinador Thiago Melo
“Antes treinávamos a partir de 15h30. Agora temos empurrado o treino mais para o finalzinho da tarde, a partir das 16h30, 17h, para o início da noite”, explicou.
A equipe também adquiriu duas mangueiras de irrigação de 100 metros para tentar reduzir os efeitos do ambiente seco na Vila Olímpica.
POR QUE MANAUS FICA AINDA MAIS QUENTE?
Além das condições climáticas típicas da região, a expansão urbana contribui para o aumento das temperaturas em diferentes áreas de Manaus. O chamado fenômeno de ilha de calor urbana ocorre quando construções, asfalto e outras superfícies absorvem e armazenam grande quantidade de energia solar.
O professor Leonardo explica que o processo está relacionado principalmente à absorção do calor por asfaltos e telhados, à retenção da temperatura por estruturas de concreto e à redução da cobertura vegetal.
As árvores ajudam a amenizar o calor por meio do sombreamento e da evapotranspiração, processo pelo qual a vegetação libera água para a atmosfera e contribui para a redução da temperatura.
Dados de satélite citados em levantamento da InfoAmazonia mostram diferenças expressivas entre áreas urbanizadas e regiões com maior cobertura vegetal. O bairro Dom Pedro, por exemplo, apresenta temperatura de superfície cerca de 5,4°C superior à registrada na Reserva Ducke.
O levantamento também aponta que mais de 85% dos moradores de Manaus vivem em áreas pelo menos 3°C mais quentes do que regiões próximas com vegetação nativa.
ESPECIALISTA RECOMENDA ADAPTAÇÃO
Para o professor Marcelo, proprietário da FITI Academia, as altas temperaturas não significam necessariamente que a prática de exercícios precise ser interrompida. A orientação é adaptar os horários, os locais e a intensidade das atividades.
Entre as alternativas estão treinar em ambientes fechados e climatizados ou realizar exercícios ao ar livre no início da manhã ou à noite, quando as temperaturas tendem a ser menores.
A hidratação também deve receber atenção especial, principalmente durante períodos de calor intenso. Pessoas mais vulneráveis, como idosos, precisam de cuidados adicionais durante a prática de atividades físicas.
“Não é deixar de treinar, é uma adaptação. Talvez nesse momento seja importante, se puder, continuar as caminhadas na esteira, alternar os ambientes ou treinar cedinho, 6h, 7h, ou à noite”, orientou.
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Com a combinação de calor intenso, ar seco e fumaça, atletas e treinadores de Manaus precisam adaptar a rotina para manter os exercícios sem comprometer a segurança e o desempenho esportivo.