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*Por Diágoras Spinoza - Manaus acordou de novo com a mesma cara: poça d'água que não seca nem no verão, viaduto virando depósito clandestino de lixo e um trânsito que parece coreografia de formiga bêbada. No meio disso tudo, candidatos disputam o Palácio da Compensa como quem briga por uma cadeira em festa de aniversário, cada um torcendo pra sentar antes que a música pare.
A boa notícia é que já dá para separar quem chegou com um bom programa de governo de quem apareceu apenas com um estoque de frases de efeito. Há quem apresente propostas concretas. Há quem apresente adjetivos.
Omar Aziz (PSD) entrou em campo carregando currículo. Governou o Estado, conhece os números dos ministérios de cor, sabe onde cada convênio federal costuma emperrar. Não precisa reinventar a roda para falar de saneamento. Já percorreu essa estrada e conhece onde ficam os buracos. É o tipo de candidato que troca o discurso pela planilha. Seu programa merece atenção.
David Almeida (Avante), por sua vez, resolveu jogar limpo, no sentido literal da expressão. Na convenção, falou de algo que quase ninguém gosta de transformar em bandeira eleitoral: limpeza urbana. Colocou infraestrutura ao lado de saúde, educação, habitação e turismo, lembrando que cidade bonita não é apenas a da propaganda de outdoor.
David também prometeu levar água potável aos 38 municípios que ainda convivem com um serviço precário, onde abrir a torneira continua sendo um privilégio. Pode não ter resolvido todos os problemas da Prefeitura de Manaus, mas ao menos chama os problemas pelo nome. E, convenhamos, num ambiente político em que muitos confundem obra pública com cerimônia de inauguração, isso já representa algum avanço.
BABOSEIRAS DE SEMPRE
Quanto aos demais candidatos, o pelotão continua marchando ao som das velhas promessas de "reconstruir o Amazonas", expressão repetida com a mesma convicção de quem promete começar a dieta na próxima segunda-feira.
Quase ninguém fala do viaduto que virou aterro sanitário improvisado, do trânsito que rouba duas horas por dia de quem mora na Zona Norte, das UBSs onde a fila parece romance russo ou do saneamento básico, que, em boa parte do interior, continua sendo uma ideia mais presente nos livros do que nas torneiras.
Também faltam discursos sobre assuntos pouco fotogênicos: drenagem urbana para impedir que qualquer chuva transforme Manaus em arquipélago ou calçadas decentes para quem anda a pé, assim como acessibilidade para idosos e pessoas com deficiência, iluminação pública nas periferias e manutenção de igarapés antes que virem canais de esgoto.
E faltam, ainda, posturas de combate às ligações clandestinas de água e energia, arborização planejada para amenizar o calor que cozinha a cidade, regularização fundiária para milhares de famílias, modernização do transporte coletivo e integração entre ônibus e transporte fluvial.
O povo, igualmente, há décadas cobra políticas permanentes de prevenção às enchentes, incentivo à economia criativa e ao pequeno empreendedor, e um plano sério para enfrentar os fios pendurados nos postes, que já parecem instalação artística financiada pelo abandono.
Puta merda, até agora ninguém explicou como pretende reduzir a burocracia que faz um empreendedor perder meses para abrir um negócio, nem como acelerar a digitalização dos serviços públicos para que o cidadão deixe de peregrinar entre repartições atrás de um carimbo.
Tampouco apareceu alguém de esquerda ou direita que assuma o compromisso de divulgar metas mensais, indicadores e cronogramas, permitindo que a população acompanhe se as promessas saíram do palanque para a realidade.
“LIBERTAÇÃO PELA EDUCAÇÃO”
É fácil prometer "libertação pela educação" diante de um microfone. Difícil é explicar quem vai retirar o lixo debaixo do viaduto na semana seguinte. É fácil falar em "reforma", "mudança" ou "enfrentar os grandes grupos". Difícil é mostrar como isso chega ao ônibus lotado, à fossa a céu aberto no interior, ao posto de saúde sem médico ou à escola onde falta merenda.
Programa de governo não é manifesto. É cronograma. E cronograma tem prazo, orçamento, obra, cano enterrado, fiscalização e prestação de contas.
Manaus e o Amazonas não precisam de mais candidatos descobrindo seus problemas em ano eleitoral. Precisam de governantes que saibam onde está o esgoto, onde o poste está torto, onde a ponte ameaça cair, onde o asfalto desapareceu e que tenham coragem de dizer, com clareza, como pretendem resolver cada uma dessas questões.
Se nada disso acontece, a poça continua no mesmo lugar, esperando a próxima carreata passar por cima, de preferência sem respingar no eleitor. Vida que segue. E o Diágoras segue de olho.