Produtos à base de tirzepatida não têm registro na Anvisa, levantam dúvidas sobre segurança e podem configurar crime de importação.
Apesar de proibidas no Brasil, canetas emagrecedoras produzidas no Paraguai têm circulado de forma irregular no país nos últimos meses. Vendidas como versões genéricas do Mounjaro, medicamento cujo princípio ativo é a tirzepatida, essas canetas atraem consumidores pelo preço mais baixo em alguns casos, custando até um quinto do valor do produto oficial comercializado no Brasil.
A prática tem se intensificado em regiões de fronteira, onde brasileiros atravessam para adquirir os produtos e retornam ao país com as canetas, mesmo sem autorização sanitária. No entanto, especialistas alertam que esses medicamentos não possuem qualquer garantia de qualidade, eficácia ou segurança.
Segundo Gabriel Leonardos, ex-presidente da Associação Brasileira de Propriedade Intelectual, a ausência de proteção patentária no Paraguai permite que substâncias consideradas inovadoras em outros países sejam fabricadas livremente. Isso ocorre porque o país não é signatário do principal tratado internacional de proteção de patentes, adotado por mais de 100 nações.
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“Para o Paraguai, muitas invenções são tratadas como domínio público. Isso permite que qualquer empresa fabrique e venda substâncias que, em outros países, ainda estão protegidas por patente”, explica Leonardos.
É o caso da tirzepatida, patenteada no Brasil e produzida exclusivamente pela farmacêutica Lilly. No Paraguai, surgiram versões chamadas Lipoless, T.G., Tirzapep e outras, que alegam conter o mesmo princípio ativo.
RISCO À SAÚDE E ALERTA DAS AUTORIDADES
O principal ponto de preocupação das autoridades sanitárias é a falta de comprovação sobre o conteúdo dessas canetas. Sem registro na Anvisa e sem fiscalização brasileira, não há como assegurar que os produtos realmente contenham tirzepatida ou que sigam padrões adequados de fabricação.
Em nota oficial, a farmacêutica Lilly afirma que os produtos comercializados no Paraguai não são equivalentes ao Mounjaro e não foram aprovados como genéricos ou medicamentos similares no Brasil.
“A Lilly reforça que esses produtos não atendem aos critérios científicos, clínicos e de qualidade exigidos pela Anvisa ou por outros órgãos reguladores internacionalmente reconhecidos”, informou a empresa.
A própria Anvisa também se posicionou sobre o tema, destacando que o uso de medicamentos não autorizados compromete a rastreabilidade em casos de efeitos adversos e impede a adoção de medidas regulatórias adequadas.
IMPORTAÇÃO É CRIME, MESMO PARA USO PESSOAL
Embora exista a possibilidade legal de importar medicamentos sem registro em situações excepcionais mediante prescrição médica e autorização da Anvisa, esse caminho não se aplica às canetas paraguaias à base de tirzepatida, já que o produto foi expressamente proibido no país.
Assim, trazer essas canetas para o Brasil, mesmo para uso próprio, configura infração sanitária e pode caracterizar crime.
Leonardos reforça que a decisão da Anvisa não está relacionada à defesa de patentes, mas à proteção da saúde pública. “A agência avalia segurança e eficácia. Se proibiu, é porque identificou riscos relevantes”, afirma.
A Anvisa informou ainda que a fiscalização é realizada em conjunto com a Receita Federal, Polícia Federal e Polícia Rodoviária Federal, tanto em fronteiras quanto em aeroportos e rodovias.
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